Ir para o conteúdo

Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/VIII

AVALANCHE


VIII

A preguiça, ou antes o depravado gosto de enxertar na lingua portugueza palavras de idioma estrangeiro, tem levado certos lexicographos menos escrupulosos a inserir nos diccionarios — Nuança, Reclamo, Avalançha, Lançhe, Comité, e quejandas, que infelizmente se encontram na 7.ª edição de Moraes e no diccionario contemporaneo de Aulette.

Não quizeram, ou não puderam crear um neologismo, que as traduzisse, e foram por sua conta e risco introduzindo vocabulos barbaros, dos quaes alguns até na propria lingua, d’onde os transplantaram, são de pessima formação.

Çhamam os francezes — Avalanche — a móle ou massa enorme de neve que das montanhas se despega, e corre, precipitando-se para a valle. São estas todas as idéas contidas no termo francez Avalanche.

Façamos agora a dissecção da palavra, e açharemos os elementos latinos Ad (para) vallem (valle) e lance (do verbo francez lancer, lançar); os quaes, perdidas as lettras — d — de Ad — llem — de vallem, e accrescentado por corruptela popular um — h — depois do — c — de lance, produziram — Avalanche.

Taes elementos significam portanto — lança para o valle; mas a idea principal, que é a de neve, não apparece nem transparece na palavra formada, que exprime, por consequencia, incompletamente esse phenomeno physico.

Não obstante tão deficiente formação, querem nacionalizal-a.

Eu proponho para traduzir Avalanche o neologismo Runimól.

Aqui encontrar-se-hão os elementos principaes do termo, que perfeitamente indicam o phenomeno. Ru, (do verbo ruere, ruir, correr precipitadamente) ni (de nix, nivis, neve) mól (de moles, is, móle, massa). Runimól exprime portanto completamente a idéa complexa de uma móle ou massa de neve que rue, que se precipita; é até uma palavra onomatopica.

A circumstancia de não ser indicado o valle, para onde corre e se precipita a massa de neve, é secundaria; não ha necessidade de consignal-a, por ser evidente que uma massa de neve, que se despenha das montanhas, não póde correr, sinão para baixo, para o valle.

Será tambem ridiculo Runimól, só porque vem do latim?...

Este latim, este grego são dous espectros, que amendrontam os tarelos ou tarecos; (de ambos os modos escreveu Filinto Elysio) e com razão, porque com os primeiros nunca tiveram os segundos relações de amizade, nem mesmo conhecimento de vista.

Vá mais este termo novo, para servir de mófa; mas fiquem sabendo os francelhos que um moço, (que parece antes pertencer à geração passada do que á presente) tanto gostou do neologismo, que de proposito sobre este assumpto escreveu uma poesia, onde intercalou a seguinte redondilha:

Çhega ao zenith elevado,
Ardente, brilhante sol;
Sobre o valle se despenha
Gigantesco runimol