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Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Terceira parte/VIII

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A RAINHA

 

— Mas olhe, amiga abelha, quero que nos leves ao quarto da Rainha.

— Pois não. Eʼ por aqui.

Foram-se, e depois de atravessarem varios compartimentos, entraram nos commodos reaes. Lá estava S. Majestade, no throno, conversando com varios zangões, emproados e orgulhosos.

— Bem vinda sejas ! exclamou a Rainha. Tens gostado dos nossos dominios ?

— Muito, Majestade, porque é o mais bem arrumadinho de todos os que eu conheço. Estou encantada !

— O meu reino é assim, explicou a Rainha, porque não é bem um reino, mas uma grande familia, onde a boa mãe-de-todos vive rodeada dos filhos. Já percorreu o palacio inteiro ?

— Já, e gostei immensamente de tudo, menos da cara destes senhores zangões, que me parecem muito emproados...

— Eʼ que me estão a fazer a côrte, afim de que eu escolha um delles para marido. Todos os annos escolho um, e os outros...

— Vão casar com as outras abelhas ?

A Rainha riu-se.

— Os outros são liquidados !...

— Quê ! exclamou a menina, espantada.

— Eʼ verdade. São liquidados, porque do contrario perturbariam a ordem da familia.

— Vê, Emilia ? disse Narizinho á boneca. Inda é peior ser moço bonito aqui do que minhoca lá no quintal...

Nisto ouviu-se um rumor de passos e um trrlin, trrlin de esporas. Voltaram-se todos. Era Tom-Mix que vinha entrando. Tom parou, correu os olhos pela sala, e vendo a menina, dirigiu-se para ella:

— Aʼs ordens de Narizinho Arrebitado !

— O Marquez? perguntou Lucia, com ansiedade.

— O Marquez está são e salvo. E ferrado numa abobora, se regalando...

— Muito bem ! exclamou ella, contente por haver salvo a vidinha de Rabicó. Agora, senhor Mix, quero que me arranje uns burros de carga afim de que eu possa levar mel para a vovó. Mel e cera — a Nastacia quer muito uma pelotinha de cera bem branca.

Tom-Mix sahiu a arrumar a tropa e Lucia, voltando-se para a Rainha, propoz:

— Póde V. Majestade vender-me um tostão de mel ?

— Dou-te o mel que quizeres, respondeu a Rainha, sorrindo. Quanto ao tostão, guarda-o para ti, que aqui entre nós não tem valor o dinheiro dos homens. Entra lá naquella sala, que é o deposito de mel, e leva quanto quizeres.

Narizinho e Emilia encaminharam-se para o deposito. Muito bem arrumado, tudo. Havia potinhos de cera em quantidade, todos iguaes, cheios até á bocca e tampados.


— Querem mel ? perguntou logo uma abelha de avental que tomava conta do deposito.

— Queremos, sim, mel e cera.

— De que qualidade ?

— Ha de muitas qualidades ?

— Temos aqui mel de flôres de laranjeira, mel de flôres de jaboticabeira, apanhado lá no sitio de dona Benta, e temos o mel Mil-Flores, que é colhido de todas as flôres do campo.

— Quero o Mil-Flôres, declarou a menina. E tambem um kilinho de cera, da branca, para a tia Anastacia.

— E quem leva é aqui a sua criada ? perguntou a abelha, apontando para a Emilia.

A boneca abespinhou-se toda, mas Narizinho corrigiu o engano da abelha:

— Dóbre a lingua ! Essa senhora não é minha criada, e sim a Excellentissima Senhora Dona Condessa da Perna Secca, futura Marqueza de Rabicó.

A abelhinha curvou-se, arrastando as asas, num cumprimento amavel, e tratou de servir o mel. Nesse momento appareceu Tom-Mix, guiando uma tropa de seis grillos arreados, com cangalhas e ancorótes, aos quaes foi desenganchando e collocando em cima do balcão. A abelha meleira trouxe os potinhos de mel e os esvaziou dentro dos barriletes. Em seguida, amassando os potes vazios, fez uma pelota de cera alvissima, que entregou á menina.

 

— Muito bem, disse esta, logo que viu tudo prompto. Podemos agora voltar.

Tom-Mix estalou a lingua e os grillos partiram, aos saltos, em direcção á porta da rua, onde pararam, em fila, á espera de que as senhoras cavalgassem.

 

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.