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Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/XII

PENDANT


XII

Si eu fosse competente para escrever um diccionario da lingua portugueza, o que pensam os meos leitores que faria, afim de ver bem acceito, e com avidez comprado o mco trabalho?

Estou bem certo de que me responderiam: «Procurarias expungil-o de todos os vocabulos barbaros darias definições lexicologicas com todo o acerto; explicarias a origem de grande numero de termos, que por ignorancia da respectiva etymologia são mal orthographados; não acceitarias accepções erroneas dadas a esmo pelo vulgo, e a esmo admittidas por certos lexicographos; finalmente empregarias todo o cuidado, evitando omissões, e não esquecendo palavra alguma, que genuinamente á lingua pertencesse».

E' verdade; assim parece que deveria proceder; mas a experiencia é grande mestra; e a experiencia me tem mostrado que não seria esse o maior merito do vocabulario.

Vós vos admirais?... Não nos devemos admirar de cousa alguma; nihil admirari, diziam os antigos.

Outro seria o meo plano.

Tenho notado muitas vezes que, quando entre duas ou mais pessoas, se discute sobre a significação de tal ou tal palavra, recorre-se a um diccionario; e com quanto, nem sempre seja auctor de boa nota o lexicographo, para quem appella um dos contendores, exulta este ultimo, si no tal diccionario encontra o vocabulo com a significação embora errada, mas que elle suppunha verdadeira.

Sirva de exemplo o vocabulo — prosapia —, que significando — ascendencia, é pelo vulgo tomado erradamente como — jactancia, philaucia, amor proprio: quem, como o vulgo, sustentasse a erronea significação, julgar-se-hia victorioso, mostrando no diccionario de Aulete esse dislate.

D'aqui se infere que nem sempre o optimo é o melhor; e é por isso que eu, dada a hypothese de ser capaz de compôr um diccionario da lingua portugueza, substituiria por palavras francezas e inglezas muitos vocabulos vernaculos: tenho para mim que os francelhos, que são in magna quantitate, elevar-me-hiam ao maximo grão em materia de Philologia.

O diccionario de Aulete não só traz os barbarismos — lanche, e lanchar, mas até a propria palavra ingleza — lunch!

Eu portanto imitando-o, baniria de uma vez para sempre, por exemplo, a palavra — Symetria (por ser de origem grega) e na lettra — P — encaixaria desassombradamente o lindo — pendant — francez. Oh! o pendant! que graça, que mimo! Symetria é pesadão, termozinho da moda empregado pelos gafanhotos litterarios para classificar os vocabulos portuguezes por elles desconhecidos, e o estylo classico, correcto, e de periodos ciceronianos.

Não ha necessidade alguma do tal pendant; symetria é a palavra portugueza, que lhe corresponde, ou respondencia, como diziam os classicos.

Ah! manes de Filinto Elysio!...