Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/III
CACHE-NEZ
Atravessamos rigoroso estio; calamitosa secca ameaça produzir funestissimos resultados; não cahem chuvas abundantes; o frigido sudoeste não açouta montes, nem valles; capas, mantas e capotes estão por consequencia actualmente sem prestimo; jaz no fundo da gaveta o cache-nez.
O cache-nez?... Mas por que hei de eu usar de uma palavra franceza, si estou falando portuguez?... Responder-me-hão que é por não haver outra, que lhe corresponda na lingua de Camões.
Nada; quando uma filha não tem, por exemplo, çhale para se resguardar do frio, pede-o á sua mãe, e não a estranhos.
Não tem a lingua portugueza palavra equivalente em tudo a cache-nez? Pois peça á sua mãe, que é opulentissima, e na lingua latina açhará logo promptinho o focále, manta de lã usada pelos antigos romanos, com a qual cingiam o pescosso, e se resguardavam do frio, como se lê em Horacio e Marcial.
Troque portanto cada um o seo cache-nez por um focále, que é palavra euphonica e exprime exactissimamente os usos do cache-nez.
Não passou todo inteiro da lingua persa para o portuguez o vocabulo çhale?...
Porque não poderá passar tambem, e com maioria de razão, da lingua latina para a sua primogenita o termo focále?...
Reine, pois, o focále romano, e acabe- se a moda franceza do cache-nez.
Quando entrar o hynverno, hei de dar o exemplo; sahirei com o meo focále, collocarei os meos nasoculos, e não se julgue que é isto um preconnicio d'estes neologismos; hão de ver.