Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/V
GARE
Costumava eu ouvir ler os jornaes de cada dia por um menino, que ainda não conhecia a lingua franceza, e que apenas começava a aprendel-a.
O leitor dava algumas vezes a sua syllabada, que eu immediatamente corrigia; e, como era estudioso, ficava o rapazinho satisfeito com a emenda, perguntando-me a significação de algumas palavras, que pela primeira vez n’essas leituras encontrava.
Sempre que em artigos insertos nas folhas. diarias achava gallicismos dos que notei, e substitui por neologismos, vinha contente dizer-me:
— Aqui está uma das palavras que o doutor reprova por não serem portuguezas, e que pode ser trocada pelo neologismo correspondente.
E logo repetia o neologismo.
Agradava-me aquella prova de adiantamento e docilidade, e por minha parte não cessava de estimulal-o a escrever e falar correctamente.
Succede que em certo dia, lendo elle um artigo em que se descrevia a recepção feita a uma auctoridade, que desembarcara na estação de uma ferrovia, hesitou por alguns instantes ao dar com a palavra — gare.
— Penso, doutor, que ha aqui erro de imprensa.
— Porque? perguntei-lhe eu.
— Talvez seja grade, porque eu não sei o que é — gare.
Duvidando do que ouvia, puz os meos nasoculos, e tomei o jornal.
— É aqui, disse-me elle, mostrando o logar, em que estava a palavra.
— Menino, por infelicidade não é erro typographico.
— Então é palavra portugueza que eu não conheço.
— Não é palavra portugueza, observei-lhe; é franceza.
— E o que quer dizer?
— Gare, vocabulo francez, além de outras significações, tem tambem a de — estação, embarcadouro.
— Então, é embarcadouro, é estação que se deve dizer?
— Não ha a menor duvida; gare é barbarismo escusado; nada ha que justifique o emprego de palavra estrangeira, quando existe em portuguez vocabulo castiço, que perfeitamente o traduz.
Esse e outros termos exoticos, que sem necessidade se empregam em portuguez, são vergonhosa prova da mais ridicula affectação, e ignorancia.
Gare é estação, ou ainda melhor, embarcadouro: palavra de que usaram os bons escriptores portuguezes, referindo-se ao logar, onde passageiros e mercadorias embarcam ou desembarcam de navios ou de carros.