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Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Segunda parte/XI

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ARTES DO RABICOʼ

 

Um bello dia, porém, a Fazenda de São João amanheceu revirada de pernas para o ar.

— Foi Rabicó ! exclamou Narizinho, com lagrimas nos olhos. Foi aquelle malvado!...


Que tristeza ! Estava o chão todo fossado, as rodas desmontadas, a cazinha espandongada, o monjolo em pandarécos e os boizinhos comidos...

— Vovó ! Anastacia ! Venham ver o que Rabicó fez !...

Pedrinho não dizia nada, roendo as unhas, furioso; e sahindo dalli dirigiu-se ao pomar, sorrateiramente.

Vieram as velhas e fizeram cara triste de “ora veja”. Mas dona Benta consolou a menina:

— Pedrinho concerta, e faz outra inda mais bonita, vaes vêr...

A tia Anastacia não poude passar sem o seu resmungado:

— Bem feito ! A menina vive dando ganja para o leitão; agora... está ahi ! está ahi !... Bem feito !

Nisto ouviram barulho de correria no pomar. Era Pedrinho que estava de bodoque em cima do Rabicó. O leitão corria e o menino atrás — pelotada sobre pelotada !

Pá ! coin, coin... Pá! coin, coin...

— Isso tambem não ! gritou Narizinho, com dó. Elle é um bobo que não sabe o que faz !

Mas Pedrinho só o largou quando viu que não tinha mais pedras no bolso.

E a coisa ficou porisso.

Pedrinho, aborrecido, não quiz mais saber de fazenda, nem de monjolo, nem de rodas dʼagua.

— Agora, disse elle, só faço brinquedos dentro de casa. No terreiro, não vale a pena.

— E que vaes fazer ? perguntou a menina.

Pedrinho pensou, pensou e disse:

— Um boi de pão ! Mas um boi grande, araçȧ...

— Deste tamanho ? disse Narizinho, erguendo a mão á altura dos olhos.

— Isso é demais ! Meio grandinho só, regulando ahi com um gato.

Dias depois estava prompto o “Malhado”, um zebú bem parecido. Os olhos eram de caroço de feijão vermelho; os chifres, de espora de gallo velho e a cauda, de pennas de gallinha.

Deu-lhe um trabalhão, cortou o dedo duas vezes e, afinal, depois dos ultimos retoques, quando ergueu os olhos para a menina, a ver o effeito causado, desapontou. Narizinho estava a rir-se do pobre boi.

— De que é que está rindo ? perguntou Pedrinho, desconfiado.

— Estou me rindo do teu boi que mais parece vacca...

O menino, embezerrado, começou a picar o boi com o canivete.

Narizinho riu-se mais ainda e elle, então, furioso, escangalhou tudo, brutalmente, com os pés. E voltando-se para ella, vermelho de colera, exclamou:

— Curica !

Narizinho fechou a carranca, mostrou-lhe a lingua e disse com desprezo:

— Pichochó.

E separaram-se, “de mal”, cada um para o seu lado.

Foi essa a primeira briga séria que tiveram em cinco que moraram juntos.

 

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.