Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/I/XXV
MASSAGE
As palavras do Ecclesiastes — Nihil sub sole novum — encerram tão grande verdade, que em tudo se verifica aquelle memoravel apophthegma.
Dirão talvez que contra o absoluto da proposição Salomonica protestam as descobertas, as invenções dos tempos modernos.
Dirão talvez que as applicações do vapor, da electricidade, e mil outros inventos d’este seculo desmentem aquella sentença; a qual portanto não é verdadeira em toda a plenitude.
Eu porém continuarei a repetir convictamente: Nada é novo debaixo do sol.
Quem póde affirmar que o que temos hoje por novidade, por invento modernissimo não existiu, ou pelo menos não foi imaginado pelos que precederam os descobridores de hoje? — Quem póde sabêl-o?
Livros, que nos contam a historia do passado, quem póde com certeza dizer quantos desappareceram?... Muĩtas obras da arte antiga, que ainda hoje causam pasmo aos cultores da arte moderna, provam que o poder inventivo de espirito humano não é partilha exclusiva do seculo corrente:
E para mais justificar aquella sentença, observarei que estas mesmas considerações, agora apresentadas, devem ter occorrido, e com certeza occorreram a outros, que me precederam.
Mas porque estas reflexões philosophicas, tendentes a mostrar que o homem foi, é, e ha de ser sempre o mesmo, susceptivel porém de variantes?
Que ligação tem tal exordio com este artigo, que se inscreve Massage?
Facil é a resposta.
Chama-se modernamente em medicina Massage certo processo, que consiste em fazer methodicamente com as mãos sobre diversas partes do corpo pressões, e calcaduras no intuito principalmente de provocar a actividade vital para esses ponctos.
Ora esse processo era conhecido e empregado pelos Egypcios, e na India geralmente praticado.
A sciencia occidental adoptou-o, e com o nome de Massage o empregam os medicos no tractamento de varias doenças, principalmente nas paralysias.
Deve porém quem quer falar com a possivel pureza o idioma vernaculo admittir sem mais ceremonias o barbarismo Massage?
That is the question.
Consultado por um meo collega medico, moço recem formado, e louvando-lhe o desejo de evitar a barbariloquia, propuz o termo premagem, substantivo derivado do verbo portuguez — premar —, cuja significação é opprimir, calcar, etc., podendo ser çhamados premadores os medicos, que de tal modo de tractar fizerem estudo especial.
Aos meos collegas offereço o neologismo, que me parece de todo o poncto acceitavel.