Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Segunda parte/VII
OS CROQUETES
Depois que a criada saiu, Emilia fechou a porta e veiu examinar os croquetes. Cheirou-os.
— Hum ! Estão de encher a bocca dʼagua ! Queres provar, Narizinho ?
A menina torceu o nariz, desdenhosamente.
— Deus me livre ! Isso com certeza é croquete de minhoca !...
Emilia percebeu que Narizinho estava despeitada pelo facto da rainha não ter-se lembrado della. E retrucou, cantarolando:
— Quem desdenha quer comprar...
— Só ? Engraçadinha !... replicou Lucia, de nariz torcido, com ar de pouco caso.
E vendo Emilia manducar um croquete, de olhos arregalados, como si aquillo fosse um petisco do céo:
— Está bôa mesmo para casar com o Rabicó ! Comer croquetes de minhoca !
— E que seja de minhoca que tem isso ? retrucou Emilia. Tanto faz carne de minhoca como carne de porco, ou vacca, ou frango. Tudo é carne. E muito me admira que uma senhora que ainda hontem comeu tripa de porco tenha nojo de croquetes de minhoca...
— Alto lá ! Não é a mesma coisa !... Porco é porco e minhoca é minhoca.
— Perfeitamente. Mas porco é porco e minhoca não é porca. Bichinho bem limpo, até...
E ferraram na discussão.
Emquanto isso — ron, ron, ron —o senhor Rabicó farejou os croquetes, veiu chegando de mansinho e, sem a menor cerimonia , chamou para o papo os croquetes todos. De modo que, quando terminou a discussão, e a boneca, querendo fazer figa á menina, espichou o braço para pegar outro croquete...
— Que é dos croquetes ?
Nem signal ! Emilia esperneou de raiva ao passo que Narizinho ria a mais não poder.
— Bem feito ! Estava você muito ganjenta... Tome !
Emilia, desesperada, batia o pé, chorando:
— Quero os meus croquetes ! Quero os meus croquetes !...
— Pois si os quer peça a quem os comeu...
— E quem os comeu? interrogou Emilia.
— Ora quem ! exclamou Narizinho. Quem mais sinão o Marquez de Rabicó, seu futuro esposo ? Vae vêr que elle anda por aqui, escondido.
Emilia deu busca pelo quarto e encontrou o ladrão, que resomnava em baixo da cama, de papo cheio.
— Espera que te curo ! disse, passando a mão num cabo de vassoura. E, pá ! pá ! pá ! desceu lenha no lombo do guloso que não foi brincadeira.
Emquanto isso, Narizinho regalava-se, rebolando-se na cama de tanto rir.
— Si em noiva já é assim, imaginem depois de casada ! Eʼ capaz até de comer o marido assadinho no espeto ! Livra !...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
