Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/IV
NUANCE-NUANCES
Era de verão: o thermometro marcava 35°; o calor abafava; o céo estava quasi negro; nuvens espessas e carregadas de electricidade despediam scentelhas deslumbrantes, seguidas de estrondosos trovões; a çhuva em torrentes alagava praças e ruas!...
Durou, porèm, só tres quartos de hora a tormenta, que foi pouco a pouco amainando, quando de repente mostrou-se esplendido aquelle meteóro, que o legislador hebreo indicou ao seo povo como signal de alliança entre o céo e a terra, e promessa inquebrantavel de não haver segundo diluvio.
Sem periphrase, os raios do sol poente esbatiam nas nuvens ralas, e desenhava-se um immenso e lindo arco-iris.
Mas ao que vem esta descripção de uma tempestade, terminando com a apparição do arco-iris?...
Para fazer comprehender o que os francezes çhamam — Nuance — no singular, e — Nuances — no plural, pareceu-me melhor exemplificar, do que definir o termo, que encerra idéas complexas.
No arco-iris aquella fusão quasi insensivel, e habilmente manejada pelo divino Artista, dos differentes tons da luz; aquella gradação de côres; aquellas differenças delicadas e subtis; emfim, aquella transição imperceptivel de uma para outra côr, eis ao que muĩto acertadamente çhamam os francezes — Nuance, Nuances.
Ha n’essa artistica combinação de côres como que uma duvida, que consiste em não se poder definir com exactidão onde morre uma, e onde nasce outra côr: a nuvem, ou nuvens reflectoras dos raios do sol apresentam n’esse phenomeno meteorologico um colorido dubio, ambiguo, que deleita a vista, deixando duvidosa a discriminação dos limites de cada côr.
Entremos agora na anatomia philologica. Foi para exprimir essa discriminação duvidosa das côres, que formaram os francezes a sua bella palavra — Nuance, Nuances, tirando a das duas latinas — Nubes, (nuvem) e — anceps — (duvidoso).
Ao vocabulo Nubes cortaram a ultima syllaba (bes), reduzindo-o ao prefixo — Nu —; e do adjectivo latino — anceps — supprimiram no singular o — ps —, e no plural somente o — p —; de modo que ficou em francez — Nuance — no singular, e Nuances no plural.
Não ha impugnação possivel contra esta etymologia, muĩto diversa da que dá Bescherelle, fazendo provir do verbo latino, — mutare — (mudar) a palavra Nuance, por que antigamente se dizia Muance; mas não explica d’onde vem o suffixo ance.
Não tinhamos em portuguez vocabulo, que exactamente exprimisse as idéas complexas de Nuance e Nuances; que deveriamos então fazer?... Nada mais simples: formarmos tambem nós, que falamos a lingua, que com pouca corrupção se crê latina, uma palavra que significasse exactamente todo esse conjuncto de idéas contido no termo francez — Nuance. E para que não haja duvida alguma de que o neologismo portuguez traduz as mesmissimas ideas que — Nuance em francez, engendremol-o com os mesmos elementos latinos, que serviram no francez á formação de Nuance, isto é, com as palavras latinas — Anceps (duvidoso) e nubes (nuvem).
Corte-se o — ps — de Anceps (Ance), dando a nubes o suffixo — io — ; e teremos Ancenubio; palavra doce, suave, euphonica, que de mais a mais tem já em portuguez por parente consanguineo — Connubio (formado de cum e nubes).
Fabricado com os mesmissimos elementos que Nuance, o vocabulo Ancenubio diz sem a menor discrepancia tudo quanto os francezes exprimem com o termo Nuance.
Está, portanto, não cortado, mas perfeitamente desatado o nó gordio: não mais arrancarão os cabellos os traductores, quando se lhes deparar a palavra Nuance ou Nuances; por isso que fielmente a podem traduzir por Ancenubio ou Ancenubios.