Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/VII
ELITE
— Parabens, meo amigo! Está curado;
Já o vejo de pé; feição sadia.
— E' verdade; estou bom; e a minha cura
Devo ao doutor, e á sua homœopathia.
— Então, que faz agora? Quanto livro!...
Sei que as lettras cultiva com ardor...
— E' a minha paixão; porém ás vezes
Preferira ser nescio, meo doutor.
— São arrufos que passam; com as lettras
Quasi o mesmo succede que em amores.
— Não é, doutor, das lettras que me queixo,
Mas que tantos desprezem essas flôres.
— Nem todos gosto tem fino, apurado;
As sciencias, as lettras são manjares,
Que bem apreciar nem todos sabem;
Estragados ha muĩtos paladares.
— Na terra, em que nascemos, tão fecunda,
Não florescem as lettras, não; eu cuido
Que no ambiente existe, que nos cerca,
Para as lettras talvez nocivo fluido.
— Um miasma? um microbio? Então, um nome
Ao vibrião dê já parasitario...
— Dos seos collegas com a venia, seja
Terrivel cryptococus litterario.
— Concordo; e lembro um optimo recurso;
Infallivel, e facil medicina;
— Basta, não diga mais; eu adivinho;
E' o mal empregar como vaccina.
— E' isso; cultivar sciencia e lettras,
Transformar-lhes o culto em fanatismo;
— E' justamente o plano que eu adopto,
Batendo, quanto posso, o pedantismo.
— Mas agora trabalha... — N'um romance...
— Que por certo é de assumpto nacional;
— Isso nunca, doutor, nunca; é francez,
Pois não sendo, não vale um só real.
— Vergonhosa verdade! Assás conheço
Essa antiga mania — Mas, doutor,
Já que nisto falamos, desejara
Pedir ás suas luzes um favor.
— Para servil-o em tudo quanto eu possa,
Sempre prompto estarei, sempre; acredite:
— Estou embaraçado; dê-me um termo,
Que em portuguez traduza o termo — elite.
— E' isso? dou-lhe quatro primorosos;
A flôr, a fina flôr, a nata, a gemma;
— Bravo! Bravo! doutor; as mãos lhe beijo,
Resolvi afinal o meo problema.