Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Segunda parte/I
SEGUNDA PARTE
TEMPO DE JABOTICABA
Desdʼahi, volta e meia, Narizinho sonhava com o reino das Aguas Claras. O principe Escamado, dona Aranha, o major Agarra, o Escorpião Negro, o doutor Caramujo, todos, não lhe saíam da lembrança. E ficou de geito que era ver um bicho qualquer — formiga ou maribondo — e começava logo a imaginar a vida maravilhosa de cada um, lá na terrinha delles. Mas vieram as jaboticabas e Lucia esqueceu da bicharia.
Certa manhã de Setembro a jaboticabeira grande amanheceu como que envolvida numa toalha felpuda de flores, desde os galhos lá de cima até bem rente do chão.
Lucia, ao vel-a assim, deu tres pinotes de alegria e foi correndo contar o caso á vovó.
— A jaboticabeira grande está “assim!” de flôr, vovó!... Vae ser uma boniteza este anno !...
E, antes que a vovó respondesse, Lucia esfogueteou, como um busca-pé, em procura da tia velha que naquelle momento lavava roupa no corrego.
— Já viu, Nastacia, como está a jaboticabeira grande ? Parece uma geada !... Pena é custar tanto para amadurecer ! Até que caia a flôr, e o chumbinho encaróce, e cresça, e pinte, e preteje...
A preta largou de torcer o vestidinho ensaboado que tinha nas mãos, tirou o pito da bocca, cuspiu na correnteza e disse, resmungando:
— Credo, Narizinho ! Que pressa é essa ? Não sabe que jaboticaba é noite e flôr é dia ? Para que chegue a noite é preciso esperar que o dia passe, ué ?!...
— Mas custa tanto !... gemeu a menina, com uma saudade de jaboticabas na bocca.
— Pois o remedio é um só: esperar. Esperar sem pensar nisso o mez inteiro.
— Eu bem quero não pensar, mas não posso. Eʼ a agua da minha bocca que pensa, exclamou Lucia, recordando, com agua na bocca, a festa que para todos, alli na roça, era o tempo das jaboticabas. Festa para ella principalmente, para o leitão rabicó e para sanhaços e vespas.
Mas como não havia remedio, esperou.
Todas as manhãs, logo que pulava da cama, corria ao quintal, em visita á arvore querida. E assim viu cairem todas as flôres, viu encaroçar o chumbinho, viu esse chumbinho crescer até attingir o tamanho das grumixamas.
E certa linda manhã, que succedeu a quatro dias de chuva, a menina teve o gosto de entrever as primeiras fructas pintadinhas.
Bateu palmas de alegria.
— Viva ! viva !... e com uma vara cotucou a arvore, conseguindo apanhar uma, graúda e bem rajadinha. Provou-a.
— Azêda ! exclamou, careteando. Mas correu, contente, a dar a boa noticia aos da casa.
Uma semana depois as jaboticabas pretejaram todas.
Que gostosura ! Aquillo era pol-as na bocca e apertal-as com os dentes até que — tloc ! — um mel !
E, como era assim, Narizinho não fazia outra coisa. O dia inteiro na arvore, feita uma macaquinha, ia colhendo as mais bonitas e tloc !
E depois de tloc ! uma engulidela e pluf ! caroço fóra.
E, tloc! pluf! tloc ! pluf !, lá se passava o dia, num regalo !
Em casa a vovó, volta e meia, perguntava por ella.
— Onde estará Narizinho, Anastacia ?
— Aonde é que ha de estar ? resmungava a preta. Na “fruitera”. Não sabe que ella agora virou sanhaço ? e não desgruda da arvore ?
— Que aproveite, dizia a vovó. Está no bom tempo. Só não quero que engula caroço, ouviu ? Não me deixe Lucia engulir caroço, para não acontecer como no anno passado...
Estavam nisso, quando, no quintal, rompeu um berreiro.
Era Narizinho que vinha vindo, com a mão na cara e a bocca escancarada, num berro.
A velha ergueu-se, assustada, mas a preta sossegou-a logo:
— Não se espante atôa, Sinhá, aquillo é vespa. E sahiu, arrastando os chinellos, trec, trec ,trec, a encontrar-se com o berreiro.
— Que foi isso, meus peccados ? Vespa, não é ? Eu não disse que vespa mordia ? Velha está dizendo as coisas, creança não faz conta... Depois é isso — uma bocca de urutáu — cué ! cué ! cué ! — como se fosse o fim do mundo !
Tomou-a ao collo.
— Coitadinha da minha “nêga”... Onde foi ?
Narizinho respondeu, entrecortando as palavras de soluços:
— A-aqui... Aqui na po-onta do nariz...
— Bem feito ! exclamou a preta, examinando a ferrotoada. Quem manda ter esse narizinho arrebitado para o ar ?
— Ai ! A-ai !...
— Espera, menina, deixa tirar o ferrão. Está cá elle... Prompto ! E é dos graúdos — de maribondo caboclo !... Coitadinha do meu anjo!... Agora um bocadinho de fumo e a reinaideira fica prompta para outra, não é ?
— Nisto approximou-se a vovó, muito pé-pé, de tão velhinha que estava.
— Vespa mesmo, Anastacia ?
— Eu não disse ? Já estou acostumada. Todos os annos, no tempo da “fruita”, é sempre a mesma festa. Eʼ como queimar o dedinho no dia de S. João. A gente está falando, creança não ʼcredita...
Narizinho inda soluçava, com a cara vermelha, humida de riscos de lagrimas:
— Não vou mais lá-á, emquanto vovó não mandar matar to-odas aquellas malvadas... A vovó consolou-a, sorrindo:
— Sim, filhinha. Vou mandar a Anastacia cortar com a tesourinha o ferrão de todas as vespas do quintal.
A menina soluçou de novo, queixosa:
— Ellas mordem tão doido e vovó inda ca-açôa...

Meia hora mais tarde a velha chamava a menina para lhe enfiar uma agulha.
— Narizinho !...
E, como ninguem respondesse:
— Anastacia, não sabe onde anda o meu busca-pé ?
A preta fungou uma risada:
— Onde é que ha de andar ! na jaboticabeira outra vez... Emquanto houver uma “fruita” na arvore é aquella certeza: vespa, sanhaço, Narizinho e o leitão rabicó, está tudo lá, se regalando...
De facto. Esquecida já da ferroada, Narizinho lá estava na jaboticabeira — tloc ! pluf ! tloc ! pluf !...
E em redor della, as vespas, com meio corpo mettido dentro das jaboticabas furadas. E nos ramos lá de cima, os sanhaços gulosos, enchendo o papo, em silencio. E em baixo — ron, ron, ron — o leitão rabicó, atarefado em chamar para o bucho quanta casca ou caroço — pluf ! cahia no chão.
Tudo, igualzinho, como a preta dissera — se regalando !...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
