Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/IV
CHAMPIGNONS
Por associação de idéas, depois de tractar de petits-pois (hervilhas miudas) occorreu-me o vocabulo francez champignons.
Não me vou occupar da palavra, classificando a botanicamente não discorrerei tambem sobre o perigo que ha de confundir os que são venenosos com os innocuos; nem tampouco, qual novo Apicio dos tempos antigos, ou Brillat Savarin da idade moderna, tenho de discutir culinariamente o melhor modo de preparal-os.
O fim, com que intitulei este pequeno artigo — Champignons, é differente: desejo que me expliquem os entendidos o motivo por que se ha de usar tanto em portuguez desta palavra franceza.
Não haverá por ventura termo que em nossa lingua traduza champignons?
Quando eu era joven, bem joven, quando tinha os meos tres lustros de idade, já sabia (não o digo por jactancia) traduzir esta e outras muĩtas palavras, que hoje a pessoas, cujo saber e illustração sou o primeiro a respeitar, ouço dizer só em francez, não obstante estarem falando portuguez.
É admiravel! É a paixão do peregrinismo levada ao gráo maximo, ao delirio, á loucura, para não dizer á tolice rematada!
Champignons significa, significou, e sempre ha de significar — cogumelos ou tortulhos.
Por que não se ha de dizer a palavra vernacula, mas só a estrangeira?
Certa pessoa, de posição social em nosso país, entrando em um armazem perguntou, si havia á venda cogumelos.
— Não, senhor; respondeu o caixeiro.
Mas olhando casualmente o comprador para uma das prateleiras, e vendo latas de cogumelos, retorquiu:
— Como? Pois não estão alli?
— Não, senhor; aquillo é champignons, disse com todo o desempeno (antigo aplomb) o domno da casa.
Não é invenção; mas uma realidade o que acabo de referir.
Fóra com os champignons! Surjam os cogumelos!