Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/XI
ATELIER
Na minha qualidade de medico tenho muitas vezes çhegado a pensar que esta decidida tendencia para preferir e adoptar palavras francezas e inglezas, não obstante possuirmos ás vezes melhores vocabulos do que os exoticos preferidos, revela no organismo do portuguez e do brazileiro certa aberração, que bem poderia na Psychiatria ser classificada — Advenomania linguistica.
Tanto mais fundada é esta minha suspeita, quanto vejo que muĩta gente ha de certo gráo de instrucção, a qual, não obstante reconhecer o vicio, em que incorre, é comtudo arrastada a commettel-o.
Para de alguma sorte attenuarem o culposo procedimento, inventam então differenças subtís, esforçando-se por provar que a palavra estrangeira, melhor do que a vernacula, exprime mais completamente o pensamento.
E' curioso investigar o modo, por que em nossa lingua taes barbarismos se insinuam.
A mim se me affigura que umas vezes é a preguiça de ir aos diccionarios ver a significação do termo; o qual pelo sentido do discurso mais ou menos se adivinha, julgando-se por isso o preguiçoso dispensado de lhe dar a palavra correspondente em portuguez.
Outras vezes a residencia mais ou menos longa em países estrangeiros é o motivo do peregrinismo; finalmente o gosto de dizer em francez ou inglez o que podiam dizer em portuguez, porque conhecem perfeitamente a significação da palavra.
Foi o que succedeu com o vocabulo francez Atelier.
Os que o empregam bem sabem o que a palavra significa; mas, ou porque estiveram em França; ou porque ouviram algum artista, ou operario francez dizer Atelier, foram repetindo a palavra, não obstante saberem que Atelier não é mais do que Officina.
Já me está parecendo que hão de querer crear differenças entre Officina e Atelier; mas por toda a resposta a esses offereço a leitura do artigo Atelier no diccionario de Bescherelle, que define Atelier: Logar, em que trabalham artistas liberaes, e operarios mechanicos: ora, é isto o que em portuguez se çhama Officina.
E' verdade que o illustre lexicographo accrescenta — sob a direcção do mestre; — e como hoje indifferentemente se chama tanto em portuguez, como em francez, Atelier, a sala, em que trabalham os que já não precisam de mestre, talvez queiram fundar nisto a differença entre Atelier e Officina.
Isso porém não constitue differença essencial; porque ainda assim o artista, e o operario estão fazendo obras (Officium vem de — opus, trabalho, e facio, eu faço) de sua profissão.
Não ha necessidade de Atelier; o termo portuguez é Officina, casa, sala de trabalho.