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Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/XIV

PARVENU


XIV

Tão desnecessario é o emprego de vocabulo estrangeiro, havendo na lingua vernacula palavra que perfeitamente o traduza, como indispensavel a creação de termo equivalente ao do idioma estranho, quando não o tenhamos no nosso vocabulario.

O termo francez — parvenu — está n’este ultimo caso.

Çhamam os francezes — parvenu — aquelle que, de origem obscura, do nada çhegou, por capricho da Fortuna, á alta posição pecuniaria.

Não ha em portuguez palavra que exprima este conjuncto de idéas.

Não póde, portanto, ser mais justificavel a creação de um neologismo, que abranja as circumstancias por aquelle vocabulo indicadas.

O parvenu é sempre empregado á má parte; é sempre considerado um filho da Fortuna, indigno dos favores da deosa céga.

É de duas o menor numero de palavras, com que em portuguez o traduzem os lexicographos — filho da Fortuna —; mas em vista da explicação que acabo de dar (e que é a do Diccionario da Academia), não bastam aquellas duas palavras para bem se comprehender o que é um parvenu.

Entre nós brazileiros formou o povo um neologismo (só quanto ao sentido) empregando a palavra — felizardo —, para dar idéa de pessoa que é feliz sem merecel-o.

Mas esta creação popular não satisfaz ainda, por ter o inconveniente de ser vocabulo homonymo de nome proprio de homem, e não exprimir a idéa de individuo, que do nada surgiu á opulencia.

Ha tambem outra expressão popular, que mais se approxima do sentido do parvenu francez; e é — um larangeira, páo de larangeira. São porém traducções, que só em estylo familiar se empregam.

Vou portanto apresentar um termo inteiramente novo, que em minha opinião verte com toda a exactidão o parvenu francez.

Eil-o: Plutenil. Será elle tambem um parvenu entre os vocabulos da lingua portugueza?...

Penso que não; e começarei a justificação mostrando que o formei de uma palavra grega, e duas latinas.

Plutenil, applicavel aos dous generos grammaticaes, é engendrado de Pluteó (ser rico, em grego) e (preposição latina, que indica origem, de) e do substantivo indeclinavel nil (nada, em latim).

A simples soletração das syllabas dá o verdadeiro sentido e traducção, isto é, rico do nada; que é o que quer dizer parvenu.

Não vejo que se possa com uma só palavra melhor exprimir o complexo de idéas encerradas n’aquella expressão franceza. Merecerei a honra de ser approvado como perito algebrista de vocabulos? Dil-o-hão os sabedores.