Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Segunda parte/V
PEDRINHO PICHOCHOʼ
Uma hora depois a boneca já estava enxuta, mal e mal. Narizinho enfiou-a no bolso e voltou para casa, aos pinotes, com o estomago a dar horas.
E ao pôr o pé na sala já ouviu na cozinha o chiado da frigideira.
A menina farejou o ar com o seu narizinho arrebitado e disse:
— Hum ! Hoje é dia do senhor torresmo ! E gritou para dentro:
— Nastacia, um courinho para mim, bem pururúca, ouviu ?
A preta resmungou de lá:
— Deixe de prosa, vá lavar essas munhecas e venha arrumar a mesa que é o melhor. Tamanha menina o dia inteiro reinando, reinando...
Narizinho correu á bica do quintal, lavou as mãos e veiu enxugal-as no avental da preta.
— Que graça ! resingou esta. Virei toalha então ? Ande, leve esta terrina para a mesa, e chame a vovó antes que esfrie.
Minutos depois estavam á mesa as tres — a velha, Narizinho e Emilia.
Emilia tambem, sim ! Narizinho nada fazia sem a Emilia — nem jantar !... E na mesa lhe offerecia de todos os pratos, acabando por lhe grudar na bocca um celebre grão de arroz.
— Já que não sabe comer de verdade, coma de mentira, sua grande empalamada !... Não vê que está ficando magra e secca como um bacalháo de porta de venda ?
A vovó ria-se daquellas malucagens...
— Deixe estar, minha filha, que ainda te arranjo um companheirinho. O tio Antonio anda muito mal e si elle morrer vem morar comnosco o primo Pedrinho.
— O Pedrinho Pichochó ? indagou a menina.
— Ai, minha filha ! ralhou a velha. Que costume, esse, de botar appellido em toda a gente ! E muito feio, sabe ?
— Mas, vovó, o Pedrinho não é mesmo um pichochó inteirado ? Aquelle bico, aquelle pescoço, aquelle geitinho tivi-tivi...
— Inda que o seja, isso não é razão para você o chamar assim. Eʼ feio, ouviu? E si elle vier prenda essa linguinha, sinão fico zangada com você !...
— E quando morre o tio Antonio ?
— Como posso saber, menina ? Morre quando Deus quizer !...
— Então é Deus que quer que o tio Antonio morra ?
A velha sabia que quando Narizinho começava com estas perguntas não acabava mais, e gritou para dentro:
— Anastacia, traga logo os mangaritos para arrolhar o bico desta baitaca !...
A preta appareceu com um prato de mangaritos fumegantes e a tigella do mellado. E resmungou, como era seu costume:
— Coma isto, demoninho, que é melhor do que estar ahi atropelando sua vovó...
Lucia não se fez de rogada; esqueceu o tio Antonio, o Pedrinho, tudo, e se pôz, muito séria, a pellar os mangaritos quentes.
Nisto — ron, ron, ron — o leitão rabicó parou á porta, de focinho para o ar, farejando.
— Ei vem ! exclamou a menina. Ei vem vindo o guloso !... Espera ahi que já te dou umas casquinhas gostosas.
A preta olhou bem para o leitão e disse:
— E elle que aproveite, que o Natal está chegando.
— E que tem o Natal com o rabicó ? interrogou a menina.
— Tem que no Natal o rabicó vae para o fôrno.
Narizinho fuzilou um olhar de colera e bateu o pé:
— Não quero ! Não quero que matem o meu leitão !...
— Ué ? exclamou a preta. Que quer que se faça delle, então?
— Quero que o deixem crescer sossegado ! Não sabe que elle está se criando para casar com a Emilia ?
O leitão — ron, ron, ron — parece que entendeu a conversa e foi tratando de raspar-se. Mas a menina juntou num prato os restos do mangarito e correu atrás delle.
— Toma, rabicózinho, come isto, e fica sossegado, que si aquella diaba te quizer matar, eu... eu... eu nem sei o que faça !
O leitão, indifferente ás futuras desgraças, e sem dizer muito obrigado, tratou mas foi de limpar o prato, não deixando nem uma isquinha.
Guloso e mal agradecido...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
