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Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Terceira parte/VI

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O PERDÃO

 

Narizinho enxugou a terceira lagrima e foi sentar-se a um canto, pensativa. Não lhe saía da cabeça as palavras do kágado em relação ao principe. Afinal de contas o passeio della ao Reino das Aguas Claras só serviu para perturbar o sossego em que o principe vivia...

Lucia estava pensando nisso quando — zuqt — uma libellinha entrou no salão e veiu pousar em seu collo.

— Salve, princeza ! exclamou ella.

— Viva ! disse a menina. Você não é aquella mãe-dʼagua dançarina, que fugiu com o gafanhotinho verde ?

A mãe-dʼagua abaixou a cabeça, envergonhada.

— Sou, sim...

— E como vae o seu maridinho ? A libellinha suspirou e disse:

— Aconteceu-lhe uma grande desgraça. Meu marido gostava de passear pela grama, á beira do rio. Eu dizia-lhe sempre: “Cuidado ! Olhe que alli ha muitos inimigos perigosos...” Mas elle não fazia conta: “Sei pular tão bem que não ha quem me pegue!”

Pois pegaram-no. Uma menina o pegou, certa manhã, e com toda a crueldade espetou o pobrezinho num anzol de alfinete, lançando-o ao rio, feito isca de peixe, imagine !...

Narizinho, já entristecida com as noticias do reino, ficou mais triste ainda, e agora com remorsos, pois fôra ella o carrasco do marido da dançarina...

— Assim morreu elle, continuou a triste mãe-dʼagua, deixando-me no mundo viuva e pobre, a viver do meu trabalhinho, como uma coitada...

Lucia, cheia de dó, abraçou-a e beijou-a. Depois, perguntou:

— E em que trabalhas, hoje?

— Sou mensageira , respondeu a libellinha. Levo e trago recados e bilhetes, e justamente agora tenho aqui uma carta para a menina.

Narizinho tomou a carta e leu:

 

Princeza !

Peço-te perdão da minha covardia. Tom-Mix está aqui amolando a faca para me sangrar. Tem dó deste infeliz e suspende o braço vingador...

Rabicó

Lucia ficou pensativa, de mão na testa. Depois, perguntou á mensageira:

— E onde está elle ?

— O Marquez ? Está no Capoeirão dos Tucanos Amarellos. Prometteu-me um lindo lago azul em troca de trazer-te eu esta carta...

Narizinho riu-se por dentro, pensando: onde é que Rabicó já viu lago azul ? Sempre o mesmo maroto ! Mas não disse nada e escrevendo ás pressas um bilhete, entregou-o á mensageira, com esta recommendação:

— Leve este bilhete, depressa ! depressa ! a Tom-Mix e depois volte aqui. Como você está viuva, caso-te com o besouro manquitola e arrumo uma cazinha para os dois, lá no terreiro do sitio, ouviu ?

A libellinha, muito contente da vida, vibrou as asas e zuqt ! desappareceu.

E como voava com a rapidez do pensamento dʼahi a um instantinho chegou ao capoeirão dos Tucanos.

E chegou no momento justo em que Tom-Mix, de faca erguida sobre o pescoço de Rabicó, dizia:

— Prepare-se, Marquez, que é chegada a sua hora.

E já ia descendo a lapeana quando — zuqt ! a mensageira lhe pousou no nariz.

— Que é isto ? exclamou elle. E vendo a carta, abriu-a e leu. E disse, enfiando a faca na bainha:

— Tem muita sorte, senhor Marquez da Mula Russa. A princeza perdôa o seu crime e me chama ao pé della. Adeus.

E foi-se.

O leitão respirou:

— Uff ! De que escapei ! Si demoras mais um segundo, senhorita, encontravas um illustre marquez desfeito em pannos de toicinho... Onde deixaste a princeza ?

— Deixei-a no Palacio das Abelhas.

— E a Condessa ?

— Estava num canto, muito triste, de muletas...

— De muletas ? exclamou Rabicó, admirado. Será que caiu do cavallo e quebrou a perna ?

— Não sei, não tive tempo de me informar do que aconteceu.

Rabicó ficou pensativo por uns instantes. Depois disse:

— Bom. Eʼ só isso. Podes ir e passe bem muito obrigado.

A mensageira franziu o nariz:

— E o meu lago azul ?

Rabicó nem se lembrava mais de lago nem pera lago.

— Eʼ verdade, o lago... exclamou elle. Mas, menina, para que queres tu um lago, e logo um lago inteiro ? Eu te prometti um lago, é verdade, mas reflectindo melhor vi que é perigoso e que podes morrer afogada nelle. E em vez de lago resolvi te dar esta linda sementinha de abobora.

A mensageira encarou-o com ar de des- prezo e disse ironicamente.

— Muito obrigada. Mas trato é trato e eu faço questão do meu lago. Dás ou não dás o meu lago ?

O marquez coçou a cabeça e, lançando uma olhadela de namoro á abobora, disse.

— Sabes que mais ? Volta amanhã. Tenho hoje um servição: comer esta abobora intei- rinha...

A mãe-dʼagua olhou, olhou bem para elle e — zuqt ! partiu como uma flexa, sem dizer nada. Mas foi pensando pelo caminho:

— Porco nasceu, porco ha de morrer...

 

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.