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Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/IX


IX

Nobres e plebêos, ricos e pobres, sabem que nos sumptuosos banquetes, ou nas casas de pasto de alta ou de mediocre categoria, çhama-se afrancezadamente Menu a lista das viandas, das iguarias, emfim, o rol dos manjares.

Desculpam-se do barbarismo todos os que o empregam, por não existir em portuguez palavra que exprima o que Menu francez significa.

Mas a verdadeira e genuina significação de Menu é miudo, e essa palavra foi por convenção admittida para substituir esta ou outra phrase semelhante: almôsso, jantar ou ceia, descriptos pelo miudo, minuciosamente.

Já no artigo Focale (antigo cache-nez) eu o disse, e ficará para sempre entendido que todas as vezes que em portuguez não tivermos termo para exprimir alguma cousa, que em lingua estranha seja expressa por palavra especial, recorramos ao grego, ou ao latim, formando um neologismo; ou com os elementos do nosso proprio idioma creêmos um novo vocabulo em condições convinhaveis.

O vocabulo latino charta (papel), reunido ao substantivo daps, dapis (comida, iguaria, manjar), póde produzir e produz, com as modificações que a euphonia requer, um termo muĩto mais expressivo do que o Menu francez.

Diga-se portanto Chardapio (cardapio), isto é, papel, lista das comidas, das viandas. N’esta palavra, formada pela intima soldadura das duas latinas (Charta, e daps, dapis), estão perfeitissimamente contidas todas as idéas, que de um modo elliptico buscaram os francezes exprimir com o seo vocabulo Menu.

No intuito de mais depressa attrahir a sympathia para este neologismo, lembrarei que os francezes chamam tambem a essa lista Carte, cuja origem latina é charta.

«Garçon, donnez-moi la carte», ouve-se a cada passo dizer tanto o francez, como o brazileiro, o portuguez, ou qualquer outro estrangeiro.

Em conclusão; não se peça mais ao moço o Menu, nem a Carte; mas o Chardapio (cardapio), que é por todos os motivos preferivel ao Menu.