Ir para o conteúdo

Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/Um outro, uma outra

APPENDICE

UM OUTRO, UMA OUTRA


Têm por brasão os povos cultos conservar, o mais que podem, estreme e pura de barbarismos a lingua vernacula.

Mas não sei por que máo fado, com os que falam portuguez, o contrario succede: inçar de peregrinismos, e termos vindiços a linguagem nacional parece ser o seo mais glorioso timbre.

Este vergonhoso e lamentavel defeito, já de seculos radicado em Portugal, e no Brazil, tal incremento vae de dia em dia tomando, que a deturpação dos vocabulos e das construcções syntacticas acabará por transformar o abastardado portuguez em inintelligel geringonça.

São réos confessos d’este condemnavel alienigenismo litterario poetas e prosadores de ambas aquellas nações, alguns até acclamados pela voz da Fama eruditos philologos.

Postergando a leitura dos classicos, e tressuando francez por todos os póros, do apedeutismo se lhes gerou a depravação do gosto, malacia litteraria, que no país das lettras luso-brazilicas endemicamente reina.

Habituados exclusivamente ao insulso tempero da cosinha gallicana, estranham o sal da succulenta phrase portugueza; e nem córam de dizer — guardar o leito — (garder le lit) por estar de cama; qualquer um (quelqu'un); de resto (du reste) em logar de alem d'isso, demais, emquanto ao mais; venho de ler por acabo de ler; fez (!) (na linguagem dialogada) em vez de disse, replicou, retorquiu, etc., e mil outras erronias, muĩtas das quaes conscientemente, e com estupido garbo se ufanam de commetter.

Nada porém está tão generalisado, como as detestaveis expressões — um outro — uma outra, jamais usadas pelos classicos, jamais proferidas por quem se preze de falar correctamente.

Litteratos, oradores sagrados e profanos; nobres e plebeos; jornalistas, historiadores, romancistas; quasi tudo, em summa, diz e escreve — um outro, uma outra!!...

Aos taes francophilos se affigura que a expressão assim afrancezada dá maior força á phrase; e por isso até, quando a pronunciam, emphaticamente a proferem!...

Dos papagaios riem-se os homens, porque aquelles, postoque articulam sons perfeitamente similares ás palavras, lhes ignoram o sentido, e a idéa; com mais razão deve ser causa de riso o primaz da escala zoologica, quando, quasi machinalmente, emprega locuções barbaras, de que resulta absurdo.

Um e outro são adjectivos indefinitos; reunil-os é, alem de crear um gallicismo, formar uma expressão contradictoria. Outro é jà a opposição de um: quando se diz, por exemplo, — um é bom, outro é máo, o adjectivo indefinito outro exprime opposição relativa ao adjectivo articular indefinito — um —: junctar os dous adjectivos é ligar palavras entre si repugnantes pela heterogeneidade das idéas, que encerram.

Diz o comprador ao livreiro: Dê-me um exemplar de tal obra: examinado o exemplar, que achou estragado, accrescenta: Este não serve; dê-me outro; e não, nunca, um outro.

Chegou um mensageiro; pouco depois outro. Onde a necessidade, para nos fazermos comprehender, de reunir o adjectivo articular — um — ao adjectivo indefinito — outro? Poderá alguem suppor, quando o comprador pede ao livreiro outro exemplar, quando digo haver chegado outro mensageiro, que se confunda com o primeiro exemplar, ou com o primeiro mensageiro o adjectivo — outro — por não estar precedido de — um — ?... Um doente, já restabelecido, diz: Agora sou outro; agora estou outro; agora sinto-me outro; e não, nunca: sou um outro, estou um outro, sinto-me um outro. Só por que não seja n'estes exemplos precedido de — um — o adjectivo — outro —, poder-se-ha entender que o doente é o mesmo, está o mesmo, sente-se o mesmo?...

Outro ou é a traducção de alius; (outro em relação a muĩtos) ou a traducção de alter; (outro em relação a dous) e n'este caso póde tambem ser traduzido como segundo.

«No valor e felicidade foi outro Cesar». — N'esta, bem como em phrases analogas, posto que o adjectivo — outro — é traducção de alter, e equivale a segundo, ainda assim não empregam os classicos o adjectivo articular — um — precedendo a — outro —; não se deve pois dizer nem n'esta hypothese é — um outro Cesar. Embora seja n'este exemplo — outro Cesar o mesmo que segundo Cesar; é outro, é diverso, não mesmo na sua realidade pessoal; e por consequencia ainda ha uma idéa de opposição, não obstante possuir o tal individuo muitos ponctos de semelhança com Cesar.

Prevejo a irritação que ha de este reparo produzir nos tarelos, como çhamava Filinto Elysio aos que eu denomino francophilos talvez alguns dos taes, como crianças teimosas e malcreadas, esperneiem e bradem que hão de, hão de continuar a dizer e a escrever o gallicismo; é provavel que outros á guisa de garotos ridicularizem estas reflexões, como é costume dos mais velhacos para disfarçar a ignorancia; o que é certo é que todos esses, quanto mais pretendem tirar-me, mais me dão; o que é indubitavel é que para minha completa satisfacção bastam-me a acquiescencia dos animos desprevenidos, e o voto dos que sabem ler, e escrever.

Depois d'esta leitura observe cada qual as vezes, em que terá de ouvir e ler — um outro, uma outra; e reflectindo sobre as razões apresentadas reconhecerá que é sempre possivel sem prejuizo do sentido supprimir o adjectivo articular — um —, dizendo e escrevendo outro, outra, e não, nunca um outro, uma outra.