Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/XVII
FEERICO, (Féerique, francez)
XVII
Estava eu, como sempre, no meo gabinete, tendo apenas por companheiros poucos livros, amigos fidelissimos, que nem siquer com o timbre de sua voz me incommodam, quando inesperadamente batem-me á porta.
Abrindo-a, apparece-me um joven, que, havia pouco tempo, me fôra apresentado, e com quem poucas vezes depois da apresentação tive occasião de conversar.
— Doutor, desculpe-me vir interrompel-o em seos estudos.
Pregando logo uma das mentiras convencionaes da nossa sociedade culta, respondi, fazendo-o entrar:
— É uma interrupção agradavel; e muĩto folgarei de ver repetida.
Digo que foi mentira convencional da nossa sociedade, porque nesse momento estava eu escrevendo notas para uma obrazinha, cujo titulo por ora não declaro; visto que é costume dar-se o nome depois do nascimento, e muĩtas vezes só no acto de ser derramada a agua lustral do baptismo.
Trocadas algumas phrases frivolas, e precedendo um exordio cheio de modestia, foi sacando da algibeira umas tiras de papel escriptas.
Affigurou-se-me agudo punhal, com que iria ser traspassado; e invocando mentalmente o meo Anjo de guarda, entreguei-me á sorte, dizendo com accento algum tanto alterado pelo susto:
— Já sei que é uma composição, cuja leitura vou ter o gosto de ouvir.
Era outra mentira tambem das permittidas na convenção social moderna.
É verdade, doutor; mas peço lhe com franqueza o seo parecer e correcção.
— Pois vamos a ouvir, disse eu abafando um suspiro.
— Nesta poesia, doutor, posto que me refiro a uma mulher, o nome, e a possuidora d’este são phantasticos; não teem realidade; é apenas uma creação imaginaria.
— Comprehendo, comprehendo, disse eu em tom grave, e convencido, já resignado ao supplicio.
Começou a leitura. Os versos erão de arte menor; alguns claudicantes, outros de tal extensão e comprimento, que davam para reparar a curteza dos primeiros, sobrando ainda panno para mangas.
O lyrismo o mais alfeninado, o sentimentalismo o mais delicado erão a feição geral d’aquella enfiada de redondilhas, que por titulo tinha sómente o pronome — Ella! com um poncto de admiração!
Durante a leitura, não o interrompi; mas ao terminal-a, não pude deixar de fazer uma observação.
Lembro-me perfeitamente da ultima quadra, que é pessima:
Emfim para descrever
Esses teos encantos feericos,
Eu quizera possuir
Todos os dotes homericos.
— Meo caro poeta, disse-lhe eu, essa palavra feericos...
— É verdade, doutor; já sei que me vae dizer que é gallicismo.
— E imperdoavel; desculpe a franqueza.
— Mas como hei de substituir o termo, querendo eu dizer — os teos encantos de Fada?
— Diga com palavra portugueza.
— Porém a lingua portugueza não tem adjectivo, que traduza o adjectivo francez féerique.
— Pois crêe um neologismo.
— Trabalhei muĩto; ha mais de 15 dias que procuro formal-o, e não pude.
— Si me dá licença, lembro já um.
— Qual é, doutor?
— Fádico, fádica, fádicos.
— É optimo; mas a rima...
— Mude-a.
— É impossivel.
— Nada mais facil: em vez de querer possuir todos os dotes homericos, deseje possuir todos os dotes Arcádicos.
— Oh! que feliz açhado! Esplendido! Excellente! Meo caro doutor, muĩto agradecido.
E exultando de louca alegria, despediu-se, ficando eu a fazer commigo as seguintes reflexões:
Porque se ha de empregar o barbarismo feerico, (féerique) quando com o suffixo — ico, ica, proprio de tantos adjectivos, se pode formar o adjectivo fádico, que é a perfeita traducção de féerique?
Do substantivo maga, (feiticeira) não se fez o adjectivo magico, magica?