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Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/XVI

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XVI

A CONSPIRAÇÃO

 

Dias depois, uma noite, estava Narizinho no melhor do somno, quando acordou com uma batida na janella.

Toc! ... toc!... toc!

— Quem é ? disse ella, pulando da cama, assustada.

— Boa noite, bella princeza, respondeu uma voz conhecida.Tenho um segredo a te revelar.

Era o sapo. Narizinho respirou, alliviada, e abrindo a janella perguntou-lhe o que havia.

— Tu me salvaste a vida, respondeu o sapo, e eu quero salvar a tua. Escuta lá. Depois que me tiraram as pedrinhas da barriga, eu sahi do jardim e fui encorujar-me num canto escuro para sarar da cortadura com todo o meu sossego. Achei uma tóca a meu geito e lá estava a cochilar, quando, á meia noite, ouvi cochicho de vozes ao lado. Como sou muito curioso, encostei o ouvido a uma fresta que dava para o carcere do Escorpião Negro e puz-me a escutar. A principio me pareceu que o monstro cego falava comsigo mesmo. Mas não era assim. O monstro conversava com o capitão da guarda, cuja voz conheço muito bem. Estavam conspirando contra o principe, e muito tempo levaram combinando os planos duma revolta afim de matar o principe e enforcar todos os nobres do reino. Combinaram tambem que subiria ao throno o Escorpião cego, sendo Narizinho obrigada a casar com elle...

A menina, mal ouviu aquillo, arregalou os olhos e ficou sem fala uma porção de tempo, com o coração aos pinotes.

— Tia Nastacia, acuda! exclamou ella, cahindo numa cadeira com um chilique tal que o major Agarra se viu em apuros para despertal-a com borrifos dʼagua fria. Quando Narizinho voltou a si, o sapo disse:

— Vamos, menina ! Nada de fraquezas. Eʼ preciso avisar o principe emquanto é tempo.

Narizinho, com lagrimas nos olhos, agradeceu o aviso do sapo e sahiu correndo em direcção aos aposentos do principe. Lá bateu na porta, furiosamente. O principe, assim que ouviu as pancadas, julgou que fosse o mordomo com a noticia dʼalgum novo inimigo que houvesse penetrado no reino, e corajosamente pulou da cama de espada na mão; mas vendo em sua frente Narizinho, em camisola, abriu a bocca, num espanto.

— Depressa, principe ! Estão conspirando contra a vossa vida !... disse ella. E desfiou toda a historia contada pelo sapo. O principe ouviu tudo em silencio, de cara amarrada. E depois de meditar uns momentos disse com uma grande calma:

— Estou acostumado á lucta e sei defender-me. Volta para o teu quarto e dorme sossegada que esta noite mesmo castigarei os criminosos.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.