Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/I
RECLAME
A todos os homens de lettras, que falam a lingua portugueza, foi sempre manifesta a difficuldade de dar n’aquella lingua o termo equivalente á palavra franceza — Reclame.
Tinha quasi passado em julgado havermos nós, que falamos a lingua de Camões, necessidade de enxertar no idioma vernaculo aquelle vocabulo exotico.
Mas si o portuguez não possue palavra que traduza exactamente o termo francez reclame, porque não formaremos um neologismo, uma vez que venha este de fonte latina, conforme o preceito do grande Horacio, que os permittia no latim, derivados græco de fonte?...
Reclame tem, em francez, além de outras, a significação especial, particularissima, de — annuncio em que se elogia, se engrandece alguma cousa: une reclame é portanto um annuncio preconisador.
Sabemos todos que — preconisar é apregoar exaltando, engrandecendo as qualidades de alguma cousa; como o faz o pregoeiro judicial, ou o leiloeiro.
Forme-se, pois, com estes elementos uma palavra nova: tome-se o radical — Precon, de præconium (em latim voz do pregoeiro); e se lhe agglutine o suffixo — nicio — (do ablativo latino — nuncio, noticia, annuncio) mudando o — u — em — i —, e fazendo cahir o — n — que precede o — c — para adoçamento da pronuncia; e ter-se ha a euphonica palavra Preconnicio —, de formação erudita e ascendencia legitima.
Encerrando, como encerra, o novo vocabulo preconnicio as mesmas idéas que o termo francez reclame, isto é, exprimindo preconnicio pelos seos elementos constituintes, um annuncio preconisador, um annuncio em que se exalta e engrandece alguma cousa, tem este termo novo portuguez a mesma significação que reclame, pelo que perfeita e completamente o traduz.
Os francêlhos e tarecos hão de talvez torcer o nariz; os que o não forem, estranharão ao principio, como succede com a roupa nova, por melhor talhada que seja; reflictam porém os espiritos desprevenidos; que á força de empregarem o termo novo, acabarão por lhe tirar a estranheza, dando-lhe fôro de cidade, si o julgarem d’isso merecedor.
Moraes (7ª edição) traz infelizmente a palavra franceza, ou antes, o vocabulo reclamo com o sentido de reclame francez.
Não deve ser usado; mas preconnicio.