Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Terceira parte/VII
A COLMEIA
Nesse entremeio, lá no palacio, a menina chegou-se para perto da boneca e disse:
— Você já reparou, Emilia, como é bem arrumado este reino ?
— Já sim, respondeu ella. Tudo aqui é uma verdadeira maravilha de ordem, economia e bom gosto. Estive no quarto das creanças e fiquei encantada ! Cada uma no seu bercinho de cera, de braços cruzados, todas muito brancas, dormindo um somno gostoso !... Eu o que admiro é como as abelhas aproveitam o espaço, economisam a cera e fazem tudo de geito que a colmeia anda que é um relogio. Ah ! si entre os homens fosse assim... Aqui não ha nem pobres nem ricos. Não se vê um aleijado, um cégo, um tisico. Todos trabalham e vivem fartos e contentes.
— E quem governa ? A rainha ?
— Qual o que ! A rainha o que faz é pôr ovos. Queres ver ? Vamos indagar dʼaquella abelhinha que alli vem.
Emilia chamou-a:
— Faça o favor, dona Abelha... Aqui a princeza estava querendo saber quem é que governa a colmeia. Eʼ a rainha ?
— Não, respondeu a abelha. Nós não temos governo porque nós não precisamos de governo. Cada qual já nasce sabendo as suas obrigações e não é preciso que ninguem esteja a lembral-as. Isso de governo é bom para os homens, que são os bichos mais desastrados da terra, não acha ?
Narizinho pensou um pouco e viu que era isso mesmo...
A abelhinha continuou:
— De manhã sahimos todas, cada qual para o seu lado, afim de colher o mel ou o pollen das flôres. Feito isso voltamos e depositamos o mel nos favos. Si ha algum concerto a fazer, qualquer de nós o faz, sem ser preciso ordens. Si a menina passasse uns tempos aqui havia de gostar tanto que depois não se acostumaria mais no Reino dos Homens...
— Mas a Rainha ? exclamou Lucia. Eu queria ver a Rainha. Deve ser linda !...
A abelha disse:
— Pensa a menina que a Rainha é alguma senhora emproada como as rainhas dos homens? Nem rainha é — os homens é que a chamam assim. Para nós ella não passa de mãe. Todas somos filhinhas della e vivemos sempre a rodeal-a de commodidades e carinhos, sem lhe dar nunca o menor desgosto. Olhe, menina, vocês lá na terra falam muito em felicidade, mas fique certa de uma coisa: felicidade, só aqui...
Narizinho e Emilia ficaram tristes. Que pena não ser possivel transformarem-se em abelhas, e viverem alli, occupadas, toda a vida, num trabalho tão lindo como esse de colher o mel das flôres...
— O que mais admiro, disse a menina á abelha, é não haver doenças aqui. Vejo todas tão fortes e sadias... Ninguem tósse, ninguem escarra, ninguem é surdo ou cego ou perneta...
— Eʼ verdade. Não sabemos o que seja doença graças á hygiene da nossa vida.
— Quer dizer que medico e boticario, cá na colmeia, morreriam de fome...
— Pois decerto. O doutor Caramujo andou com vontade de vir clinicar entre nós. Chegou, mesmo, a abrir consultorio. Pois durante um anno só teve um doente; um pobre besouro que péde esmola ahi na rua. Abelha, nenhuma !...
— E que remedio deu elle ao besouro ?
— Deu as celebres pilulas do Dr. Serra-Páo, parece-me...
— Então o doutor Caramujo concerta perna quebrada com pilulas ?
— Pois é para ver. Cá para mim este doutor Caramujo não passa dum grande charlatão, que o que sabe é mandar umas continhas de tirar couro e cabello.
— Mas o besouro melhorou ?
— Qual o que ! Peiorou até. Antes de usar as pilulas, andava com uma muleta só. Depois de usal-as, passou a andar de duas...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
