Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/XIX
CABOTAGEM
XIX
Será este vocabulo, de uso tão frequente, um gallicismo desculpavel, por não haver palavra portugueza, que perfeitamente o traduza?
O vocabulo cabotagem é genuinamente francez; é un gallicismo, que me parece, não; digo mal; que é desnecessario.
Diversa porém é a opinião do diccionarista Constancio que o julga «um termo util, visto não possuirmos substantivo que exprima a idea de navegação costeira, ao longo da costa, entre portos pouco distantes.»
Esqueceu-se o erudito philologo de que temos o verbo costear (navegar ao longo da costa).
E porque tendo-o, não crearemos o substantivo cognato, verbal — costeagem?
Em abono do neologismo ha entre muĩtos os seguintes exemplos: armazenagem de armazenar; beberagem de beber; cunhagem de cunhar; hospedagem de hospedar; lavagem de lavar; moagem de moer; passagem de passar; navegagem de navegar; pilhagem de pilhar; tiragem de tirar; viagem de viajar; e outros que agora me não occorrem.
A creação dos substantivos verbaes, quando já o verbo respectivo existe formado na linguagem, é de pleno direito em linguistica.
Bem sei que alguns verbos ha, cujo substantivo cognato não se fórma com os elementos do verbo; isto porém é quando no vocabulario existe já palavra, que encerra substantivamente a idea expressa pelo verbo, como por exemplo, dormir, cujo substantivo cognato é sommo.
Entretanto com o mesmo verbo dormir o modo infinito se emprega substantivamente, quando dizemos, verbi gratia, o dormir; ha tambem o substantivo dormida.
Expostas estas considerações, entendo, ao envés de Constancio, que cabotagem é gallicismo inutil; por que póde ser, e é perfeitamente substituido pela palavra portugueza — costeagem —, substantivo verbal do verbo costear, já existente, e do qual faz menção o proprio Constancio em seo diccionario.