Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/III
MARRON
Parece-me que não tardará muĩto que se introduza o costume de trazermos todos, como objecto indispensavel, um diccionario francez-portuguez (ia dizer mignon, mas emendo para — manual, pequenino, portatil, de algibeira), porque póde muĩto bem succeder que ouçamos palavra desconhecida, ou cuja significação esteja por nós esquecida.
Não se julgue que gracejo, quando digo que talvez dentro em pouco tempo ande cada cidadão com o seo pequenino diccionario francez-portuguez: tenho razões de suppor que tal necessidade haja de apparecer.
Assisti em certa occasião a uma scena familiar entre quatro moças.
Emquanto fazia a minha visita de medico, e estava formulando a receita, vi que entre as quatro moças, das quaes uma era recem-chegada do interior (para não dizer da roça), e vinha pela primeira vez á côrte, discutia-se a escolha de sedas para vestidos.
— Olhe, D. Mariquinhas, você com um vestido desta seda grenade, ou aquelle vieux-rose ha de ficar com uma toilette chic, muĩto chic.
— Não, Chiquinha, eu no caso della preferia este surate saumon.
— Ora, vocês não têm gosto, disse a terceira das irmãs, que se chamava Carolina: D. Mariquinhas, compre esse córte marron, compre o marron; ahi não ha nenhum tão bonito, como o marron; com uma guarnição de guipure e passementerie ha de ficar à merveille. E accrescentou, dirigindo-se ás duas irmãs:
— Chiquinha, Alcina, mostrem aquelles vestidos, com que vocês foram á soirée do commendador; que eu vou ao meo boudoir buscar um que póde servir de modelo.
E sahiram da sala as tres improvisadas francezinhas, deixando embasbacada a simploria mocinha da roça; a qual, dirigindo-se á dona da casa, disse:
— D. Florinda, eu não entendi quasi nada do que as moças falaram.
— Menina, eu tambem não entendo dessas francezias; d'antes falava-se portuguez, mas agora...
— Ora, Sr. doutor, (perguntou-me tomando animo a mocinha), o que é marron, que D. Carolina teimou tanto para eu comprar?...
— Marron, minha senhora, quer dizar — castanha; é aquella seda côr de castanha.
— Ora vejam só disse a roceirinha admirada.
Para não servir de diccionario vivo, tractei logo de me retirar; porque sinão, teria de traduzir grenade (côr de romã), vieux-rose (côr de rosa desmaiada), toilette (inutil barbarismo, quando temos traje), guipure (renda de malhas largas), passementerie (passamanes), soirée (saráo), boudoir (camarim de vestir), surate (escrevem Surah), que não é mais do que a sarja fabricada em Surate, cidade do Indostão, e o saumon (salmão, peixe), indicando a côr da mesma sarja.
Que necessidade ha de dizer marron? Diz-se por ventura cabello marron?
Não dizemos, e muĩto bem, cabello castanho? Pois diga-se tambem vestido castanho, seda cor de castanha, o mais é...