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Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/VI

MEETING


VI

Depois de haver declarado guerra á França, declaro-a agora á Inglaterra; mas não dou os passaportes ao representante da velha Albion.

Passada a épocha infantil da humanidade, quando ao tutelar governo dos Patriarchas succedeu o dos Juizes e dos Reis, quando, finalmente, a collectividade humana çhegou á idade em que se julgou emancipada, e, no pleno gozo sui juris, começou o povo a tomar a iniciativa na direcção dos publicos negocios, impoz-se á autocracia.

Esta tendencia data dos mais remotos tempos da Grecia e Roma. Por varias vezes e em diversos paises, uma das forças era n’essa lucta constante vencida pela outra; e, ora o rei, ora o povo governava.

Em vão engenhosas ficções, no intuito de conciliar ambos esses elementos de dominação, têm tentado estabelecer um equilibrio permanente: o povo, como as ondas do vastissimo oceano recuando diante das moles, que se lhes oppôem, para em outro poncto se elevarem na razão directa da pressão, o povo busca sempre erguer-se, como a labareda, que abafada por um momento, irrompe logo depois mais colossal e magestosa.

Mas que máo costume tenho eu! Ia já deslizando para o terreno da historia politica e social das nações...

O que tem tal historia com o neologismo, de que se vae tractar, perguntará talvez o leitor?...

Eu respondo: Meeting, palavra ingleza, adoptada pelos francezes, posto que significa — reunião — ajuntamento, — tem quando empregada em inglez, em francez e até na propria lingua portugueza (!), a especial accepção de uma reunião do povo, quasi sempre, ou antes, sempre convocada por orador, que se dirige ás massas populares para tractar de assumptos politicos ou sociaes.

Por muĩto natural associação de idéas correram dos biccos da penna para o papel aquellas considerações geraes sobre essa lite mais ou menos pacifica, entre o povo e os autócratas.

Ouve-se por toda a parte repetir o britannico vocabulo — meeting —; e eu que açho não termos necessidade de pedir emprestadas palavras ao inglez, (quando penso até que bem lhe poderiamos pagar os capitaes que nos têm adiantado) vou tambem convocar um meeting para a abolição do meeting.

Supponhamo-nos por um momento na praça publica; milhares de cidadãos, como uma basta floresta, agitando a cópa (a cópa dos çhapéos), esperam anciosos a çhegada do orador; eil-o que se ergue d’entre a multidão, como um poeta grego imaginaria Neptuno emergindo das ondas, mas sem tridente.

Ouçamol-o. — «Meos senhores, agradeço-vos primeiro que tudo vossa animadora presença. Serei breve; esto brevis, et placebis — preceito do grande mestre do bom gosto poetico. — A materia, com que vou occupar vossa attenção, não póde de modo algum sobresaltar a policia: não tenho necessidade de invocar em meo favor o direito, que as leis me outorgam de expor o meo pensamento; porque o assumpto é altamente patriotico, e mais que tudo, porque não attaca, não fere interesses de ordem alguma, quer social, quer politica.

Eu pretendo, meos senhores, que me ajudeis no empenho de banir um estrangeiro, um inglez, um intruso, que se quer nacionalizar, conservando, porém, o capriçho de falar só inglez.

Esse inglez çhama-se Meeting; metteu-se em França, e quer agora do mesmo modo asylar-se em nosso país.

Entretanto, senhores, um individuo desconhecido ainda de vós, mas de legitima e nobilissima ascendencia, deve em minha opinião occupar o logar que indevidamente é por esse inglez occupado. Esse desconhecido, que apezar de sel-o, é illustre, çhama-se Concião. — Sua mãe, rica e sabia matrona, tinha o nome de Concio (Concio, concionis); porque por seo intermedio era que se convocava a assembléa popular, a reunião do povo para a discussão de assumptos politicos e sociaes.

Prometti ser breve devo: cumprir a promessa. Vós, intelligentes e illustrados, assás comprehendereis, pelo que vos acabo de dizer, que de hoje em diante não mais se falará no tal inglez Meeting: Concião, só Concião, e, quando fôr preciso, Conciões tem de substituil-o. (Appoiados prolongados de toda a Concião; todos agitam os lenços e çhapéos, gritando: Abaixo o Meeting! Abaixo o Meeting! Viva a Concião! Vivam as Conciões!)

O orador desce, e abraçado pelo povo, vem em conversa fazendo ver que, por exemplo, quando se diz ou escreve — Direito de reunião — a palavra reunião não dá idéa perfeita e completa da especie d’essa reunião; cousa que a propria palavra meeting mesmo em inglez não exprime, sinão por tacita convenção; entretanto que concio, onis, significa exactamente reunião do povo convocada por orador para fim politico ou social.

E a um que lhe observou ser mais um nome em — ão, desinencia que o mimoso purista açhava dura, respondeu, e muĩto bem:

— Essa desinencia já foi mais dura; no antigo portuguez era, como no hespanhol, e francez ainda hoje é — on; dizia-se coraçon, abrandado para coração.

Não ha dureza na desinencia ão; esta desinencia é um justo meio termo entre o on hespanhol e francez (linguas, de que muĩto gostam os francelhos) e o one latino e italiano. Não é o portuguez a unica lingua, em que ha esse suffixo; os Suabios (Allemanha) têm exactissimamente a mesma terminação ão para muĩtas palavras.

É dura a palavra Concião?... E não temos em portuguez o vocabulo Ancião, tão semelhante a este neologismo? — Os bons diccionarios portuguezes trazem, todos elles, o verbo concionar, (fazer discursos em publico) concional (pertencente á assembléa popular) concionatorio (relativo á assembléa popular).

Meeting deve ser d’ora em diante substituido pelo substantivo feminino Concião, Conciões.