Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Segunda parte/IV
AS FORMIGUINHAS
Só depois de manducar o peixe frito é que a menina se lembrou da pobre boneca, a tremer de frio, entanguida pelo banho.
— A coitada!... Eʼ bem capaz de morrer de pneumonia...
E lá foi, corrrendo, cuidar della. Despiu-a e levou-a para um lugar de bastante sol. Dum lado, estendeu as roupinhas molhadas e de outro, a pobre Emilia, núa em pêlo. E ia retirar-se, quando a boneca fez cara de chôro.
— Eu aqui não fico sozinha...
— E porque, sua enjoada ? Tem medo que o leitão venha espiar esses cambitos ?
— Espiar é o de menos, mas elle é capaz de me comer...
— Nesse caso penduro você na arvore.
— Pelo amor de Deus, Narizinho ! E se as vespas me ferram ?
— Boba ! Não sabe que vespa não morde panno ?
— E si eu cair, com o vento ?
— Si cair, caiu. Grande coisa !... Boneca quando cae não se machuca. Eu é que não posso ficar. neste sol, toda a vida, esperando que a excellentissima senhora dona Emilia séque ! Quem mandou molhar-se ?
— Mal agradecida... Si não fosse a minha molhadela não comias a taririnha.
— Está pensando que era uma grande coisa a tal tarira ?... Só espinho...
— Mas a senhora bem que a papou, que eu vi...
— Papei porque quiz. Não tenho que lhe dar satisfações, han ! disse Narizinho, zangada, pondo-lhe a lingua.
Amuaram. Mas Narizinho ficou. Lá no intimo estava com receio de deixar a boneca sozinha naquelle sertão. Podia vir o Rabicó, e quem sabe até si alguma onça !...
Estava um sol quente, e muito silencio no quintal.
Nas arvores, só um ou outro tico-tico; e no chão, só formiguinhas ruivas. A menina, para matar o tempo, principiou a observar o corre-corre das formiguinhas e logo esqueceu a zanga com a boneca.
— Já reparou, Emilia, como as formigas conversam ? Que pena não entender a gente o que ellas dizem !...
— “A gente” é modo de dizer, replicou Emilia, porque eu bem que entendo o que ellas dizem.
— Verdade ?
— Verdade, sim. Entendo muito bem, e si ficares aqui commigo conto-te toda a historinha que ellas conversam. Repare. Vem uma de lá e outra de cá. Logo que se encontrem, pegam de prosa.
Dito e feito. As formigas encontraram-se e principiaram a tagarelar; depois, cada uma seguiu o seu caminho.
— Fiquei na mesma ! disse a menina.
— Pois eu não, retrucou a boneca. A de lá disse: “Encontrou o corpo do besourinho verde?” A de cá respondeu: “Não”. A de lá: “Pois volte e procure perto do pé de pitanga, lá naquella pedra onde mora uma paquinha. Esse besouro morreu hontem que eu vi”. A de cá: “Pois está direito, vou ver isso“. E foi.
Esta formiga que dá ordens deve ser a dona-de-casa do formigueiro. Tem uns ares de mandona e não sae daqui de perto, a entrar e a sair do buraquinho, como quem toma conta do serviço. A outra é carregadeira.
Devia ser isso mesmo porque logo depois chegou de fóra uma terceira formiguinha, muito apressada, que cochichou com ella e voltou para trás.
— Que é que disse esta ? perguntou Narizinho.
— Disse que tinham apanhado uma bella minhoca, ao pé da porteira, mas que precisavam de mais gente para carregal-a.
— Emilia, você está-me bobeando!...
exclamou a menina, desconfiada. Mas vou espiar, e si não fôr verdade, você me paga!.
E disparou em direcção da porteira Procura que procura, achou logo, á beira dum tijuco, uma pobre minhoca corcoveando com varias formiguinhas no lombo.
Teve vontade de libertar a prisioneira, mas a curiosidade de vêr o que acontecia foi maior, e lá deixou a minhoca entregue ao seu triste destino.
Novas formiguinhas foram chegando que, de um bote — zás!, ferravam a minhoca, duma vez ! Não demorou muito e já eram mais de vinte. A minhoca, cançada de corcovear, foi molleando o corpo e acabou morrendo. As formiguinhas, então, começaram a arrastal-a para o formigueiro. Que custo! A bicha pesava umas sete arrobas — arrobinhas de formiga — gorda que estava, e ia enganchando pelo caminho em quanto pedregulho ou capim havia; mas as carregadeiras, pacientes, davam volta a todos os embaraços e lá iam.
Afinal, depois de meia hora de trabalheira, deram com a minhoca em casa. Mas aqui nova atrapalhação. Não havia geito de recolher a minhoca inteira. E agora ? Nisto appareceu a formiga mandona, examinou o caso e deu ordem para que a picassem em doze pedacinhos.
Aquillo foi zás-traz ! Em tres tempos, em vez de minhoca havia no chão uma duzia de roletes de carne. Cada lote de tres formigas arrastou um rolete, de modo que, num instante, a carnaria toda soverteu pelo buraquinho a dentro.
— Sim, senhora ! exclamou a menina. Servicinho limpo ! Mas o demo queira ser minhoca neste quintal...
— Bem feito ! disse Emilia. Quem mandeu a minhoca ser abelhuda ? Si estivesse quietinha, como as outras, lá dentro da terra, não aconteceria nada. Bem feito !
— Você diz isso porque é de panno e não sabe o que é dôr... concluiu Narizinho, compassivamente.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
