Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/X
ETIQUETA (ÉTIQUETTE)
Entre as fontes, de que manam em largo jorro os barbarismos, occupam um dos primeiros logares os logistas, e empregados no commercio.
Recebem do estrangeiro as mercadorias, que trazem, como é natural, o nome respectivo na lingua do país, de que são exportadas; e quando o objecto, a que se refere o nome estrangeiro, não é d'aquelles geralmente conhecidos, lá se vae repetindo a palavra estrangeira, que passa de bocca em bocca.
Si é, por exemplo, uma fazenda, um tecido differente de todos os outros conhecidos, e si o fabricante lhe deu alguma denominação especial, alludindo a tal ou tal qualidade, ou a alguma particular circumstancia, é o caso de introduzir-se o barbarismo, que alastra como herva damninha.
Succede tambem que por negligencia, ou ignorancia çhamam os vendedores de mercadorias — Etiquetas — cousa muito differente do que em portuguez se conhece por — etiqueta.
Etiqueta na lingua portugueza, ou etiquetas no plural, significa ceremonial proprio das igrejas, dos palacios, formalidades usadas entre a gente da côrte; entretanto por este contacto quotidiano do povo com os empregados do commercio, nos tractos de compras, e vendas, já a palavra etiqueta é empregada como = rotulo, letreiro; accepção que não tem, nem nunca teve na lingua portugueza.
Em francez étiquette é sem duvida alguma rotulo, letreiro; mas em portuguez nunca, nunca se deve dizer semelhante barbarismo.
Não é isto a confirmação do que tenho já dicto; isto é, que grande numero de barbarismos têm por causa a preguiça, e a negligencia? Açharão tambem que étiquette, palavra franceza, seja tão expressiva, que não haja em portuguez outra, que lhe corresponda, e dê idéa perfeita do que o tal vocabulo representa?
É só o que me falta ouvir. Isto causa indignação, e nojo; prova preguiça, tolice, em uma palavra, a Advenomania linguistica no seo maior gráo.