Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/Duas palavras
DUAS PALAVRAS
SOBRE A
ORTHOGRAPHIA POR MIN SEGUIDA
Tanto, quanto é possivel, sigo a orthographia etymologica.
No prologo d’este opusculo, e no presente artigo dou o spécimen da que en minha opinião deveria ser adoptada na lingua portugueza; mas para não escandalizar os leitores com a estranheza do modo de orthographar as palavras vernaculas, empreguei no corpo da obra a orthographia en geral usada; mas que não é rigorosamente etymologica.
Discute-se desde remotas eras a preferencia entre os modos de orthographar, etymologico, e phonetico; e na lingua portugueza adhuc sub judice lis est.
O que porèn não soffre contestação é que a multidão dos sectarios da primeira representa ũa, maioria esmagadôra do limitadissimo numero dos apologistas da segunda.
Posto que sigo, conforme declarei, a orthographia etymologica, não cançarei a quen me ler, desenvolvendo argumentos tendentes a mostrar a excellencia d’aquella; por que para conseguir o mesmo fin bastaráõ as ponderosas razões, que apresentarei contra a orthographia phonetica.
Çhamão tamben (para disfarçar a contradicção) orthographia mixta aquella, en que o escriptor, sendo etymologico en ũas, deixa de ser en outras palavras; por exemplo, para não citar mil outras, xarope, que todos os diccionaristas escreven com — x —, devendo escrever com — çh —; pois que ven do arabe chorbet, cuja raiz é o verbo charab, beber.
Eu não uso de euphemismos en materias didacticas; tal orthographia, çhamada mixta, é contradictoria e incoherente; é a de todos os diccionarios portuguezes.
O poncto vulneravel dos sectarios da orthographia sonica é a impossibilidade de se açhar a verdadeira e melhor pronuncia para por ella se regular o modo de escrever.
Com effeito, qual o padráõ, a que se deva reportar quen quizer escrever as palavras, conforme a pronuncia?
Não varía esta, segundo os tempos, os logares de ũa mesma nação, as pessoas, os sexos, e até as phases da vida de câda homen?...
A este irrespondivel argumento não podendo mais resistir, eis que cântaõ ja a palinódia os orthographistas phoneticos, dizendo que «Uã orthographia phonetica é practicamente impossivel, como o declara Mr. Arsene Darmesteter (Question de la réforme orthographique, Paris, 1888); accrescentando que «orthographia phonetica só deve ser a orthographia que se contente com UN POUCO MAIS OU MENOS PHONETICO (orthographia de pouco mais ou menos, digo eu): en summa, «que a orthographia sonica não deve ser mais do que a simplificação da orthographia usual (!!!)
Isto não merece refutação séria. E é tal litterato que pretende acabar com a orthographia etymologica na França, na Belgica, na Allemanha, na Inglaterra, e nos Estados-Unidos!!...
Bástaõ alguns exemplos de phrases com palavras parônymas, para que fique evidente a ambiguidade, que da orthographia phonetica pode muĩtas vezes resultar.
«Esta velha arvore não tên era».
Será este vocabulo — «era» — synônymo de duração, epocha; ou o nome de ũa planta (hera)?
Com a orthographia etymologica tal duvida desapparece.
«Elle estava coberto de luto». Será o vestido que indica dó, ou a palavra lôdo, lama?
A observancia da orthographia etymologica, collocando-se — c — antes do — t —, tira toda a ambiguidade.
E como estas, muĩtas outras proposições equivocas, onde entrassen as palavras parônymas cerrar (com — c —), e serrar (com — s—), servo (com — s—), e cervo (com — c —), etc.
Mas ha no mundo ũa nação néo-latina, que segue a orthographia sonica; e nisto fundando os Ibérophilos o seo argumento — Hercules, suppõe esmagar a hydra etymologica.
Vejamos.
Não é tão absolutamente exacto, como proclamão os defensores da orthographia sonica, que os escriptores hespanhoes empreguen exclusivamente a orthographia phonetica.
Un livro importante, e da maior auctoridade neste assumpto vae confirmar o que acabo de dizer.
Lê-se na Orthographia (com th e ph) española compuesta y ordenada por la Real Academia Española (1741) o seguinte.
«Nos primeiros livros do nosso idioma (hespanhol), como a lingua era filha da latina, na maior parte de seos termos, e os que a falavão e escrevião, estavão mais proximos dos latinos, observava-se a orthographia quasi inteiramente latina, como se vê dos livros dos Fóros, das Leis, e de outros documentos antigos; e assin se açhavão nelles vozes escriptas com a mesma duplicação de consoantes, de que usavão os latinos; e durou tanto esta opinião, que escrevendo Antonio de Nebrixa o seo tractado de orthographia hespanhola regulou-o quasi inteiramente á latina».
Continúa depois o auctor declarando que com o correr do tempo se fôrão os escriptores afastando da etymologia grega e latina; mas não tanto, que de todo a orthographia etymologica desprezassen.
E mais o confirma, quando na pagina 93 da obra citadada dá como regras principaes da orthographia hespanhola a observancia dos tres seguintes ponctos: pronunciação, (que confessa não ser base solida), origens, (note-se ben — origens, isto é, etymologia) e uso.
Alén d’isto nesse volumoso tractado de Orthographia composto e ordenado pela Real Academia Hespanhola vê-se que o auctor faz reflexões tendentes a mostrar que não só nos nomes proprios de homens, de logares, de sciencias, e de artes; mas até en muĩtas palavras, foi seguida a orthographia etymologica.
Com effeito, os Hespanhóes escrêverão theatro (com — th —) rhitmo, (com rh) hablassen com dous ss, e do mesmo modo os preteritos imperfeitos do conjunctivo en todos os verbos.
Tudo porèn alterárão depois, escrevendo phoneticamente, para não seren incoherentes; peçha, de que ainda hoje não se poden dizer abstergidos.
Para justificar as minhas ultimas palavras, lembrarei que todas as terceiras pessoas verbaes no plural escréven elles com — n —, assim como a preposição en (in latino, ou en grego), sen falar de muĩtos outros vocabulos, cuja orthographia é mais etymologica do que a seguida, e aconselhada pelos nossos lexicographos, que se dizen etymologistas.
Foi portanto un capriçho esse afastamento do primitivo modo de orthographar; capriçho originado pelo antagonismo internacional; buscando os hespanhóes en tudo se segregar, e distinguir dos portuguezes, que tamben por seo turno deixárão de orthographar muĩtas palavras pelo modo, por que primitivamente o fazião, só para se não pareceren com os seos visinhos.
O adjectivo bello, de origen latina, que se escreve com dous ll, é do mesmo modo escripto en hespanhol, com preferencia á orthographia phonetica, como se vê nos diccionarios da mesma língua.
Com estes e outros argumentos poderia eu provar, que a orthographia hespanhola (ainda hoje incoherente) é, cæteris paribus, mais etymologica do que a portugueza; mas tal não é o escôpo, a que me dirijo; porquanto o que só desejo é explicar os motivos, en que me fundei, visto que sigo a orthographia etymologica, para escrever de modo diverso algũas palavras.
Escrevo — muĩto — com til; por que sen aquelle signal de aspiração as lettras ui sôarião como nas vozes cuido, descuido, fluido, fortuito, gratuito, intuito.
Camões escreveu muito sen til, e rimou-o com fruito, por que naquelle tempo dizia-se á latina fruito (do verbo fruor, eris, fruitus, &), e pronunciava-se o vocabulo — muĩto — sen aspiração.
As palavras — un — (e seos compostos) son, ton, bon, origen, e todas aquellas, cuja syllaba final é aspirada, ou nasalada escrevo-as, como se deve, com til, ou com — n —; porque en latin são escriptas com — n —; e ainda mais, porque quando as pronunciamos en portuguez, produzimos son nasal.
De todas estas palavras se fórma o plural accrescentando — s —, sen haver necessidade de inventar-se a transformação do supposto e absurdo — m — no singular en — n — no plural.
A preposição en não póde, não deve ser escripta com — m —. Nas outras linguas néo-latinas essa preposição é escripta com — n —; o francez escreve — en —; o hespanhol — en —; o italiano — in —: alén d’isto en grego, d’onde passou para o latin, mudando apenas o — e — en — i — (in) essa preposição é en —. Até en inglez, e allemão, que não são linguas néolatinas, esta preposição se escreve com — n — (in), e quando en allemão se encontra — im — com — m —, é por ser a contracção de — in — e do artigo — dem. —
Por que ha de então en portuguez escrever-se com — m —?
Não é ella pronunciada com son nasal? Onde teve jamais a lettra — m — son nasal? Quando se pronuncia — m —, apertão-se os labios. (Vede Moraes, lettra M.)
Pouco ou quasi nada se attende hoje a euphonia na linguagen: aquelles rigorosos preceitos de phonação, de que a lingua grega nos dá provas, accentuando as vogaes, e empregando os espiritos rudes, e brandos, parece que de todo estão en portuguez desprezados; quando, por exemplo, se escreven com — m — final palavras, que nasalmente se pronuncião.
O sanskrito, que sobre todas as linguas leva essa severidade harmonica ao mais subido grão, não emprega nas palavras lettras, que não sejão da mesma classe.
E d’esta lingua sen duvida algũa a parte mais difficil para os que hoje não conhecen essas leis musicaes da linguagen.
O — m — final nesta lingua soffre córte, e suppressão antes de certos suffixos; outras vezes se muda en — n —.
E por que incidentemente falei do — m —, julgo conveniente explicar un poncto, com certeza até hoje ignorado.
Mandão todos os ortographistas que antes de — b — p — e — m — sempre se escreva— m —; a razão porèn, que ainda ninguen a deu, é a seguinte, a qual para melhor explicar repetirei o que diz a grammatica sanskrita.
O conhecimento da euphonia sanskrita derrama muĩta luz sobre grande numero de mutações, que nas linguas occidentaes são consideradas irregulariddes; entretanto que fundamentalmente são consequencias naturaes de antigas leis, simples e geraes, en parte cahidas en desuso; mas a que o instincto popular ainda obedece.
Quando, por exemplo, da preposição en (portugueza) e do verbo beber se forma a palavra — Imbeber —, esta troca do — n — en — m — não é simples capriçho; não é uma excepção; não, absoeutamente não. É que seguimos a regra sanskrita, substituindo á nasal da orden das dentaes (n) a nasal que pertence á orden das labiaes (m); é uma lei physiologica.
A respeito da preposição – sen — escripta com — n — milítão as mesmas razõess que dei, quando justifiquei o emprego do — n — substituindo o — m — da preposição em.
En todas as linguas derivadas do latin esta preposição é escripta com — n — medio, ou final; no latin — sine —; no hespanhol — sin —; no francez — sans —; no italiano — senza.
Todos os substantivos, que erradamente se escreven en portuguez com — m —, (taes como ordem, origem, homem, e seos compostos pronominaes alguem, ninguem, quem, não vêen do accusativo ordinem, originem, hominem, aliquem, neminem, quem. A apparencia illudiu os grammaticos: nascen todos esses vocabulos do ablativo do singular — ordine, origine, homine, aliquo homine (alguem) nec homine (ninguem) quem (que homem). Cahe en todos elles a syllaba media e breve — i —; e por adoçamento da pronuncia diz-se ord-en en vez de ord-ne, orig-en en logar de orig-ne, hom-en en vez de hom-ne, effectuando-se a mesma alteração, com as devidas transformações, nas palavras alguen, ninguen, quen.
Por motivos oppostos, mas fundados nos mesmos principios escrevo com empregando a consoante final — m —; obedeço á etymologia, (cum latino, que se escreve com — m —) e á phonação; porque proferindo o vocabulo — com —, não produzo son nasal.
Os hespanhóes violárão aqui a etymologia, escrevendo con (preposição) com — n.
Ũa das razões, que mais reforça a opinião de que a preposição portugueza en deve ser escripta com — n —, e não com — m —, é que, quando se lhe seguen os artigos o, a, e os adjectivos este, esta, isto, esse, essa, isso, aquelle, aquella, aquillo, o — n —, que a todas estas palavras precede, é a consoante final da preposição — en —, que apenas por apherese perde a primeira lettra; ao passo que admittindo-se a absurda orthographia do — m —, dizen os grammaticos que nas palavras no, na, neste, nesta, nisto, nesse, nessa, nisso, naquelle, naquella, naquillo, a preposição — em — (orthographia errada) perde o — e —, e muda o — m — en — n!!
Permitta-se ũa comparação: as palavras compõe-se de ũa parte fixa, invariavel, (radical) e de outra variavel, sujeita a mudanças (suffixo).
Tèen, pode-se dizer, alma e corpo. Nesta hypothese, perdidas na preposição em (orthographia errada) alma e corpo da palavra, isto é, o radical e o suffixo, esse — n — é ũa entidade nova!!...
Abyssus abyssum vocat.
Min com — n —, e não — mim — com— m —; é como se deve escrever: prova-o a orthographia, e a pronuncia da variação feminina do adjectivo pronominal feminino — min — h — a —; onde está intercalado o signal de aspiração — h —.
En alguas provincias do norte do Brazil (Pernambuco, principalmente) a pronuncia da palavra — compan — h — ia —, e semelhantes se faz com aspiração do — h —, e não por nasalação.
Tendo dicto que escrevo com bon fundamento un e todos os seos compostos com — n — final, parecerá que a variação feminina deveria conservar o — n —; e então ter-se-hia de pronunciar — u — n — a, — algu — n — a —, nenhu — n — a, etc.
Aqui não ha nasalação, mas aspiração na pronuncia; e por isso deve empregar-se o — til —; que é signal de aspiração, correspondente, segundo penso, ao espirito brando en grego.
É por isto que se deve pronunciar ũ-a, e seos compostos; e não — u-m-a, (por que tal — m — não existe no ablativo latino — una, d’onde u’a se deriva) algũa, nenhũa.
Cumpre advertir que en latin, nos adjectivos bon-us, un-us, e semelhantes por conteren — n — no radical, esse — n — não faz syllaba com a vogal seguinte do suffixo — us —, — a —; e portanto a pronuncia devêra ser aspirando a primeira syllaba, bon...us, bon...a, un...a; e tanto isto é verdade, que en Portugal, en alguns logares, se pronuncia bôn-a sen junctar o — n — do radical ao — a — do suffixo.
Já que falei do til, o qual apenas dizen os diccionarios ser signal orthographico, não será fóra de proposito dar-lhe a etymologia, que não açhei en parte algua.
Supponho que procede de tignulum (varinha), perdida a syllaba média breve, e a final — um — tamben breve.
O til não suppre jámais as lettras — m — е — n; — é signal de aspiração (espirito brando en grego); ou talvez exerce a mesma funcção que o Anuswara en Sanskrito, que se colloca debaixo do — m —, ou sobre o — n.
Pescoço, e almoço, que todos os diccionarios escréven d’este modo, (com — ç — cedilhado) não os escrevo eu, attendendo á etymologia. Pescôsso ven de pectus (peito), e do ablativo latino osse (ôsso), perdida a sylaba — tu —, e passando o — s — por adoçamento da pronuncia para juncto da syllaba — pe — (pesc): o — e — final do ablativo latino osse mudou-se en — o —, terminação quasi universal do genero masculino en portuguez.
Tão verdadeira é esta etymologia, que en hespanhol se diz pescueso (pectus e hueso, ôsso).
A etymologia dada por Constancio á palavra pescosso é de fazer rir; diz que vên de collum, i, e bos, ovis!
Almôsso, opina este mesmo auctor, que se deriva de Al, artigo arabe (o), morgen (manhã, en allemão), e essen (comer, en allemão): não obstante, escreve a palavra con — ç — cedilhado; o que é contradicção com a propria etymologia por elle apresentada.
Eu entendo que no vocabulo almôsso entra o artigo arabe al (o); o adverbio latino mane (de manha), e o verbo latino esse (comer).
Açho porén singular que vindo, como vên o substantivo allemão morgen do adverbio latino mane (de manhã), e o verbo allemão essen do verbo latino esse, preferisse aquelle philologo a etymologia allemã ao latin, d’onde aquellas palavras evidentemente se derivão.
Escrever portanto almôsso com — ç — cedilhado é violar a etymologia.
Çh com cedilha! Proh pudor! exclamaráõ talvez os que se sobresaltão com as novidades orthographicas.
O ch tên en portuguez ũas vezes son duro, outras çhiante. O leitor illitterato, e o estrangeiro não saberáõ de certo, quando devão pronuncial-o d’este ou d’aquelle modo. — Nao vale o argumento dos que dizen que o sentido da phrase guiará o leitor; porque a seguinte proposição, por exemplo, é tão ambigua, como as respostas dos antigos oraculos: «Un grande chôro de crianças echoava por toda a sala».
Esse — chôro — assin escripto, e desprovido de distincção graphica, póde, sen offensa da logica, ser ou o derramamento de lagrymas, ou a reunião de vozes cantantes.
A cedilha porén no çh tira toda a duvida; lê-se çhôro com son chiante.
China, e China, escriptos sen cedilha, não indicão qual das palavras é o nome da casca Peruviana, e qual o do celeste imperio.
Examinemos agora o valor de — ch —.
Que o nosso — c — vên do χ grego, (ki) parece-me indubitavel. O χ (ki) grego tên son duro antes de qualquer vogal; o — c —, que é en portuguez a representação graphica d’aquella consoante, tinha tamben nos primitivos tempos son duro, mesmo antes do — e — e — do — i —; tanto que en livros e manuscriptos antiquissimos ce, e ci se encontrão cedilhados, para exprimir o son brando.
Cahiu depois en desuso a cedilha no ce e ci, porque en nenhũa palavra portugueza aquellas syllabas se pronuncião duras; sendo por isso superflua a sotoposição da cedilha ao ce, e ao ci.
O — h —, simples signal de aspiração (espirito orthographico no grego) vindo logo após o — c —, quando se seguen as vogaes — a —, — o —, — u — não faz sentir en portuguez aspiração forte; porque en nossa lingua pouquissimas são as vozes aspiradas, e nessas mesmas é brandissima a aspiração, como — ba-hi-a, sa-hi-a, que por isso se distinguen de báia, e sáia.
Expostas estas considerações preliminares, vejamos como e porque o çh cedilhado produz son çhiante.
É necessario ainda notar que a çhamada cedilha outra cousa não é mais, do que o sigma (lettra — s — en grego, ς), de sorte que o — ç — cedilhado adverte o leitor, dizendo: «Este — c — não tên son duro, mas sibilante, por causa do — S — (sigma), que lhe está sotoposto.
Pronuncie-se agora un son sibilante, aspirando-o ao mesmo tempo: qual será o resultado?
Sen duvida algũa un son çhiante?
O — ç — cedilhado vale portanto o mesmo que — s —; e todos os que conhecen a lingua allemã saben que sch reunidos fórmão son çhiante.
Creio haver justificado o meo modo de orthographar o ch, quando deva ter son çhiante.
Sôbre todas estas considerações está a de evitar a ambiguidade na pronuncia.
Meo, teo, seo, céo, Deos escrevo etymologicamente com — o —, e não com — u —; posto que a ultima reforma no modo de graphar estas palavras julgou ter-se fundado na etymologia, aconselhando escrever com — u —.
Escrevia-se outr’ora Deos, meo, teo, seo, céo, véo, & com — o —; mais tarde allegou-se que escrevendo-se en latin Deus, meus, tuus, suus, cælum, velum com — u —, deverião tamben todas estas palavras ser escriptas com — u —, e não com — o —.
O argumento era especioso, e embaíu até hoje os que se presumen de mais etymologicos na orthographia.
Do ablativo latino, caso que exprime o maior numero de relações, e por isso o que deveria ser com maior frequencia repetido, descendêrão quasi todos os substantivos e adjectivos portuguezes: isto é incontestavel.
Depois do ablativo é o accusativo o caso, que dá mais abundante numero de substantivos, e adjectivos portuguezes.
Por consequencia, escrevendo eu a palavra Deos com — o —, tiro-a do ablativo; quando não queiramos ir buscal-a ao grego Theos, que me parece a verdadeira origen; pois que do grego se derivou o substantivo latino — Deus —.
Quanto a meo, teo, seo, céo, veo, & tamben do ablativo as faço derivar.
A prova da minha asserção está en que não se escreve — reino — com — u —, sendo en latin regnum, Pedro com —u —, sendo en latin Petrus; gelo com — u —, sendo en latin gelu; tecto com — u —, sendo en latin tectum; e mil outros vocabulos, que todos se escreven en portuguez com — o —; posto que en latin sejão escriptos com u no nominativo, com excepção de tribu, que en portuguez conserva o — u — do ablativo latino, por ser este vocabulo derivado do ablativo tribus, (en tres) que erão as tres divisões, en que Romulo classificou o povo romano.
E perguntarei: Quen escreverá mais etymologicamente esta phrase: = Perdi meos livros = o que escrever meos com — o —; ou o que empregar o — u —?
Certamente, quen a escrever com — o —; por que en latin se diria — Perdidi libros meos —.
Aos que se escandalizarem por ver pais escripto com — s —, e não com — z —, direi que, seguindo eu, como sigo, tanto quanto é possivel, a orthographia etymologica, deveria empregar — s —, e não — z — na syllaba final d’aquella palavra.
Todas as linguas derivadas do latin escreven — pais — com — s — o hespanhol diz país, o francez pays, o italiano paese: por que hade o portuguez usar do — z —, e hão de aconselhar tal orthographia os lexicographos, que se dizen etymologicos?
Ou são, ou não são etymologicos no modo de orthographar; não comprehendo essas excepções arbitrarias com violação da etymologia.
A regra orthographica, que manda escrever com — z — a syllaba final de um vocabulo, quando aquella é longa, deve ter excepção, si na raiz etymologica da palavra ha — s —; por que en tal caso conserva-se o — s — etymologico, collocando-se accento agudo na vogal, como en naris, (do latin naris), Luis (do latin Ludovicus).
É anti-etymologica essa regra de escrever com — z — toda e qualquer palavra, cuja syllaba final é longa; e por isso até hoje se tên erradamente orthographado pais escrevendo com — z —.
Si é verdadeira tal regra, por que com — z — não escreven tamben os sectarios de tal orthographia — produzis, traduzis, abris, cobris, vestis, e todas as segundas pessoas do plural do presente do indicativo?
Naturalmente; por que sería contra a etymologia latina: sejão portanto coherentes; pois que a etymologia de pais é patriis, onde ha o — s — final depois dos dous ii contrahidos, que fazem a syllaba longa.
O — z — medio ou final é quasi sempre a transformação do x, ou do — c — en latin; voz, (vox) luz, (lux) noz, (nux) arrôz; (oryza) outras vezes ven do arabe, por exemplo, azeite (da palavra arabe seyt) azul (tamben da arabe azrag, ézrag, zuruq).
Pais vên do ablativo do plural patriis; effectuada a quéda do tr, a contracção dos dous i i torna longa a syllaba; e a quantidade longa é indicada pelo accento agudo, que faz parte, com os accentos grave e circumflexo, da orthographia portugueza, que do grego os herdou.
É raro açhar-se hoje quen na escripta use de accentos orthographicos; omissão, que deve ser castigada.
Os accentos fazen parte integrante e essencial da orthographia portugueza: en grego, en hespanhol, en francez, en italiano não se desprezão, não se dispensão.
Mas a ignorancia, e muitas vezes a astucia são causa do desprezo dos accentos; por que accentuando o que escrevêssen, revelarião muĩtos escriptores a sua errada pronuncia: deixão portanto na duvida os leitores, como o fazen tamben alguns lexicographos.
A terceira pessoa do singular do preterito perfeito do indicativo escrevi sempre com — u —; por que en latin nos verbos da segunda conjugação ha — u — nesse tempo, modo, numero, e pessoa; e nas outras conjugações, embora não esteja claramente escripta a lettra — u —, ainda assin ahi existe transformada en — v — , como vestigio do preterito fuit.
A anarchia, a contradicção no modo de orthographar, en uma palavra, a incoherencia não reinão sómente entre o povo; os proprios lexicographos, ainda os mais afamados, commétten a câda passo erros palmares de orthographia, violando a etymologia d’aquellas mesmas palavras, cujas origens aponctão.
Undique turbatur...
Era forçoso entrar en todas estas minudencias, que com o sêren, nen por isso são menos importantes.
Os acanhados limites da presente obrinha apenas me permitten esflorar as questões ortographicas, aqui suscitadas, que en obra especial serião cabalmente discutidas.
Ja prevejo o espanto, a grita, e até talvez a zombaria que hão de causar todas estas novidades: não importa; os proprios que se arripiaren, reflectindo, passada a primeira impressão, veráõ que sou coherente; e que não assentei en alicerces arbitrarios a construcção orthographica.
Quaes serão as objecções sérias contra esta orthographia etymologica, e não contradictoria?
Os mais cordatos diráõ talvez: São verdadeiras, são logicas, são convincentes as razões; mas o uso faz lei; agora é melhor deixar tudo no statu quo ante reformationem. —
O uso faz lei! D’aquella proposição horaciana, en que diz o grande Mestre ser o uso o que tên o arbitrio, o direito, e a norma do falar.
...Si volet usus, Quem penes arbitrium est, et jus, et norma loquendi. tên-se por modo tal abusado, que interpretando-a en toda a latitude, poder-se-hão desculpar todos os erros do falar, e do escrever, ũa vez que o uso popular os vá impunemente repetindo durante seculos.
Todo o tempo é tempo de emendar, de corrigir faltas e erros de qualquer orden: aquella sentença não póde ter a amplitude, a extensão, que se lhe quer dar; sería absurda tal interpretação.
Porque houve homen, que até aos oitenta ou noventa annos peccou, não se ha de corrigir e emendar, podendo fazel-o, só pela consideração de que tendo peccado tanto, não importa peccar un pouco mais?...
Na Republica das lettras ha tamben Auctoridades; que são os Philologos, os Grammaticos, os Mestres da linguagen.
Essas Auctoridades, pelas leis que decretão, dêven ser respeitadas da plebe insurgente, e ignorante; aliás nessa Republica prevalecerá a anarchia.
Si tudo póde o uso popular no modo de escrever, e de falar, não se escrevão mais Grammaticas, não se componhão mais codigos orthographicos: fale, e escreva câda un como lhe aprouver.
Até agora ten-se orthographado a lingua portunueza erronea e contradictoriamente: podendo, como poden, taes erros ser emendados; nada deve impedir essa emenda e correcção.
Por que en direito se admitte (iniquidade injustificavel!) que aquelle que estiver de posse de ũa propriedade alheia durante 30 annos, é legitimo possuidor pelo facto de a ter gosado todo esse tempo, não se imite na orden litteraria tão absurdo principio, que equivale á affirmação de que a falsidade por ser de longa data se póde transformar en verdade; que os erros orthographicos, e grammaticaes por seculares poden ser considerados acêrtos.
Mas quen ha de tornar effectiva, e fazer respeitada a auctoridade litteraria dos Philologos, dos Grammaticos, dos Mestres da linguagen?
Nos países, en que as lettras e sciencias fórmão un ramo sério da administração publica, é o Governo, a quen tal tarefa incumbe.
No Brazil porèn que Ministro, ainda o que se presuma homen de lettras, ũa vez envolvido na intriga politica, que lhe occupa todo o tempo, cogita de taes bagatelas? De minimis non curat Minister...
Tenho razão de escrever sen observar conveniencias sociaes. Propuz-me compôr un Codigo orthographico da lingua portugueza para o Imperio do Brazil; un amigo, distincto homen de lettras, sen que eu pedisse, apresentou ao Governo essa proposta, en cuja execução não despendia o Estado dinheiro excedente dos orçamentos.
Mais de un anno se passou, sen que cousa algũa se resolvesse, pedindo eu apenas por tres ou quatro vezes a restituição de tal proposta, que até hoje não me voltou ás mãos.
Si isto succede, sendo Ministros muĩtos d’aquelles, de quen tive a honra de ser Mestre, e que se dizen amigos, o que mais se deve esperar?
Declaro que este desabafo não é filho de despeito, mas de tedio, e mais ũa prova do estado, en que se açha este país, onde tudo é apparencia, e tramoias theatraes.
Nada quero de governos, nen presentes, nen futuros; quer monarchicos, quer republicanos; si o quizesse, ben saberia o caminho para chegar a esse fin; que entre outros, quasi sempre ignobeis, seria apresentar-me folliculario politico, isto é, pôr escriptos para vender-me.
Nada peço, nada quero, nada acceitarei; por que a minha opulencia está solidamente firmada na completa ausencia de ambições mundanas; finalmente por que possuindo como unica nobreza a dos meos sentimentos, tenho por motte do meo heraldico brasão — Solus Deus.