Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Terceira parte/IV
AS MULETAS DO BESOURO
Emquanto Rabicó suava o suor da morte nas unhas de Tom-Mix, Narizinho e Emilia desciam á porta do palacio da Colmeia, onde varios zangões de casaca vieram recebel-as com muitos rapapés gentis.
— Salve, princezinha do nariz arrebitado ! exclamaram elles, curvando-se.
— Obrigada! respondeu ella, dando-lhes a mão a beijar. Mas salvem tambem aqui a senhora Condessa, que foi victima de um desastre em caminho e não póde andar sem encosto. Poderão fazer-me o obsequio de arranjar-lhe um par de muletas ?
— Perfeitamente, retrucaram elles, mas o melhor seria chamar um grande sabio que por acaso está aqui, o doutor Caramujo, de Aguas Claras.
— O doutor Caramujo ? repetiu a menina, recordando-se. Conheço-o muito e até já fui tratada por elle. Chamem-no, então, e logo.
Os zangões partiram, rapidos, e dʼahi a momentos regressaram em companhia do medico. O doutor Caramujo reconheceu a menina e saudou-a, alegremente; em seguida poz os oculos para examinar a perna da Emilia.
— Eʼ grave, disse elle. A senhora condessa está soffrendo de uma atrophia macellar no pernil barrigoide esquerdo. Caso muito sério...
— E que receita, doutor ? indagou Lucia.
— Esta doença, explicou o Caramujo, enrugando a testa, só póde sarar com um regimen de super-alimentação e tres vidros de pilulas do Dr. Serra-Páo.
Narizinho riu-se da sciencia do sabio e disse:
— Muito bem. Mas eu agora só quero que lhe arranjem umas muletas. Quanto ao mais, chegando em casa a Anastacia a cura em dois minutos, com um bocado de macella e uma agulha.
— Anastacia !... exclamou o medico escandalizado. Alguma curandeira ! Macella !... Uma mézinha vulgar! Oh santa ignorancia ! Admira-me ver uma princeza tão importante desprezar assim a sciencia dos Sacerdotes de Hippocrates para entregar a Condessa aos cuidados de uma preta !...
— Eʼ que não quero que aconteça com ella, replicou Narizinho, o mesmo que aconteceu com os bagres, que o doutor alinhavou, á força de purgantes e suadouros...
O doutor Caramujo tossiu, disfarçou e... sumiu-se.
Nisto, um zangão appareceu, dizendo:
— Aqui no palacio não ha muletas, mas ahi na rua costuma andar um besouro mendigo que possue duas. Vou ver si o encontro.
Encontrou-o, logo adeante, pedindo esmolas, de chapéo na mão, numa esquina. Narizinho foi ter com elle, e já ia pondo no seu chapéo um pedacinho de bolo quando o mendigo lhe disse:
— Não me conhece mais ?
A menina encarou-o bem:
— Estou te reconhecendo, sim ! Não és aquelle da beira do rio, que me arrancou um feixinho de sobrancelhas ?
— Isso mesmo ! confirmou o besouro. Por signal que por causa dʼaquelle espirro cahi de máo geito e fiquei assim, aleijado para o resto da vida.
Narizinho condoeu-se da sua desgraça e pôl-o no bolso, dizendo:
— Fica quietinho ahi, e vae comendo um bolo, que te levarei para casa e lá arrumarei a tua vida de modo a não precisares viver de esmolas.
Depois, tomando-lhe as muletas, deu-as á Emilia:
— Arruma-te nisso, perna secca, e vamos entrar que são horas.
Um zangão deu-lhe o braço e Lucia, muito lampeira, subiu as escadarias. Atrás vinha a boneca, balançando a perna vazia e fazendo tóc, tóc com as muletas do besouro.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
