Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Segunda parte/VI
O PRESUNTO DE PERNILONGO
A menina e a boneca dormiam juntas na mesma cama, abraçadinhas. E todas as noites, antes que o somno viesse, ferravam numa grande prosa.
Nesse dia, logo que se deitaram, Narizinho lembrou-se do caso das formigas.
— Mas, Emilia, como é que você entende a linguagem das formigas ?
Emilia pensou um bocado e respondeu:
— Entendo porque sou de panno !...
Lucia deu uma gargalhada.
— Isso não é resposta duma senhora intelligente. O meu vestido tambem é de panno e não entende coisa alguma !
Emilia pensou outra vez e disse:
— Então é porque sou de macella !...
Nova risada de Narizinho.
— Tambem não é resposta. Este travesseiro é de macella e entende a lingua das formigas tanto como eu.
— Então... então... engasgou Emilia, com o dedinho na testa e os olhos no fôrro. Então não sei !...
— Pois si não sabe, durma, senhora sirigaita, que é muito melhor dormir do que estar a dizer asneiras.
Emilia embezerrou, e Narizinho, virando-se para a parede, adormeceu.
Altas horas, estava ella no mais gostoso do somno, quando: toc ! toc ! toc ! na porta.
— Quem é ? perguntou.
— Sou eu, o Rabicó ! grunhiu o leitão, enfiando o focinho no quarto. Está ahi uma senhora ruiva que quer entrar.
— Pois que entre !
Rabicó escancarou a porta e deu passagem a uma formiga, de vestido vermelho e avental de renda. Trazia na cabeça uma salva de prata, coberta com um guardanapo de papel recortado.
— Que é que a senhora deseja ? perguntou a menina.
— Desejo entregar á senhora condessa este presente que lhe manda a rainha das formigas.
— Condessa ? exclamou Narizinho admirada. Qual condessa?
— A condessa Emilia, explicou a formiga.
— Hum ! fez a menina, rindo-se. Nem me lembrava mais que a Emilia era condessa !...
E, voltando-se para a boneca, senhorinha de somno pesado, deu-lhe tres cotovelladas na barriga:
— Acorde, diaba ! Eʼ com vossa excellencia o negocio.
Emilia sentou-se na cama, abriu a bocca, espreguiçou-se e, tonta de somno ainda, disse:
— Então... então é porque sou...
— Maluca ! Não se trata mais disso, e sim duma senhora que está ahi á sua procura. Acorde duma vez, pedra !... E sacudiu-a.
Só então Emilia acordou mesmo de verdade e espichando os braços recebeu o presente da formiga.
Eram croquetes, lindos croquetes, tostadinhos e cheirosos.
Emilia sorriu de gosto e tirando-os da salva exclamou:
— Diga a Sua Majestade que a condessa Emilia muito agradece o presente. Que os croquetes estão lindos e que ella é uma grande cozinheira!
Narizinho deu-lhe outra cotovellada:
— Idiota! Pensas, então, que foi a rainha quem fez os croquetes? Uma rainha lá póde ser cozinheira ? Você, Emilia, você!...
Emilia cahiu em si e pôz um remendo na asneirinha:
— Isto é... diga que a cozinheira della é uma grande cozinheira, entendeu ? E diga tambem que estão muito bonitos e gostosos os croquetes. Póde ir.
A criada formiga fez um cumprimento de cabeça e ia saindo quando a menina à reteve com um gesto.
— Presente, senhora condessa, paga-se com presente. Mande-lhe uma perninha daquelle pernilongo que matámos hontem com a vela.
— Eʼ verdade ! disse Emilia, pulando da cama e mandando a formiga esperar. Não me custa nada e a rainha vae ficar contentissima !
E pôz-se, de gatas, a procurar no chão o mosquito. Achou-o. Tirou-lhe uma perninha, enfeitou-a com um laço de fita, embrulhou-a num papel de seda e collocou-a na salva, com um cartão que dizia:
A S. Majestade, a Rainha da Cintura Fina,
offerece a humilde criada
Condessa Emilia
— Leve este presunto á rainha. E você, para distrahir-se pelo caminho, vá comendo este mocotó de pernilongo, que é muito gostoso, concluiu, dando á criada um cambito do insecto.
A criada agradeceu e sahiu, muito lampeira da sua vida, com a salva á cabeça e o mocotó no ferrão.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
