Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Terceira parte/I
TERCEIRA PARTE
NO REINO DAS ABELHAS
Estava Lucia, uma noite, no melhor do somno, quando ouviu umas pancadinhas de chicote na vidraça — pen, pen, pen...
E logo em seguida a voz do Marquez de Rabicó, que dizia:
— O sol não tarda, senhora Princeza ! Pule da cama que são horas de partir!
A menina foi á janella e viu o Marquez montado num cavallinho de páo.
— E a Condessa ? Já está prompta ? perguntou ella.
— A senhora Condessa já está lá embaixo, corcoveando no pampa.
— Pois então que me arreiem o pangaré, que em tres tempos me arrumo.
E emquanto o Marquez sellava o pangaré a menina vestiu-se ás carreiras, com o vestidinho vermelho de pintas que tinha bolso. Precisava de bolso para levar os bolinhos que a Anastacia fizera na vespera e tambem para trazer coisas do reino das Abelhas.
Porque era para o reino das Abelhas que iam, de passeio, á convite da Rainha. Na vespera havia chegado de lá um maribondo mensageiro com este convite:
S. Majestade, a Rainha das Abelhas, tem a honra de convidar a Vs. Exas. para uma festa, hoje, ás 3 horas, no palacio real.
Lucia respondeu a este convite por meio dʼum gentil borboletogramma. Não sabem o que é ? Invenção da Emilia. Como não havia telegrapho, a boneca teve a idéa de mandar recados e bilhetes escriptos nas asas das borboletas. E assim fez com a Rainha.
Apanhando uma linda borboleta azul, escreveu-lhe na asa:
Narizinho, a Condessa e o Marquez agradecem a honra do convite e promettem não faltar.
Enfeitou-a, depois, com um lacinho de fita e soltou-a, exclamando:
— Vae em paz, e direitinha, hein ?
E agora lá se iam elles, a boneca no pingo pampa, a menina no pangaré e o Marquez num cavallinho de páo feito pelo Pichochó.
Bem montados que foram, deram redeas e partiram, estrada afóra, — pác, pác, pác, pác...
Em certo ponto a menina disse á boneca:
— Vamos apostar corrida ?
A condessa topou, muito assanhada.
— Pois tóque, então !

Emilia — lepte ! disparou numa galopada louca.
Mas Narizinho não se moveu do lugar. O que ella queria era ficar só com o Marquez, para uma conversa reservada : o casamento delle com a Condessa.
— Quero vêr, disse Lucia, se aprésso esse casorio. Está ficando encruádo... Toda a vida noivos — isso não serve...
— Pois a culpa não é minha, acudiu o Marquez. Já declarei que, si me derem de dote vinte cargueiros de milho, caso-me, com a cadeira, com o pote dʼagua, com a vassoura, com o que quizerem...
— Guloso ! Pois olha que vaes fazer um casamentão. Emilia é feia, mas muito bôa dona de casa. Sabe fazer tudo, até fios dʼovos que é um doce difficil. Pena é ser tão fraquinha !...
— Fraca ? exclamou o Marquez. Não me parece !... Tão gordinha que está...
— Engano teu. Emilia desde que cahiu nʼagua ficou desarranjada do figado, e aquella gordura não é banha, é macella. Emilia o que está é estufada. Inda hontem a tia Anastacia entrouxou-a de mais macella.
O Marquez pensou lá comsigo: “que pena não a terem recheiado de fubá !” mas não teve coragem de repetir isso em voz alta, limitando-se a exclamar:
— Pois eu jurava que aquillo era toucinho, e do bom !...
— Que esperança ! Toucinho do bom é o teu, disse Lucia, apalpando-lhe o lombo. Vae dar um torresminho quatro páos ! E é para logo — o Natal ahi está !...
O Marquez não entendeu a coisa e torceu o focinho em fórma de ponto de interrogação:
— Natal ? Que é que tem o Natal com o meu toicinho ?
A menina riu-se, piscando o olho esquerdo.
— Nada! Eʼ cá uma coisa que sei e não é da tua conta.
E, assim, nessa prosa, approximaram-se da Condessa Emilia que estava muito zangadinha com a brincadeira.
— Não achei graça nenhuma ! foi exclamando ella, logo que a menina a alcançou. Nem parece coisa de uma princeza !...
Lucia riu-se, riu-se de quasi cahir do cavallo.
— Pois eu, Emilia, estou achando uma graça extraordinaria na sua zanga ! Si você soubesse como fica parecida com o bule de café, assim, com esse bico...
Emilia, mais zangada ainda, mostrou-lhe a lingua, e dando uma relhada no cavallo, tocou para a frente, resmungando, furiosa:
— Princeza !... Princeza que inda toma palmadas de dona Benta... e leva pitos da negra velha... e tira ouro do nariz... Antipathia...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
