Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/II
PETITS-POIS
Portuguez, ou brazileiro, que hoje resuscitasse depois de meio seculo de ausencia, tanto admiraria o progresso material dos respectivos paises, quanto pasmaria de ouvir palavras estrangeiras pronunciadas pelos compatriotas, ainda os mais ignorantes do idioma francez, e inglez.
Si qualquer dos redivivos não conhecesse tambem a lingua franceza, ver-se-hia obrigado em sua propria terra a pedir a traducção de certas palavras, quando em alguma casa de pasto (brazileira ou portugueza) lhe perguntasse o moço, si queria tal ou tal guisado com petits-pois.
Não ha na hypothese que figura exaggeração (não digo — exagero — por ser iberismo desnecessario): ha meio seculo, ha talvez menos tempo, a invasão dos vocabulos barbaros não tinha conquistado tanto terreno.
A onda cresce todos os dias, e si não houver paradeiro, poder-se-ha affirmar que dentro em pouco o Brazil se torna a França; Braziliam Galliam fieri, parodiando as palavras de Tito Livio.
Petits-pois! ! Por que hão de brazileiros e portuguezes çhamar assĩm as hervilhas miudas?
Será porque pronunciadas em francez tenham melhor sabor?...
Não se çhama feijão miudo? Por que não çhamaremos tambem hervilhas miudas a petits-pois?
Quem dér razão satisfactoria de se usar antes da palavra franceza petits-pois, do que dos vocabulos portuguezes hervilhas miudas, será para mim um grande Apollo. (Erit mihi magnus Apollo.)
Ninguem acreditaría, si não ouvisse a cada instante, e por toda a parte falar-se em petits-pois, parecendo até que é cousa differente de hervilhas miudas!!
O tempora! O mores!... Quem sabe até, si este artigo, em que lamento tamanha tolice, não será mettido a ridiculo?
Riam-se embora; mas corrijam-se do desnecessario barbarismo, nunca mais dizendo, quando falarem portuguez, petits-pois, mas hervilhas miudas.