Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/Sestros litterarios
SESTROS LITTERARIOS
Costumam attacar...
C. Lopes — Resurreições
Quer-me parecer que caminhamos para outra realisação do mytho biblico referente á torre de Babel.
Começa a reinar a confusão da lingua, e os obreiros da grande torre do progresso, por segundo castigo de suas audacias, vão dentro em pouco deixar de se entender.
Philologos da geração presente, tomae notas acertadas d’esta nova evolução do organismo social, para formardes mais justas classificações; anatomistas especiaes da glotte, empregae todo o cuidado na delicada dissecção, levantando na ponta do escalpello as ultimas fibras dos musculos, vasos e nervos.
Ninguem julgue que me vou occupar d’essa barbara invasão de vocabulos, e construcções de phrases, com que a pequice dos tarecos tem deturpado nosso magestoso idioma: não, não ha diques, nem paradeiros, que obstem á caudal torrente; o remedio portanto é nos consolarmos com a sentença: Levius fit patientia quidquid corrigere nefas.
De poucos annos para cá surgiu em Portugal, e principalmente na culta Lisboa, um certo modo de falar, que, em falta de melhor classificação, çhamarei — Solecismo alfeninado.
Nas altas regiões aristocraticas, nos circulos da mais estreme sociedade, nas gazetas, nos folhetins, nos romances, nas composições dramaticas, finalmente, em toda essa farragem litteraria, que atulha e tafulha as pacientes estantes das bibliothecas, lá está em toda a plenitude de seo desenvolvimento o microbio devorador da formosa pupilla de Camões e do Vieira: os estragos são já consideraveis!
Medicos sectarios da escola parasitaria, pedi a algum illustre Pasteur da philologia, um antidoto para extinguir esse cryptococus sui generis.
A endemia litteraria não se limitou ao paiz onde nasceu; atravessou o Atlantico, e sem encontrar cordão sanitario, que se lhe oppuzesse, veio acclimar-se no Brazil!
Estamos todos, digo mal, está tambem entre nós grande numero de pessoas affectado de solecismite alfeninada.
O mal vae lavrando com intensidade aterradora, e si não houver juncta hygienica que decrete efficazes processos de desinfecção e especificos heroicos para a completa extincção d'aquelle, ai da misera pupilla!...
Affigura-se-me que o espectro de Filinto Elysio levantando indignado a lousa do sepulchro: Na tersa phrase, que jamais perdera Graves solta do peito estas palavras:
«Lingua, que tanto honrei, que tão castiça
«No mundo, quando vivo, te fallára,
«Breve teo fim terás!... Giria, vasconço
«Has de em breve tornar-te!...»
Castro Lopes. — Resurreições.
Mas quaes os indicios da doença terrivel? qual o seo symptoma pathognomonico? Eis o que importa conhecer para cuidadosamente d'ella nos preservarmos.
Quando, amigo leitor, virdes, ou ouvirdes as palavras si, comsigo, de si, para si, etc., que bem sabeis serem as variações do pronome reflexivo se, cuidado!... acautelae-vos!...
Si o auctor ou interlocutor, que vos occupa a attenção, empregar as taes variações de modo que ellas não se refiram ao agente grammatical da oração, ahi tendes diante de vós um enfermo affectado de solecismite alfeninada.
Em tal caso a melhor resolução, que tomareis é fugir, fugir immediatamente; e para vos abstergerdes da impureza de tal contagio, observae com toda a confiança a receita do grande especialista das molestias litteratias da glotte, o já citado Filinto, cuja fórmula é a seguinte:
«Abra-se a antiga, veneranda fonte
«Dos genuinos classicos, e soltem-se
«As correntes da antiga e sã linguagem.»
Esta doença tem sido causa de mais de um galante qui-pro-quo.
Certo litterato, victima da solecismite, indo á casa de um amigo, dava á mulher d'aquelle a seguinte noticia: «Felicito á Vossa Excellencia pela boa compra, que fez hoje seo marido. — Qual foi? — Um çhapéo, que comprou para si, e que em si ha de ficar ás mil maravilhas. — Foi um desperdicio; por que ainda hontem comprou elle o çhapéo, com que hoje sahio. — Mas, perdôe-me Vossa Excellencia, o çhapéo não foi para elle, mas para si. A' vista da instancia a senhora começou a suspeitar que o illustre litterato estava com o juizo a arder, e por causa das duvidas não entrou em mais explicações.
Apresentava um poderoso patrono a um ministro um candidato; e depois do conveniente exordio dizia:
«A' vista das innumeras habilitações do meo cliente, o que desejo e peço a Vossa Excellencia é que arranje um logar para si. O ministro, que era bom grammatico, e que já tinha idéa da nova doença, respondeu gracejando:
«Por esse lado não se inquiete, que já está arranjado.»
Adoecêra do seo achaque rheumatico um velho de genio impaciente: manda chamar o medico, mas este, por infelicidade, estando tambem adoentado, responde por escripto dando-lhe essa noticia, e declarando que iria dentro em pouco tractar de si.
Ao ler uma tal resposta, o velho enche-se de colera, e manda-o despedir, quando poucas horas depois o medico se annunciou.
E' longa a lista das equivocações, que a tal solecismite alfeninada póde occasionar.
Recebe do seo protector o seguinte bilhete um individuo, que pretendia um emprego: «Amigo e senhor. — Não falei ao ministro sobre a sua pretenção, porque o Dr. F. me disse que já tinha pedido ao ministro esse logar para si, e que o obtivera.»
O Dr. F. era intimo amigo do pretendente, não precisava do emprego, nem este de modo algum lhe podia convir por ser logar subalterno.
A' vista porém do bilhete o pretendente levado por um assomo de indignação, escreve ao Dr. F., exprobra-lhe o seo procedimento, e protesta romper a antiga amizade.
O Dr. F., que outra cousa não tinha feito, sinão interessar-se muito pelo pretendente, para quem obteve o emprego, fica perplexo e sem saber o que concluir de tal embroglio, até que se resolve a entender-se pessoalmente com o amigo injustamente queixoso.
Chegam ambos então a conhecer que toda aquella desordem procedeo do maldicto — si ― erroneamente empregado!...
Mais um para rematar a serie dos factos burlescos da solescimite alfeninada.
— Sr. A., sabe que o Visconde de ***, já riquissimo, tirou hontem a sorte grande? — O meo compadre e amigo? — Sim; e saiba mais que me disse ser sua intenção gastal-a toda comsigo
— E' porque é um egoista sem igual. — Ao contrario; só vejo n'isso uma prova da maior e mais estupenda generosidade.
Os dous se entreolharam, e cada um disse de si para si, e falando comsigo: — Parece que estamos em uma casa de orates; este homem não está em si.
Agora verá o leitor que, não obstante haver eu empregado, nas ultimas linhas precedentes, as variações do pronome — se — (de si para si, comsigo, em si) não estou infeccionado da molestia, porque usei d'ellas, como todos os que sabem grammatica usam, isto é, fazendo-as referirse ao agente grammatical da oração; e não á pessoa, a quem, e com quem falamos; o que é attentado contra a logica, construcção abominavel, monstruosa locução, ridicula affectação do dizer e do escrever, cinca imperdoavel, torpe solecismo, erro palmar, emfim, vicio grammatical digno da ferula dos Orbilios!!
Reflecti que taes variações do pronome reflexivo são tambem reflexivas.
Uma supplica á mocidade seja o fecho d’este desabafo:
Jovens, que em philosophia estaes fascinados pelos falsos clarões de perigosas doutrinas; vós que com os vossos predilectos mestres apenas concedeis o favor de não negar nem affirmar a existencia de Deos; que eivados de louca presumpção não admittis a perpetuidade da sobrevivencia individual; que no delirio de concepções impossiveis negando a Divindade divinisaes a materia; vós, que por effeito de taes theorias tendes já pervertido o sentimento do bello em todas as ordens da natureza; vós, que em litteratura tocastes à ultima depravação do gosto; vós, para quem os archetypos classicos são velharias despreziveis, porque lhes ignoraes as riquezas, que o douto pó de seculares camadas occulta aos vossos versateis olhares; vós, que pareceis querer arrancar o trigo para plantar o joio; respeitae ao menos a fórma da expressão: não seja o vosso grito «Delenda grammatica!»
A linguagem é sem duvida o traje do pensamento; mas não sujeiteis ao capriçho da moda as vestes das vossas idéas, como o fazeis com as roupas do vosso corpo.