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Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/XVIII

MISE-EN-SCÈNE


XVIII

Só conheço no mundo duas nações, que teem gosto particular em estragar a sua linguagem, inçando-a de palavras alienigenas são Portugal e Brazil.

Nestes dous paises entretanto o instrumento da traducção das idéas, que é para ambos o mesmo, tudo pode exprimir; e quando não possua vocabulo para verter uma ou outra palavra estrangeira, tem nos proprios elementos vernaculos, (não querendo ir ao grego ou ao latim, de que se deriva o seo idioma, do latim principalmente), recurso para a formação de neologismos.

Ha mais de 30 annos que tenho noticia de um feliz neologismo para traduzir a locução franceza, formada de tres palavras — Mise-en-scène.

Não obstante, fatiga seos leitores a imprensa repetindo, repisando a locução — Mise-en-scène.

D’este ardente amor aos peregrinismos grande culpa cabe aos jornalistas, que devendo ser os primeiros e mais vigilantes fiscaes da pureza da linguagem, são os que menos cuidão de evitar o contagio do barbarismo. Supponho que applicam a este assumpto o adagio: De minimis non curat prætor, como si cousa minima, de muĩto pouco valor, fosse a lingua que falam.

Sem ter tido a felicidade de ser o auctor do neologismo, que traduz Mise-en-scène, lamento não saber quem o foi para aqui lhe dar sinceros parabens.

Mise-en-scène póde muĩto bem, e deve ser dispensado do nosso idioma, dizendo-se — Enscenação. No neologismo estão os elementos do vocabulo francez; pois que a nossa palavra portugueza está dizendo: — acção de pôr em scena.

O ensaiador de uma peça dramatica é o que se encarrega de preparal-a, convenientemente, para mettêl-a em scena, é elle quem executa a acção de pol-a em scena; pelo que muĩto bem formou o neologista o vocabulo Enscenação, que é o melhor correspondente da locução franceza Mise-en-scène.