Ir para o conteúdo

Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Segunda parte/X

Wikisource, a biblioteca livre

O MONJOLINHO

Uma semana mais tarde já os dois primos estavam como si fossem velhos amigos. E como Pedrinho era muito engenhoso, o tempo não lhes chegava para as travessuras.

Quem soffreu com isso foi a pobre da boneca, inteiramente esquecida, lá num canto.

Pedrinho atirava de bodoque muito bem, e com um canivetão que fôra do tio Antonio fazia coisas de pasmar. Chegou até a construir uma espingardinha de cano de guarda-chuva, com gatilho de elastico, tão bem feita que dava tiro de verdade.

Mas a velha, uma grande medrosa, no primeiro dia já lhe escondeu a espingardinha, de geito que elle nunca mais a achou.

Em vista disso Pedrinho resolveu brincar com agua ,e tratou de canalizar para o terreiro, por meio de bicas de taquara, uma nascente que havia perto.

Feito o que, arrumou tres rodas dʼagua, que viravam sem parar, uma embaixo da outra.

Narizinho andava de bocca aberta, encantada com aquellas novidades; e a Anastacia, volta e meia, apparecia por alli, de mãos na cintura, embasbacando-se.

— O que mais não se vê neste mundo ! dizia ella.

Promptas as rodas, Pedrinho cuidou de fabricar um monjolinho. A menina pôz duvidas:

— Qual ! Monjolo você não faz...

— Você vae ver, dizia Pedrinho, de cabeça baixa, lavrando com o canivete um torete de embirussú.

Pois fez ! Fez um monjolinho que era uma perfeição.

No dia de inaugural-o, depois de tudo bem certo, Pedrinho fechou a agua e ficou á espera dos assistentes. Reunidos todos, Pedrinho abriu o registro e soltou a agua. A agua veiu pererecando pelas bicas de taquara, tocou a primeira roda, tocou a segunda, tocou a terceira e encheu o côcho. E o monjolo, muito convencido, ergueu o pescoço e pan ! bateu com a munheca no pilão.

Uma galanteza !

E, chó-pan, chó-pan, pegou a funccionar como si fosse monjolo de gente grande.

Narizinho, radiante, olhava para as velhas, dizendo:

— Viram ? E lembrando-se da boneca: correu a buscal-a:

— Coitada da Emilia ! Vae gostar tanto...

De volta, encontrou no caminho o leitão, ferrado numa casca de abobora. Agarrou-o:

— Venha você tambem, seu bobo, que nunca viu nada !...

E alli ficaram, um bom tempo, os quatro — a vovó, a preta, a Emilia e Rabicó, extasiados todos ante o engenho do Pedrinho.

— Deixa estar, meu filho, que quando cresceres hei de te fazer estudar engenharia, disse a velha.

— Deve estudar mas é para carpinteiro, lembrou a preta. Este demoninho dá um carapina melhor que o João Serrote. Melhor até que o Chico Marceneiro !...

O monjolinho trabalhou uma semana inteira, sem parar; mas como fazia só aquillo, chó-pan,chó-pan, Pedrinho aborreceu-se e deliberou “abrir uma fazenda” — a Fazenda de S. João.

Arrumou a agua de geito a formar um verdadeiro riozinho, cheio de voltas, com pontes, ilhas e cachoeiras.

Fez, depois, um lago para criar peixes, e soltou nelle uma lata de guarús, mariscados com peneira no córgo.

E uma barquinha de vela que o vento levava de lá para cá.

E uma cazinha de fazenda, com um pasto de musgo na frente.

E boizinhos feitos de abobrinhas verdes. E um pomar. E uma horta. E um jardim...

Ficou tão linda a Fazendinha de S. João que até gente de fóra vinha vel-a. E abriam todos a bocca, exclamando como a Anastacia:

O que mais não se vê neste mundo!...

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.