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Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/XV

OUVERTURE


XV

Quando penso na riqueza da lingua que falamos, e que tanto tem sido pelos sciolos estragada, affigura-se-me ver herdeiros dissipadores esbanjando os grossos cabedaes legados por seos avoengos.

Bem sei que; por mais opulento que seja o espolio, póde haver falta de um ou outro objecto; mas falta que nem por isso diminue o real valor dos bens deixados.

É rico, é opulentissimo o idioma portuguez; seos maiores, o sanskrito, o arabe, o grego, e principalmente o latim, tanto o locupletaram, que causa dó ver desaproveitado e malbaratado esse Attalico thesouro.

Quasi exclusivamente circumscripta ao Brazil e a Portugal, não cuidam os grandes directores d’aquellas nações de fazer conquistas no terreno litterario, impondo, não suas armas, mas sua linguagem.

Em vez de invadir, somos invadidos; e até parece que temos honra e prazer em adoptar não só usos e costumes estranhos, esquecendo e desprezando os nossos, mas a linguagem dos que por outro modo não nos podendo avassallar, por este nos procuram conquistar.

A França, com habilidosa estrategia, impoz a lingua franceza ao mundo diplomatico: façam o Brazil e Portugal uma lei, prescrevendo que todos os funccionarios da diplomacia empreguem nos paises, em que representarem a respectiva nação, a lingua portugueza.

Não o fazem os inglezes com a sua lingua vernacula?...

Si nos quizerem imitar esses paises, onde tivermos representantes, escrevendo e falando a sua lingua, os interpretes auxiliarão o diplomata, quando este a ignore, como succede com os representantes do Occidente entre os povos orientaes, e outros. Sabem por ventura todos os nossos consules a lingua dos paises, onde dirigem o consulado brazileiro?

Mas... ne sutor ultra crepidam. Vieram estas considerações de politica transcendente, motivadas pelo desejo que tenho de ver estimada e venerada uma lingua, que tanto o merece.

Disse eu que ella é rica, que é opulenta, e que uma ou outra palavra, que lhe falte, não lhe diminue o valor intrinseco.

Temos exemplo no vocabulo Ouvertura, gallicismo intragavel. Não existe feito já na lingua portugueza termo proprio para denominar a peça de musica, com que se abre um concerto.

Abertura é absolutamente inapplicavel, por ter significações especiaes que não podem convir; é por consequencia indispensavel um neologismo.

Eu apresento o seguinte: Protophonia (de proto, prefixo grego, que dá idéa de prioridade, primeiro, com o suffixo phonia, de phone, som em grego).

Não temos já, para significar o concerto mu sico de instrumentos, a palavra Symphonia, formada tambem de dous vocabulos gregos?

Fique, portanto, banida para sempre a dissonante Ouvertura, e substituida pelo expressivo termo Protophonia.

Fechei esta abertura (ouvertura); assim quizessem os nossos diplomatas fechar aquellas suas repugnantes aberturas, de que usam na linguagem technica, substituindo-as pelo substantivo preliminares, ou outra expressão adequada, mas portugueza.