VOCABULARIO DOS BARBARISMOS DISPENSAVEIS[1]
Acclimatar (acclimater): En portuguez deve dizer-se acclimar; por que o substantivo portuguez é clima, e não climat, que é francez.
Adresse: Cartão, ou bilhete com a indicação do domicilio; endereço.
Arrière pensée: Segunda tenção.
Atelier: Officina, tanto para as artes liberaes, como mechanicas. (Vid. Dicc. de Bescherelle,) (pagina
119 deste livro).
Batiste: Cambraia, (téla finissima) que se çhama en francez — Batiste — do nome do fabricante. (Vid. Dicc. de Bescherelle).
Book-maker (buk-mêker): Estas duas palavras significam litteralmente fazedor de livros. En Londres fizerão com ellas um cerebrino neologismo para exprimir propriamente — O corretor de apostas nas corridas de cavallos. E foi adoptado en Portugal, e no Brazil! Entretanto é o sentido mais forçado, que se póde imaginar. Mas é ingles...
Boudoir: Camarim, gabinete elegantemente ornado.
Boulevard: Calçada.
Bouquet: Ramalhete, ou ramilhete.
Ça depend: Phrase, que não deve fazer esquecer a nossa locução portugueza: Tem seos conformes; ou o adverbio — conforme.
Chaise longue: Espreguiçador; (o povo diz — Espreguiçadeira).
Chalet: Castellête, ou castellejo. (Vede pag.
127).
Çhança (Chance): Probabilidade, occasião, alternativa, dita, fortuna, encontro. Intoleravel gallicismo, porque até se confunde com çhança — mófa, zombaria, dicto gracioso.
Chatelaine: Corrente da castellã. A palavra chatelaine é adjectivo, que significa — de castellã, relativo a castellã: o substantivo com que concorda é chaine (cadea, corrente). Por abbreviatura é que os francezes çhamão chatelaine a cadêa, en que as senhoras trazen os instrumentos de costura, e modernamente o relogio.
Climaterico: gallicismo; climerico deve ser o adjectivo; por que o substantivo portuguez, é clima, e não climat, que é francez.
Climatologia: Deve dizer-se Climalogia; porque o substantivo portuguez é clima, e não climat, que é francez.
Chefe d’obra: Gallicismo (chef d’œuvre) deve dizer-se obra prima, primor d’arte.
Club: britannismo desnecessario; en portuguez é sociedade, gremio, reunião, associação, assembléa.
Comité: Parece incrivel; mas Aulete, e a 7.ª edição do Diccionario de Moraes trazen este termo francez, como necessario para a lingua portugueza! Entretanto dá-lhe a significação — Juncta, reunião. Então para que o termo francez? Parece que todos perderão o juizo!... Accrescenta mais esta belleza a 7.ª edição do Diccionario de Moraes, que Comité ven do inglez (!!); e não conheceria quen tal escreveu os vocabulos latinos Comitatus, us, Comitium, ii?
Confeccionar: E' gallicismo; deve dizer-se — fazer, fabricar, compôr, preparar, formar, organizar.
Constatar: Repugnantissimo gallicismo, desnecessario; porque temos — verificar, certificar, documentar, authenticar (segundo o sentido do discurso).
Crêche: Estrebaria, cavallariça, presepio, ou presepe, estabulo, manjadoura (Vede pag.
109).
Crochet: Croquezinho, diminutivo do termo portuguez — croque —. A palavra franceza crochet é o diminutivo de croc; diga-se portanto tamben en portuguez o diminutivo do vocabulo portuguez croque.
Croquis: Esboço; é desnecessario o barbarismo.
Debut: Escusado gallicismo; en portuguez diz-se — estréa.
Debutar: Gallicismo desnecessario; o verbo portuguez é estréar (v. a.), estréar-se (v. r.).
Demi-monde: Neologismo francez, que se ten traduzido por — Mundo equivoco — (que é gallicismo por causa do termo — mundo). Eu traduzo — Sociedade especiosa, porque especioso quer dizer de apparencia enganadora.
Detalhe: Gallicismo muĩto usado na linguagem militar; mas que póde ben ser dispensado, por termos — relação por menor; (no plural) pormenores; particularidade, individuação, exposição circumstanciada, minudencia.
Elite: Flor, fina flor, nata, gemma. (Vede pag.
105)
Emoção: É gallicismo; tal termo nunca os classicos empregarão; commoção é que se deve dizer.
Ensemble: Conjuncto, sendo portanto dispensavel o barbarismo.
Enveloppe: O mais desnecessario dos barbarismos; en portuguez temos o vocabulo o mais proprio possível —
sobrecarta —.
Etagères: São prateleiras; en francez só se usa este vocabulo no plural. En portuguez empregão este gallicismo, dando-lhe o numero singular, en vez de chamar — aparador.
Etiquette: Rotulo, lettreiro. Os francelhos çhamão os rotulos e lettreiros
etiqueta; termo que en portuguez significa sómente — ceremonias de palacio, de igreja, formalidades de côrtes, e casas nobres. (Vede pag.
117).
Faisandé: Tocado, putrefacto, passado. Os francezes empregão a palavra applicando-a ao estado das aves, já quasi podres, como elles gostão de comer. É portanto inutil o barbarismo.
Fauteuil: Poltrona; não é necessario usar da palavra franceza.
Fez: Nojoso gallicismo, quando na linguagem dialogada se emprega, substituindo os verbos — disse, replicou, observou, atalhou, accudiu, retorquiu, redarguiu, e semelhantes.
Festival: Este é un gallicismo moderno dos mais detestaveis, que os jornaes repeten. Festival é adjectivo en portuguez, e nunca foi, nen será substantivo. Os substantivos, que exprimen essa idéa, são — festa, funcção, festividade, festança, festim, solemnidade, espectaculo, diversão.
Fichu: Lenço de tres ponctas.
Fissure: Os diccionarios dão a significação do termo, que é fenda, racha. Entretanto medicos ha, que dizen por gosto especial — fissura.
Flaneur: Passeiador, vadio, badajo, tunante, vagabundo, birbante, peralvilho, paralta, ocioso.
Foulard: Lenço de seda da India. Hoje já os mercadores de pannos e lençarias dão tamben o nome de foulard a uma seda propria de vestidos. Neologismos mercantis... Até esse gallicismo foulard ven confundir-se com folar, presente que se dá pela Paschoa.
Frappé: Resfriado, quando se fala dos vinhos, e outros licôres resfriados nos gêlo. Assin como se diz — vinho resfriado (frappé), não se deve dizer d'agua, e de qualquer outra bebida — gelada; salvo, quando o liquido toma a consistencia de gêlo.
Gare: Estação, embarcadouro. É desnecessario o barbarismo gare.
Golpe de vista (Coup d'œil): E' gallicismo; en portuguez diz-se vista d'olhos, olhada, olhar, volver d'olhos.
Guardar o leito: Este gallicismo causa riso pela idéa inteiramente opposta á que taes palavras exprimen en portuguez. Garder le lit é estar de cama; guardar o leito é pôl-o en logar seguro.
Grêve: Os operarios fizerão grêve; dizen os jornaes, (que julgamos estaren escriptos en portuguez): não saberáõ os que tal escreven o que é fazer parede?
Na praça de Grêve é que costumava o povo reunir-se para alguma sedição.
Groom: É o creado moço, que traz o palafren pelo freio, e que por isso se çhama palafreneiro. Os romancistas vão a torto e a direito denominando groom a qualquer creadinho!...
Hotel: Não ha necessidade d’este vocabulo estrangeiro: hospedaria é o termo genuinamente portuguez; mas a preguiça, e o philadvenismo preferen hotel para ter duas syllabas... Não sei como ainda não creárão o verbo — hotelar-se para substituir — hospedar-se!
Os francelhos ainda dizen por muĩto favor: Hospedei-me no hotel.
Installar: Gallicismo; (em que peze aos redactores do nosso Acto Addicional). Diz-se en portuguez: constituir en cargo, en dignidade, investir, metter de posse, estabelecer.
Leader (pronuncia-se
lider): É britannismo superfluo: en portuguez diz-se — o
chefe, o cabeça, o guia, o caudilho, o director.
Não é exacto que os inglezes na linguagen parlamentar dêen significação especial ao termo
Leader (lider); empregão-n-o, como nós podemos dizer, e dizemos nas mesmas circumstancias, — na significação de
chefe. Ha em inglez a expressão particular —
Leader-ring — que quer dizer —
chefe de partido. — Por consequencia pode-se muĩto ben dizer, dispensando o britannismo
Leader, — o
chefe dos debates. (Vede pag.
135).
Loja: Quen fala portuguez, sabe que loja é casa, en que se venden mercadorias; ou casa terrea por baixo de sobrado, ou finalmente sociedade maçonica. Fóra d’estas accepções é gallicismo o termo loja, que para vergonha nossa se lê en un dos nossos theatros, indicando camarote (!!!); por que camarote en francez é loge.
Marche aux flambeaux: Marcha com luminarias; passeio com illuminação; passeio com luzes. E' portanto desnecessario usar das expressões francezas.
Marron: Castanha; côr de castanha (Vede pag.
59).
Peignoir: Roupão; e tamben penteador, quando é a camisa de mangas largas, que se veste na
occasião de cortar e penteiar o cabello (Vede pag.
139).
Pendant: Symetria; respondencia (Vede pag. 123).
Plateau: Çhapada, planura, çhapadão.
Porte-monnaie: Mealheiro, (bolsinha assin chamada de ũa moeda antiquissima que tinha o nome de mealha).
Posta-restante: Esta locução não é gallicismo. En portuguez a palavra — posta — significa — correio; e restante é o adjectivo do verbo restar.
Posta-restante significa — o correio, ou as cartas que ficão de resto no correio.
Por que muĩtas palavras se assemelhão ás francezas, nen por isso serão barbarismos, visto haver grande numero de vocabulos, que do francez passárão para o nosso idioma desde os mais remotos tempos da formação da lingua.
Pool (pule): Parada, termo de jogo; parada, que se faz nas corridas de cavallos, que são tamben un jogo (Vede pag.
113).
Rendez-vous: Estancia, prazo dado, entrevista, parada, poncto, (poncto de reunião).
Reporter: alviçareiro.
Robe de chambre: Rocló, que antiquissimamente se dizia
rocloró (Vede pag.
101).
Ruche: Colmêa, (cortiço de abelhas). Os francezes çhamão a un enfeite de mulher formado de fôfos á semelhança de colmêa — ruche —; çhame-se portanto tamben en portuguez — fôfos de colmêa; não ha necessidade da palavra franceza.
Soutache: É un certo trancelim usado pelos militares. Os mercadores de fazendas de armarinho derão a denominação de soutache a ũa especie de trancelim, que por isso designão com esse nome especial, mas que afinal é sempre trancelim.
Spleen (pronuncia-se
splin): Hypocondria (Vede pag.
131).
Tête-à-tête: Colloquio, conversa entre dous.
Tableau: Esta palavra é muĩtas vezes empregada en fórma de interjeicção — Tableau! Tableau significa painel, quadro; que difficuldade ha de traduzir essa interjeicção por esta outra portugueza — Que quadro! Que painel! Ou simplesmente — Quadro!
Diz-se muĩtas vezes en portuguez, falando de scenas alegres, ou tristes — Que quadro!
Toilette: Traje, vestimenta; e tamben quarto de vestir.
Toast (pronuncia-se tôst): Brinde, saudação que se faz á mesa. Que necessidade ha do britannismo?
Na côrte de Henrique VIII, rei d’Inglaterra, era uso encher um cópo d’agua do banho, enquanto a raínha o estava tomando; e lançar no mesmo cópo ũa fatia de pão torrado (toast).
Bebia en primeiro logar o rei, passando depois o cópo aos gentishomens; o ultimo comia a torrada.
Çhamava-se isto fazer un toast.
Ũa vez tendo o embaixador de França recusado beber no tal cópo, desculpou-se dizendo ao monarcha inglez:
— Senhor, eu deixo o liquido para os vossos gentishomens; e si Vossa Magestade me auctorisar, guardo-me para a torrada.
Ora, o toast que nesse dia estava no banheiro, era Anna Bolena. Tanta graça e çhiste achou Henrique VIII no dicto do embaixador, que no postridio lhe enviou a insignia da Orden da Liga (Jarretière).
Onde porên o Intermediario dos excavadores, e curiosos açhou esta anedocta? Ao certo não se sabe.
Este uso de beber a agua do banho da rainha é anterior ao seculo XVI.
Reinava como soberana en Alcazar a bella Dona Maria de Padilha, amante de Pedro o Cruel: a celebre favorita tinha adoptado para seo uso o «Banho das Sultanas» ; para o qual entrava en presença da corte, exigindo a polidez que cada cortésão bebesse no côvo da mão da favorita un pouco da agua do banho.
Recusou fazel-o un dos grandes de Hespanha, e perguntando-lhe o principe a razão de tal injuria: «Depois de ter provado o molho, respondeu elle, receio que se me abra o appetite para o peixe».
Eis o que li no Courrier des Etats-Unis de Maio de 1888, exemplar que me forneceu o Illustrissimo Senhor Luiz H. Vieira Souto.
Larousse diz que outr’ora quen en Inglaterra fazia, ũa saude no fin do jantar, mettia ũa fatia de pão torrado (toast) no cópo ou taça. Depois de têl-a feito circular por toda a mesa, a taça que cada conviva tinha levado aos labios, voltava ao primeiro, que bebja o liquido, e comia a torrada (toast).
Cahiu o uso das torradas; mas os britannelhos ainda empregão o toast, de que não precisamos, não só por termos os vocabulos — brinde — saude —; mas porque é triste recordar tão repugnantes usanças.
Tuyoté: Encanudado, é a traducção da palavra franceza. O mulherio ignorante diz tiotê. Diga-se babado de canudos, fofos encanudados.
Virtuose: É um italismo muito dispensavel; virtuose corresponde a curioso, ou pessoa curiosa, que sabe algũa arte sen a ter aprendido.