Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/XII
CARNET
XII
É o bello sexo, o sexo encantador, com quem tenho agora de me entender; tarefa melindrosa e gratissima, da qual não sei como me hei de gentilmente desempenhar. Gentilmente, escrevi eu; palavra que me desperta a lembrança de que hoje muĩto a empregam os que falam e escrevem portuguez, parecendo mais ser italianos; porque são estes os que de tal vocabulo maior gasto fazem. Isto é apenas reparo, não censura; que só o será, quando a gentil palavra, por demais dicta e redicta, se transforme em vicio de locução.
Est modus in rebus; as cousas têm seos limites. Ah! esqueci-me de que me dirigia ao bello sexo; que não gosta do latim por ser velho, e çheirar a môfo. Vão agora tambem quatro palavrinhas francezas, para ser absolvido do peccado: Pardon, mesdames, et demoiselles.
Disse eu que ia dirigir-me ao sexo encantador; vou cumprir o que disse, começando por lhe contar uma aventura, não romantica, que em um baile semi-aristocratico me succedeu.
Dançava-se, conversava-se, passeiava-se, reinava nos salões geral alegria; toda a casa estava solarmente illuminada, (para não commetter o italismo a giorno), e mais de uma vez, pela distancia em que me açhava, pareceu-me ouvir pronunciar a palavra carneiro.
Sem poder atinar com o motivo, por que em diversas rodas tal palavra se proferia, ou pelo menos se me affigurava ouvil-a, çhegado o momento de offerecer o braço à dama, a quem tinha pedido a honra de dançar commigo, travei, como pretexto de encetar colloquio differente das semsaborias costumadas em taes reuniões, o seguinte dialogo:
— Vou fazer a Vossa Excelencia uma pergunta, que talvez pareça indiscreta.
— O doutor é bastante illustrado para não fazer perguntas indiscretas.
Não me agradou nada a construcção da phrase, que é franceza pur sang; mas não tive remedio, sinão engolir o peregrinismo, e continuei:
— Mais de uma vez ouvi n’aquella extremidade do salão falar-se em carneiro.
— Em carneiro, doutor? Não posso comprehender.
— Dizia aquella senhora (e designei a pessoa)... Foi por que perdi o meo carneiro.
— Ah percebo agora, doutor.
— Portanto póde...
— Posso dizer-lhe o que é; não foi carneiro; o doutor não ouviu bem.
— Então, o que foi?
— Foi carnet: foi carnet, o que o doutor pela distancia, em que estava, suppoz ser carneiro.
— Agora entendo menos.
— Como? Pois o doutor não sabe que carnet é...
— Perdão, minha senhora; eu sei que carnet, palavra franceza, significa livrinho de lembranças, em que os homens do commercio, os negociantes, os banqueiros, os corretores marcam os dias de vencimentos de letras, e outras transacções.
— Mas nos bailes, doutor, o livrinho, em que se toma nota das quadrilhas, que se têm de dançar com este ou aquelle par, tambem se çhama carnet.
— Açho muĩto improprio, minha senhora. Será porque a promessa de dançar seja tão solemne, como a do pagamento de uma letra? Não serve esse livrinho para ajudar a memoria dos bailistas?
— É exactamente para isso, doutor.
— Então, çhame-se canhenho, termo genuinamente portuguez, e que significa livrinho de lembranças: nada mais simples.
— Mas é tão feio, doutor...
— Pois adopte-se então um neologismo.
— E qual ha de ser, doutor?
— Choribel (coribel), minha senhora.
— Ora, isso é latim.
— Não é tal, Eximia: choréa é, como Vossa Excelencia não ignora, palavra portugueza, e significa dança; a terminação — ibel, é do termo libello — palavra latina, é verdade, que quer dizer livrinho.
— Então, doutor, Choribel é o livrinho do baile, o livrinho das danças?
— Sim, minha senhora; e si não quizer dizer canhenho, choribel exprime exactamente o fim a que é destinado o livrinho; não é difficil de pronunciar, e...
— E eu acho a palavra bonita, bem bonita; prometto-lhe, doutor, que d’aqui em diante não hei de dizer mais carnet, mas só choribel. Oh! choribel é bem bonito..
N’este momento rompeu a orchestra, e eu com o meo gentil par comecei a chaine anglaise.