Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/XXIII
CHARIVARI
XXIII
Para tractar do neologismo, que deve substituir a palavra franceza Charivari, não posso deixar de historiar o termo.
Designavam outr’ora os francezes pelo nome de Charivari um divertimento, que consistia em reunir-se maior ou menor numero de pessoas juncto á casa de uma velha viuva, quando esta contrahia novas nupcias.
Essa reunião era á noute, e os gaiatos munidos de caçarolas, frigideiras, sinos, timbales, e tachos batiam e rebatiam a poncto de ensurdecer, fazendo ao mesmo tempo algazarra descommunal, assuadas, emfim uma matinada insupportavel.
Foi a palavra Charivari formada do celtico Chari (jogo, divertimento), e vari (pena, incommodo); porque esse diabolico concerto instrumental e vocal só tinha por fim affligir, e incommodar os noivos.
Não temos, é verdade, em portuguez vocabulo que exprima tudo isso; mas tambem não o tinham os francezes, que o formaram d’aquellas duas palavras celticas.
Si em tudo queremos ser francezes, porque não os imitaremos igualmente, forjando uma palavra derivada do latim?...
Bescherelle diz que Charivari póde ter tambem por fonte etymologica o termo latino Chalybarium (vasilha de cobre); mas eu não encontrei jamais em latim tal palavra.
Tomando o termo Charivari na primitiva e genuina accepção, isto é, divertimento que causa incommodo, póde perfeitissimamente ser traduzido pelo neologismo Peniludio, de pœna, æ, (pena, incommodo, castigo) e de ludus, i, (divertimento, diversão) com a terminação peculiar da lingua portugueza. Peniludio é portanto, como Charivari, um divertimento, que causa incommodo, que é quasi um castigo.
Si porém, como modernamente o empregam os francezes (porque o uso d’esse divertimento caducou) Charivari exprime sómente algazarra, assuada, gritaria, bulha, matinada, todas e qualquer d’estas ultimas palavras dizem, mas em portugues, o mesmo que Charivari em francez.
Risquem-se pois dos diccionarios portuguezes, e fiquem esmiuçados o charivari, a nuança, o reclamo (no sentido de annuncio que recommenda alguma obra, ou outra qualquer cousa); porque taes insectos damninhos só servem para na guarda-roupa do nosso rico idioma roêr, e conspurcar a purpura das togas pretextas.