Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Terceira parte/IX
A VOLTA
Mas a menina disse:
— Olhe, Emilia, é muito incommodo isso de andar a cavallo com uma trouxa na garupa. O melhor é ires dentro dʼum jacá, num cargueiro.
Emilia fez cara feia, mas não teve remedio sinão concordar. Arranjaram o jacázinho e puzeram-na dentro. Em seguida Tom-Mix estalou a lingua e a cavalgada se poz em marcha para o sitio.
Não tinham andado nem uma legua quando Emilia gritou de cima do cargueiro:
— Quem poderá ser aquelle figurão que vem vindo, lá adeante ?
— Quem ha de ser ! respondeu Narizinho, firmando a vista. Não vê que é o Rabicó ?
— Eʼ verdade... exclamou Emilia. E, se não me engano, vem montado num jaboti... Que grande pandego !...
O Marquez de Rabicó vinha, todo importante, a cavallo no jaboti, mettendo-lhe o couro e as esporas que dava dó. E inda por cima insultava ao pobre animal:

— Caminha, estupor ! Caminha de- pressa sinão te pico de espora até á alma.
Narizinho ficou indignada.
— Espera que já te curo, meu Marquez dʼAquella Moda...
Tom Mix, immediatamente, puxou o revólver.
— Quer que eu apeie o maroto a bala ?
— Não é preciso, disse a menina. Eu mesma arrumo este negocio.
Nisto o Marquez alcançou o grupo, e já estava armando cara alegre, de sem-vergonha, quando a menina o encarou, de carranca fechada:
— Já ! Desce do jaboti, seu patife !
Rabicó, muito espantado, foi descendo, todo encolhido.
— E por castigo, continuou Narizinho, quem vae montado é elle. Vamos, seu jaboti, arreie este Marquez, monte e metta-lhe a espora sem dó !
O jaboti, com todo o sossego, arreiou o leilão, cochou a barigueira, montou e — lepte ! lepte ! fincou-lhe rabo de tatú que não foi brincadeira.
Narizinho, Emilia e Tom regalaram-se com o espectaculo dos corcovos do Marquez, de lingua de fóra e aos berros — coin, coin, coin...
— Espora nelle, jaboti ! estumava a Emilia. Espora nesse guloso que me papou os croquetes !
— E tambem umas relhadas por minha conta ! murmurou uma voz no ar.

Era a libellinha mensageira que viera reunir-se ao farrancho.
O caso foi que o Marquez de Rabicó nesse dia emmagreceu um kilo e pagou todo sos peccados da sua vida...
Depois deste incidente os viajantes puzeram-se em marcha e andaram até alcançar uma figueira de bôa sombra, já pertinho do sitio.
— Ponto de almoço ! exclamou Emilia que estava com uma fome damnada.
Apearam todos. Estenderam no chão uma toalhinha abriram um ancorote de mel e comeram que se regalaram.
Subito — prrrlipipipiu, um passarinho cantou na arvore. A menina ergueu os olhos e viu que era um pichochó.
— Emilia, você não está achando aquelle pichochó com geito do Pedrinho?
— Muito ! E querem ver que é elle mesmo ?
— Pedrinho, vem cá Pedrinho ! chamou-o.
O pichochó desceu da arvore e pousou no collo da menina admirada.
— Então que é isto, Pedrinho ? Deixo-te em casa feito gente e venho te encontrar feito passarinho !...
— Eʼ verdade, respondeu elle. Appareceu por lá uma velha coróca, de porrete na mão e cesta no braço.
— Menino, disse ella, você me dá um pedacinho de pão ?
— Deus a favoreça ! respondi eu — de brincadeira, não pense...
— Ah ! Eʼ assim ? exclamou a velha. Pois deixa estar que te curo !... E me virou a mim em passarinho, virou vovó em tartaruga e tia Nastacia em gallinha preta...
— Que horror ! exclamou Narizinho, afflicta. Que vae ser de nós, agora ? Vê, Tom-Mix, que desgraça nos aconteceu ?

— Arruma-se tudo ! affirmou Tom-Mix, já de mão no revólver.
— Desta vez não sei... duvidou Narizinho. Eʼs muito valente, de igual para igual; mas com uma bruxa feiticeira... não sei...
— A menina não me conhece ! Não ha quem possa commigo, nem o demonio ! Sou capaz de descer ao inferno e trazer o Tinhoso laçado pelos cornos !...
— Deus nos livre ! gritou Emilia, que tinha um medo preto ao coisa-ruim.
— E chegando ao sitio, continuou Tom-Mix, deixo a menina e saio para o mundo em procura da velha. E juro que a hei de trazer no laço, para que desfaça o mal que fez !...
— Assim seja ! suspirou Narizinho, um pouco mais sossegada.
E dando redeas ao cavallo tocou no galope para o sitio.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
