Noções Elementares de Archeologia/III

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Noções Elementares de Archeologia por Joaquim Possidónio Narciso da Silva
Capitulo III: Idade media


Idade media[editar]

Era romanica

Chama-se idade-media o periodo comprehendido desde a quéda do imperio romano (V seculo), até o principio do seculo XVI.

A architectura dos primeiros seculos da idade-meia apresenta os caracteres da architectura romana degenerada, e a designam com o nome de architectura Roman: o typo roman persistiu até ao seculo XII. Examinaremos este longo periodo da historia da arte, subdividindo em duas epocas; o roman primitivo, que comprehende do V seculo ao XI; e o roman secundario, que pertence aos seculos XI e XII.

Periodo roman primitivo[editar]

Depois das invasões dos barbaros, as artes e as lettras acharam amparo nas cidades, e depois nos mosteiros. Os architectos apropriaram ás necessidades da epoca parte dos edificios gallo-romanos; e exploraram a outra parte como se o fizessem em uma pedreira; acharam nas columnas, nos entablamentos, nas esculpturas diversas, e nos outros materiaes que cobriam o solo, mina que por muito tempo lhes forneceu pedras já lavradas: não tendo outro trabalho, o maior numero de vezes, senão ajustal-os ao logar para que os destinavam: portanto a duração do roman primitivo, pois, propriamente fallando, é a continuação do periodo artistico antecedente, apenas com a alteração nas formas, pela inhabilidade progressiva dos operarios e architectos.

Os elementos de decoração ficaram como estavam; as esculpturas, os mosaicos, as pinturas, foram empregadas como no seculo IV; as composições foram copiadas ou reproduzidas com insignificantes variantes.

Infelizmente, possuimos bem poucos d'esses restos authenticos dos edificios do primeiro periodo roman; é preciso recorrer aos ultimos tempos do imperio, reunir mentalmente os mosaicos, as molduras das decorações, as pinturas decorativas, então usadas, para completar a escala da ornamentação durante os seculos V, VI, VII e VIII.

Figura 89: Tumulo de marmore dos primeiros seculos christãos

Ao passo que se aproveitaram os fragmentos preexistentes nos edificios, que resistiram ás devastações dos barbaros, fazia-se um trabalho de assimilação que devemos ter em conta: além de construir bastantes edificios novos que lhes deviam ser indispensaveis, precisavam tambem de supprir as faltas de outros, reparar as paredes e as esculpturas, construir e ornar as igrejas novas. O elemento christão, com o seu symbolismo novo, seus especiaes assumptos, fez nascer uma nova escola de esculptura e de pintura, posto que se inspirassem dos modelos romanos. Basta citar para prova d'isto os tumulos dos primeiros seculos da idade media com as suas scenas biblicas, e as figuras cujos typos existiam nas pinturas das catacumbas.

As primeiras igrejas christãs foram copiadas das basilicas romanas. As basilicas eram como edificios para os tribunaes, centros commerciaes (bolsas) ou bazares. Dois renques parallelos de columnas dividiam o edificio em tres partes, no sentido da largura. A grande nave central era mais larga e mais elevada que as outras duas. Na extremidade das tres galerias, e na central havia um espaço pouco profundo, e de fórma circular, onde se assentava o presidente ou o primeiro juiz, tendo aos lados todos os juizes accessores; o bispo ahi collocava a sua cadeira, e as ceremonias religiosas eram apropriadas á disposição do local.

Figura 90

Ha em Abrantes uma igreja que é perfeito especimen d'esta disposição; é a unica que suppômos haver em Portugal com este typo.

As abbadias, ou communidades religiosas, foram egualmente imitadas das grandes habitações romanas, tanto da cidade como do campo, de que apresentâmos um specimen na pagina 82 [fig. 69]; o antigo atrium, o perystilo, tem sido representado na disposição dos claustros.

O tablium, ou grande sala, foi representada na casa do capitulo.

No mais foi tudo imitado das outras partes das habitações romanas com as modificações que necessitava a vida commum dos religiosos. A igreja veio sómente trazer novo elemento á composição da parte central dos conventos; porém o pateo externo, com os seus celeiros, curraes, lagares, etc., apresentava a similhança de uma villa rustica dos romanos reunida á habitação do proprietario.

Figura 91: Fragmento de um tabernaculo, ornado de pedras peciosas, de pombas, palmeiras carregadas de fructas, symbolisando as graças espirituaes. Esculptura mérovingia do museu d'Arles

Os palacios tiveram disposição identica á das grandes casas romanas; os seus pateos ornados de columnas ou de arcadas como os claustros, eram, como estes, a reproducção exacta do atrium e do perystilo. (Veja-se a pag. 82. [fig. 69])

Figura 92: O interior da crypta de Saint-Avit, em Orleans (IX seculo)
Figura 93: Columnas e pilastras da crypta com os capiteis

As habitações ruraes dos proprietarios abastados reproduziam tambem as disposições principaes das villæ gallo-romanas.

Figura 94: A igreja de Vieux-Pont-en-Auge (Calvados), construida com pequeno apparelho

Passemos rapidamente sobre esta primeira parte do periodo roman, do qual existe mui pouco para citar, e vamos já occupar-nos do segundo periodo, que nos apresenta grande numero de monumentos notaveis, dando porém alguns fragmentos de architectura e esculptura pertencentes ao periodo roman primitivo, n'esta pagina e nas seguintes para se formar melhor idéa, posto que succinta, do estado da arte nos seculos IX e X.

Figura 95: Capitel da igreja de Jouarre (VII seculo)
Figura 96: Frontão do baptisterio de Poitiers
Figura 97: Pavões e animaes symbolicos
Periodo roman secundario

O seculo IX, de tão crueis provações, vira desapparecer grande numero de edificios pertencentes aos seculos anteriores. Estes edificios não teriam grande solidez, porque os normandos facilmente os destruiram e incendiaram, na occasião dos seus saques e vandalismos, e os que não ficaram expostos a esta barbaria apresentam já o aspecto vetusto.

Quando quizeram reparar similhantes damnos, reconstruiram o que já estava destruido, e não encontraram, como succedera no V e nos seguintes seculos, senão fustes de columnas, capiteis, esculpturas provenientes dos monumentos em ruinas dos gallo-romanos: foi preciso, no seculo X, cortar nova cantaria, extrahir outros materiaes, executar esculpturas, ainda que grosseiramente, para os ornamentos com que desejavam dar realce ás igrejas, aos palacios, e outros edificios publicos, ou particulares: portanto, nova ordem de cousas devia resultar das novas exigencias e necessidades. Viu-se, pois, no ultimo quartel do seculo X, e principalmente no XI, a architectura em via de transformação, depois caminhar gradualmente para o estado de esplendor a que attingiu no seculo XII.

As esculpturas provenientes dos monumentos romanos, ou muito bem imitados, deram certo brilho ao interior das grandes construcções dos seculos intermediarios: os mosaicos, as pinturas e estuques, occultavam a pobreza dos materiaes empregados.

No seculo XI dispensaram os ornamentos no interior das habitações, porém exigiram mais solidez e mais segurança contra os incendios; construiram mais frequentemente com pedra, pensaram em substituir com abobadas os tectos de madeira, que haviam sido até então quasi exclusivamente empregados.

Os frades architectos, e os demais artistas, em plena liberdade para innovar, construiram as igrejas e os edificios, onde havia necessidade de taes obras, combinando novos planos e disposições inteiramente desconhecidas. As proporções antigas exigidas na architeclura não continuaram a ser observadas quanto ao modulo das columnas, e suas subdivisões. O colorete fez então sempre parte do capitel, de certo contrario ás regras da architectura romana, porque o colorete andava ligado com o corpo da columna.

As esculpturas mais rudimentares apresentavam series de figuras repetidas, que se agrupavam, seguindo, conforme as escolas, systemas differentes.

Estes factos, que o seculo XI apresenta ao observador prespicaz, fazem de certo modo, d'esta época, que vamos tratar, o ponto de partida dos desenvolvimentos da architectura tal como se nos apresenta hoje á vista, examinado o extraordinario numero dos edificios antigos que existem na Europa.

Passamos portanto a apresentar, seculo por seculo, comparativamente, os typos dos edificios religiosos, civis, e as fortificações, e indicaremos successivamente os seus caracteres principaes, por modo que possa demonstrar-se claramente a marcha e o desenvolvimento da architectura e das artes accessorias durante o periodo indicado.

Architectua religiosa[editar]

Descrevendo os caracteres principaes da architectura religiosa do periodo roman secundario, comprehenderemos ao mesmo tempo os seculos XI e XII.

Os ornatos do seculo XI teem mui pouco relevo, e estão executados com bastante rudeza; mas os do seculo XII já apresentam os contornos mais correctos, com ornamentação mais variada, e de acabamento infinitamente mais superior; pode affirmar-se que a architectura roman chegára á maxima perfeição.

Forma das igrejas

Como já dissemos, as igrejas foram imitadas primitivamente das basilicas romanas, porém algumas, logo desde os primeiros tempos, tiveram no risco a fórma da cruz, pelo augmento da parte a que chamamos cruzeiro.

A fórma geral das igrejas um pouco vastas no seculo XI, e nos seguintes, era a da cruz, cujos braços se estendiam de Norte ao Sul, e cuja cabeça estava figurada pelo côro voltado para Leste. A entrada principal era do lado occidental; ás vezes nas paredes lateraes da nave havia frestas. O comprimento da nave comparado com o do côro e capella mór, o maior ou menor desenvolvimento dos cruzeiros, estabeleceu nas fórmas geraes das igrejas mudanças importantissimas. O côro, menos compridó que a nave, apresentava quasi sempre a terça ou quarta parte do comprimento total do edificio.

Figura 98

Umas vezes as naves lateraes terminavam onde principiava a curva da abside, como se vê na figura 101, pag. 124; outras vezes prolongavam-se em volta do côro como na figura 100. Havia tambem igrejas rectangulares, ou com o fundo do côro recto.

Figura 99

Nos paizes do Norte, as igrejas acabavam a Leste e a Oeste, por absides semicirculares, figura B, como egualmente existem em algumas igrejas antigas, principalmente em S. Lourenço de Grenoble, como indica a planta junta; assim como outras muito mais antigas eram compostas sempre d'uma nave terminando em fórma circular, fig. 98; ou com os lados polygonaes, cercada por naves lateraes ou galerias; havendo a Leste, um altar collocado n'um appendice encostado sobre as paredes circulares. Esta fórma foi imitada pelo imperador Carlos Magno, na celebre igreja de Aix-la-Chapelle, a qual tambem depois imitaram na igreja d'Ottmarsheim, na Allemanha.

Figura 100: Naves lateraes contornando a abside
Figura 101: Igreja com duas absides
Figura 102: Córte da igreja de Ottmarsheim (Alto Rheno)

Dava-se em algumas igrejas a fórma redonda ou octogona, para imitar a do Santo Sepulchro de Jerusalem.

Por baixo do côro de muitas igrejas existiam cryptas ou capellas subterraneas; quando tinham maiores dimensões, as suas abobadas eram sustentadas por dois renques de columnas.

Figura 103: Plano da igreja de Ottmarsheim

Algumas cryptas prolongam-se por baixo do cruzeiro; desce-se para as cryptas por escadas que saem das naves, ou da nave principal junto da entrada[1] para o côro, ou dos cruzeiros.

Apparelhos das construcções

Encontram-se nos seculos XI e XII os principaes apparelhos em uso na architectura roman primitiva. O pequeno apparelho e o medio vê-se frequentemente applicado.

Quando se serviram de cantaria liza para cobrirem as faces das paredes, assentavam-n'a de lado, com inclinação alternada para a direita e esquerda (opus spiscatum). Os romanos usavam tambem pôr as pedras d'este modo.

Figura 104

No seculo XI, os apparelhos tinham larga facha de cimento nos intersticios, ao passo que no seculo seguinte, as juntas mostravam menos espessura.

Em alguns apparelhos medios vêem-se diversas figuras profundamente gravadas, parecendo signaes dos canteiros, que teriam por este meio reconhecido as pedras que tivessem preparado para se lhes pagar os salarios.[2]

Figura 105

Contrafortes

Os contrafortes tiveram no seculo XI muito pouca saliencia, comparativamente com a que depois se lhes deu. No seculo XII, apparecem muitas vezes os pilares ornados de columnas mettidas nos angulos com os esbarros revestidos de curvas com imbricados [fig. 106].

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Figura 106 Figura 107 Figura 108

Na Italia, na Allemanha e em outras nações, os contrafortes são mui pouco salientes, e só permittem os de ressaltos separados por distancias eguaes uns dos outros [fig. 107 e 108].

Ornamentações

Para abreviarmos as explicações sobre este ponto, daremos os desenhos de algumas molduras ornamentadas, que eram mais vulgares nas construcções religiosas dos seculos XI e XII.

Figura 109: Zigue-zagues oppostos
Figura 110: Filêtes desencontrados
Figura 111: Zigue-zagues alternados

Mr. de Caumont emprehendeu repetidas viagens por differentes paizes, com o louvavel intuito de indagar quaes seriam as modificações que o genio dos architectos introduzira em tal ou tal provincia; assim como para examinar se haveria synchronismo entre os edificios, apresentando a grandes distancias uns dos outros identidade de typos architectonicos.

Figura 112: Escamas
Figura 113: Carrâncas
Figura 114: Pontas de diamante
Figura 115: Estrellas
Figura 116: Torçal
Figura 117: Zigue-zagues dentados
Figura 118: Folhagem com serpes
Figura 119: Entrelaçados
Figura 120: Ornamento dentado
Figura 121: Molduras entrançadas e carrancas/Molduras com rhombos
Figura 122: Florões ornados de perolas
Figura 123: Faixas e molduras com perolas
Figura 124: Entrançados com perolas
Figura 125: Discos e molduras com lavor
Figura 126: Palmas e quadrupedes

Este trabalho scientifico de summo interesse para a historia da arte, era mais um importante serviço prestado aos estudos archeologicos por pessoa já afeita por seu saber e dedicação.

Arcadas fingidas

Figura 127: Do seculo XII

As grandes superficies foram muitas vezes guarnecidas arcadas fingidas, assentes em pilastras ou em columnas embebidas na parede, e dava-se-lhes o nome de arcaturas: faz-se idéa do effeito que produziriam vendo o especimen que apresentamos.

Figura 128: Archivoltas dos seculos XI e XII.

Portas

De todas as partes dos edificios, são sem duvida as portas que tem sido mais ornadas de molduras no seculo XII, e até em alguns edificios com aspecto simples. Porém no seculo XI conservam ainda, no maior numero, grande simplicidade nas fórmas. Foi no seculo XII que mais se multiplicaram as archivoltas, e o que obrigou depois a proporcionar o numero das columnas que serviam de apoio á queda d'essas curvas, e dar maior grossura aos pés direitos interiores: algumas portas não apresentam nem columnas nem pilastras, apenas tem ornatos desde o cimo á base, com aformoseamentos de mais ou menos profusão.

Figura 129: Porta da igreja de Mortain

Os tympanos (é assim que se chama o espaço semicircular comprehendido entre a abertura e as archivoltas bem como o espaço triangular entre as mulduras do frontão e as do entablamento do perystilo), são compostos de peças symetricas com molduras ou sem ellas; ha outros que estão cheios de baixos-relevos; como se vê n'este tympano da igreja de S. Miguel, proximo d'Angoulème (França), no qual o archanjo representa vencer o inimigo do genero humano, prostrado aos pés sob a fórma de gigante dragão. É nos tympanos das portas que se encontra principalmente a representação de Christo entre os symbolos dos quatro evangelistas, o boi,[3] a aguia, o leão e o anjo.

Figura 130

Muitas portas tiveram primitivamente alpendre coberto com telhas; d'este modo poderam ornal-as com baixos-relevos e molduras, posto que fossem de cantaria, pois sem o que ficariam expostas á intemperie das estações, e perder-se-hia o trabalho. Nas igrejas e nas cathedraes existem egualmente grandes alpendres, que figuram vestibulos diante das portas, como em Santarem, na igreja de S. Francisco.

Figura 131: Jesus Christo n'uma aureola, no meio dos symbolos dos quatro evangelistas
Figura 132: Portico-vestibulo em Moissac

Fachadas

Figura 133

A disposição das fachadas varia conforme a grandeza das igrejas. Na representada pela gravura junta de uma igreja rural, a porta tem duas archivoltas guarnecida de rhômbos e de zigue-zágues, tendo no cimo um renque de arcadas fingidas; uma unica abertura occupa o centro do frontão com uma janella de volta perfeita. A outra figura representa uma igreja, mostrando os lados indicados conforme a posição das naves lateraes, tendo já maior fachada que a precedente. Por cima da porta veêm-se tres archivoltas sustentadas por columnas e ornadas de diversas molduras; mais acima a janella de volta com archivolta e columnasinhas; e a sua parte superior cornija com modilhões e frontão triangular. Esta combinação é frequente nas igrejas do seculo XII.

Figura 134: Fachada da igreja de Jort (Calvados).

Janellas

As janellas de maiores dimensões são estreitas e sem columnas. No seculo XII, principalmente, são maiores e ornadas de archivoltas sustentadas por columnasinhas, e por vezes acompanhadas de arcadas fingidas.

Figura 135
Figura 136: Janella guarnecida de duas arcaturas

As aberturas são circulares, e usam chamar-lhes espelhos ou oculos; principiaram a ser empregadas no seculo XII, divididas em raios do centro para a circumferencia. Apresentavam tal ou qual similhança com as rodas das carruagens. O logar dos espelhos era escolhido nas extremidades da nave principal, ficando por cima da porta occidental, e ás vezes tambem no centro da abside ou do côro.

Figura 137

Temos ainda felizmente, em Portugal, um edificio religioso que conserva o typo completo da architectura do seculo XII, e é o que pertence á profanada igreja de S. João de Alporão, em Santarem. Todas as formas e detalhes, que caracterisam a architectura roman, se conservam ainda na dita construcção. Os seus dois portaes com o feitio de volta semicircular; as columnas sem lavor, sustentando archivoltas; o tympano liso por cima da verga do portal; os butareos singelos; a cimalha composta de carrancas; o espelho aberto na extremidade da nave e radiado; a fachada principal voltada para o lado do poente, conforme a orientação adoptada no culto christão; apparelho pequeno applicado á construcção, conservando muita largura nas juntas da cantaria; tudo emfim nos offerece o completo modelo das primitivas igrejas d'aquella época, que o fundador da monarchia portugueza mandou construir no reino. E além de apresentar a mais evidente prova do estylo da architectura do seculo XII, tambem nos confirma ter pertencido esta fabrica ao reinado de D. Affonso Henriques, mostrarem igualmente as pedras da edificação as siglas com que na idade media os canteiros marcavam o trabalho executado,[4] signaes necessarios para reconhecer a qual dos operarios pertencia, e saber-se tambem quanto se deveria pagar a cada um: pois que esses signaes são similhantes aos demais gravados na cantaria dos monumentos coevos do paiz, notando-se esta particularidade não só nas ruinas dos castellos, mas tambem nos edificios religiosos. A nossa satisfação aqui sobe de ponto por sermos o primeiro que apresentâmos tal gravura e tão precioso e completo especimen da archeologia patria da referida epoca.

Figura 138: Igreja de S. João d'Alporão (Santarem)

Arcadas

As arcadas, dispostas para communicar a nave principal com os lados da igreja, eram construidas pela mesma forma como as portas; suas archivoltas poucas vezes tinham molduras, e por isso ficavam quasi sempre ligadas.

Entablamentos

Figura 139

O entablamento que corôa as paredes dos edificios é geralmente posto sobre modilhões figurando cabeças grotescas, carrancas, ou outras figuras de feitios variados; como se nota nas fachadas posteriores da sé velha de Coimbra, do convento de Santa Clara de Santarem, da igreja de Cedofeita, e capella-mór de Odivellas.

Figura 140

Á proporção que nos aproximâmos do fim do seculo XII, as cornijas mostram-se-nos mais leves, e no seculo XIII apresentam-nos guarnição imitando dentes de serra.

Columnas

Os pontos de apoio que tinham sido muitas vezes monocylindricos no principio do seculo XII, até quando eram compostos de pilastras, foram depois, quasi meado este seculo, formados por um conjuncto de columnas enfeixadas, innovação que devia depois produzir as columnas inteiriças desde o solo até ao nascimento da abobada, concorrendo assim para a creação do estylo ogival.

Figura 141

Capiteis e diversas bases das columnas nos seculos XI e XII

Chama-se capitel historiado ao que é formado por composições relativas a assumptos religiosos ou historicos, executados em baixo-relevo.[5]

Abobadas

Durante o seculo XI, as abobadas de cantaria eram raras, e principalmente applicadas ás grandes naves; em geral não se viam as abobadas senão nas naves lateraes e nas absides, ficando visiveis os madeiramentos, ou então cobertos com taboado.

Foi no seculo XII que os mais ousados architectos lançaram as primeiras abobadas de cantaria sobre as grandes naves; mas para esta construcção foi preciso modificar a antiga disposição afim de receber os pontos de apoio dos arcos encruzados em diagonal, que contribuem tanto para consolidar essas abobadas.

Nas igrejas do estylo roman, notam-se facilmente estas estructuras, e as mudanças que isso motivou nas suas construcções.

Figura 142: Vista interior da igreja de Souillac

Existe certo numero de igrejas com a abobada construida em cupula. Representa uma cupula a metade de uma esphera. Para se poderem firmar as cupulas nas paredes, cujas divisões apresentavam a fórma quadrada, era necessario collocar entre os seus arcos abobadas pendentes (pendantifs), de maneira a formar com elles (na parte superior) o circulo horisontal, sobre o qual caia o peso da cupula: este modo de construir a cupula tirava a sua origem da architectura Bysantina.

Ha tambem outras abobadas ogivaes cupuliformes, que se firmam não nas paredes lateraes, mas egualmenle na archivolta dos arcos de cada vão, na direcção longitudinal. De sorte que, se suppozermos uma cupula ou espheroide, que se transforme com as suas abobadas pendentes, formar-se-ha a idéa primitiva que produziu o systema que expozemos, e ao qual o distinctissimo architecto Mr. Viollet-le-Duc deu a seguinte significação: É uma cupula hemispherica furada com quatro arcos em ponto subido traçados por tres pontos. Fortificavam-se estas abobadas esphericas achatadas com as nervuras ou arcos cruzados, descançando-as nos angulos do quadrado, e com outros que se cruzavam no intervallo dos primeiros, e rematavam no cimo de cada arco maior.

As abobadas esphericas com duplo cruzamento de nervura foram muito applicadas nos seculos XII e XIII.

Porém, para voltarmos á descripção das abobadas dos seculos XI e XII em geral, basta dizer que ha muitas que foram construidas da fórma de semi-cylindros continuos, descançando nas paredes ou pilares, e que se reforçaram com arcos duplos de cantaria parallelos á dita abobada como apresentâmos na gravura da pagina seguinte; porém, o peso d'estas abobadas era muito grande, e causava ruinas frequentes. Então, para remediar este inconveniente, cruzavam-se os arcos duplos, afim de dividir a pressão e dirigil-a nos pilares regularmente separados. As paredes lateraes ficaram por este modo consideravelmente alliviadas do grande peso que d'antes tinham sobre si, o que se verá perfeitamente na gravura seguinte. Este systema originou o enfeixarem-se as columnas conforme as combinações que serão facilmente comprehendidas, e que tinham por fim sustentar os arcos duplos.

Figura 143: Abobadas do seculo XII, com arcos duplos cruzados

Torres isoladas

Presume-se que as torres para sinos não foram construidas antes do seculo VIII, e por muito tempo seriam apenas um simples campanario, ficando superior ao telhado da igreja e proximo do sanctuario, para facilitar os toques durante a missa, sem que o acolyto se afastasse do altar. Depois apparece a torre da igreja entre o côro e a nave principal. Nas grandes igrejas collocaram uma torre sobre o centro do cruzeiro, e passado tempo levantaram outras nas extremidades occidentaes das naves. Esta nova disposição das torres era já usada no seculo XII e antes dos fins do XI, mas applicada sómente para as igrejas dos conventos.

Figura 144: Torre do seculo XII

As torres romans eram, além da fórma quadrada, limitadas por uma pyramide de grandes faces, quer fosse construida de pedra, quer de madeira: esta pyramide terminava muitas vezes com a extremidade de fórma romba; tal assim foi construida a torre quadrada e isolada da igreja de N. Senhora das Dôres, em Dornes, na provincia da Extremadura.

O grande numero de pyramides que ornam as torres antigas romans foi obra executada depois nos seculos XIII e XIV. Ha tambem algumas torres de fórma octogona e terminando por um telhado que obedece á mesma fórma.

Iconographia[6] christã

Ainda que este assumpto nos conduziria muito longe, todavia para não ficar incompleto, em parte, tão importante estudo da arte n'este periodo, tambem resumidamente daremos succintas explicações.

Pinturas decorativas

As pinturas decorativas foram muito usadas no seculo XII. As ocres encarnadas e amarellas, o azul, o verde e o branco, formam a escala mais commum das côres. As figuras eram imitadas das que se executavam na esculptura da mesma época.

Figura 145: Pinturas do seculo XII

Pavimentos

Os sanctuarios mais elegantes tinham o piso executado em mosaico, ou marchetados de côres. Principiaram no século XII a usar nos pavimentos das igrejas os tijolos;[7]porém os revestidos com cimento, ou lageados, eram usuaes em as naves.

Altares

Os altares e pias baptismaes pertencentes ao seculo XII são raros hoje; eram de estylo inteiramente analogo ao das igrejas d'esse tempo, conforme se vê nos especimens que damos.

Figura 146: Altar roman, em Saint-Germer

Tumulos

Posto que a interessante obra que nos serve de poderoso guia não traga explicações sobre os tumulos do periodo, de que tratâmos, pareceu-nos conveniente dizer alguma cousa, para não omittirmos as essenciaes noções ácerca dos diversos trabalhos.

Figura 147: Pias de baptismo roman de Chéreng (França)

Foi no seculo IX, que consentiram em que os cadaveres tivessem sepulturas no interior das igrejas, mas d'esta prerogativa só podiam gosar os reis, os bispos e os abbades, que por suas virtudes estiressem no caso de receber canonisação; por quanto os cemiterios christãos, nos primitivos tempos, eram situados fora das cidades; e no concilio celebrado em 660 se permittiram os enterros unicamente nos adros das igrejas.

Os christãos costumavam amortalhar os defuntos com os fatos usuaes e as insignias do cargo ou profissão; os parentes mais proximos transportavam os despojos mortaes, que eram depois encerrados em caixão de pedra, marmore, ou de madeira e chumbo, ficando o cadaver com o rosto voltado para o céo e os pés para o Oriente. Manteve-se este uso até o seculo XIII.

Os sarcophagos eram collocados sobre o solo em renques parallelos, na direcção do norte para o sul. Tinham a fórma de parallelipedo, sendo mais estreitos aos pés que do lado da cabeça; e alguns tomavam na cabeceira a fórma curvilinea.

Fazendo investigações archeologicas ainda este anno (1876), em Alvaizerere, no antigo cemiterio e sitio chamado da Igreja-Velha, da qual já não existem nenhuns vestigios, descobrimos sepulturas d'esse feitio pertencentes ao seculo XI; o que nos fez conhecer a época da fundação da remota igreja, de que só se conservou o nome.

N'essa época tambem costumavam collocar dentro do caixão dois vasos de barro, um com agua benta, e outro com brazas e incenso.

Havia em muitos cemiterios, no seculo XII, além de uma cruz de pedra, uma columna ôca, ou pilar quadrado, no qual punham de noite uma lanterna em signal de veneração para o logar sagrado, e como indicação para que os transeuntes pudessem rezar pelo eterno descanço dos finados.

Os tumulos em vulto ficavam collocados nas cryptas, ou nos porticos ou em capellas das igrejas, separados das paredes ou mettidos dentro de arcadas no grosso da construcção; e estas arcadas eram ornadas com diversas molduras proprias do estylo ao qual pertencia a época do tumulo:[8] porém, no seculo XIV, acompanhadas dos dois lados por contrafortes e pinaculos. Emquanto ao feitio do cofre sepulchral, imitaram a fórma quadrangular da decadencia romana. Os que eram construidos em marmore estavam decorados por arcadas ou baixos-relevos. A campa era composta de uma grande lagea horisontal, ou duas inclinadas, formando um angulo agudo, e ornada de arabescos. No final do seculo XII, começaram de empregar a fórma das campas com lados inclinados.

Nos tres seculos seguintes, apresentavam a estatua do defunto deitada de costas sobre a tampa do sarcophago. Viam-se ás vezes o marido e a mulher ao lado um do outro, no mesmo tumulo.

No museu de archeologia do Carmo, em Lisboa, ha um singular exemplo da estatua de uma pessoa real deitada de ilharga, que podemos considerar raro, porque ha só outro exemplo no jazigo real de S. Diniz, em França.

Os reis e os fidalgos eram representados com os seus uniformes, os bispos e os abbades com as suas vestimentas sacerdotaes, com as mãos juntas, ou os braços cruzados no peito.[9]

Os tumulos mais modestos da idade media, são os rasos, collocados nas igrejas e nos claustros. Os mais antigos datam do seculo XII. N'essas campas acham-se gravados em traços concavos, a effigie e o corpo inteiro do finado, com inscripção em latim; o mais notavel exemplo d'este genero existe em um claustro de Alcobaça, tendo a campa assente entre a porta da casa do capitulo e a galeria do claustro.[10]

As pedras tumulares eram tambem ornadas de incrustações de cobre, e d'este género apparecera no anno de 1875 em Portugal metade de uma campa pertencente a um tumulo, o qual estava entaipado na parede da igreja de S. Domingos em Santarem: representava apenas as pernas de duas figuras de homem e outra de mulher, e uma pequena parte da inscripção já com falta de algumas letras.[11]

Nas igrejas da Belgica ha grande numero de campas d'este genero com embutidos de metal.

É de grande auxilio para a historia o estudo de taes tumulos, principalmente para se conhecer certos brazões e usos do vestuario na idade-media.

Architectura civil[editar]

As construcções destinadas aos conventos, aos hospitaes, palacios, mercados, pontes, ás casas particulares, constituem emfim a architectura civil. As construcções civis dos seculos XI e XII mostram no apparelho, na fórma das aberturas, molduras e ornamentações, que eram identicas das construcções religiosas.

Figura 148: Janellas de diversas construcções civis

As vergas das janellas de volta perfeita, e ás vezes de fórma recta, eram subdivididas em duas aberturas, como as usadas nas igrejas.

Aos respiradouros das chaminés davam-lhes a fórma cylindrica na parte superior, ficando mais ou menos elevados.

Figura 149

A frente dos fogões no interior dos aposentos era sustentada com columnas e pilastras, ou arcos abatidos.

Edificios monasticos

As construcções civis mais importantes pertenciam ás casas religiosas. A sua architectura era simples e severa no seculo XI; porém no XII, o sem numero de legados destinados aos mosteiros facilitaram o emprego de quantias avultadas para a construcção de claustros e de casas de habitação. Existem ainda em Portugal, não obstante a destruição e abandono que se dá ha cincoenta annos n'esses edificios religiosos, como em Alcobaça, Santarem e Coimbra, bellos especimens da architectura monastica do seculo XII. Já dissemos [na pag. 116] que as abbadias haviam copiado as principaes distribuições das casas de campo, e das cidades usadas pelos romanos.

Figura 150: Plano d'uma abbadia do seculo XII (parte central)
1, igreja. 3, sala capitular. 2, 4, 5, salas abobadadas, com os dormitorios em volta. 9, refeitorio. 11, salas de recepção. 12, pateo rodeado pela galeria do claustro.

O claustro representava o peristylo que os romanos tinham nas casas das cidades, sendo esta a parte reservada para a vida privada; tambem imitavam as officinas que cercavam a villa urbana, ou pateo principal d'essas villas: o plano que apresentamos mostra as principaes disposições das casas que guarneciam o claustro.

Dormitorios.—O dormitorio ficava quasi sempre contiguo ao claustro e em frente da igreja: esta sala não acontecia ficar parallela á galeria do claustro, mas estendia-se do norte ao sul ou do sul ao norte, conforme a posição do pateo do convento, relativamente ao logar occupado pela igreja.

Cosinhas.—No seculo XII as cosinhas apresentavam em muitas abbadias a fórma redonda, octogona ou quadrada, formando uma casa em separado, posto que ficando sempre na proximidade do refeitorio. Estas cosinhas, de que ha bom exemplo em Alcobaça,[12] tinham em roda muitas fornalhas com chaminés, e cada uma d'ellas com uma columna ôca de pedra, que saía do telhado conico do edificio, no cimo do qual havia respiradouros em fórma de laternins, para darem saída ao fumo e estabelecer a ventilação.

Figura 151: Cosinha de Saint-Père (Chartres)

Será comprehendida esta construcção pela gravura acima, que representa as antigas cosinhas de Saint-Père de Chartres (França), de que já não ha vestigios.

Albergarias.—As casas para hospedes, pois quasi todas as congregações religiosas exerciam franca hospitalidade, recebendo os viajantes de diversas procedencias, occupam em muitos mosteiros a parte occidental das casas claustraes. Na parte de fóra do claustro, encontrava-se a area interior, ou pateo interno, reservado para os leigos ou criados; a area communis, grande pateo onde as carretas circulavam para descarregarem os productos dos dizimos. Á roda d'este grande pateo estavam os celeiros, armazens e curraes. A area communis comprehendia ainda a grande porta da entrada, porta maior, o pretorio onde se julgavam os delictos, a prisão, finalmente o pombal, o forno para cozer o pão, e n'alguns tambem o moinho.

Celleiros.—Os celleiros, annexos á area communis, eram verdadeiros edificios monumentaes. Os carros entravam carregados com os cereaes por uma extremidade e saíam descarregados pela extremidade opposta.

Os armazens e adegas eram tambem edificios bem construidos e vastos.

Mercados

Os mercados assimilhavam-se no seculo XI aos celleiros que eram formados de galerias em roda do recinto murado.

Hospicios

Os hospicios tinham bastante importancia em certas cidades. A principal parte do edificio continha o salão destinado aos viajantes, e as enfermarias para os doentes eram geralmente divididas em tres naves, ficando a nave central devolúta e as lateraes para as camas. Havia tambem hospicios com claustros, pouco mais ou menos como os dos conventos, emquanto ás disposições geraes.

Casas particulares

As casas particulares do seculo XII apresentavam, na frente principal, empenas, isto é, para o lado da rua mostravam a forma do telhado com duas aguas; as vergas das janellas eram geralmente de volta perfeita nas casas construidas de cantaria, e quadradas nas casas construidas de madeira, que eram mais usadas.

Figura 152: Plano do celleiro de Perrières
Figura 153: Perfil longitudinal do celleiro de Perrières

Architectura militar[editar]

As cidades que tinham sido antigamente fortificadas haviam conservado, pela maior parte, as muralhas e torres do recinto; porém a creação do novo systema da defensa feudal, deu origem a se construirem em muito maior numero os novos castellos, que fizeram mudar o aspecto guerreiro dos paizes desde o fim do seculo X até o XI.

Figura 154: Casa do seculo XII, em Chartres

No seculo XI os castellos compunham-se de duas partes: d'um pateo inferior e d'um segundo recinto, dentro do qual havia a torre ou o torreão, como fôra edificado o castello de Leiria.

A extensão do pateo inferior, ou primeiro recinto, ficava proporcionado á importancia da praça fortificada.

Muitos castellos do seculo XI não tinham senão trincheiras, defendidas por estacadas e fosso mais ou menos profundo.

N'uma das extremidades do pateo, ás vezes até o centro, faziam uma construcção muito elevada e circular, ora artificial, ora aproveitando a altura natural, e sobre a qual estava firmado o torreão.

Figura 155

A gravura fará comprehender melhor a disposiçao d'um d'estes castellos, em mouchão, com estacaria. A torre quadrada, ou torreão firmava-se n'um mouchão B: o fosso c c formava um circulo na base da eminencia e a separava do pateo C, ao centro do qual estava collocada. N'este pateo encontravam-se as construcções E E, que serviam de deposito de guerra, e cavallariças, ou habitações para o pessoal ao serviço do nobre proprietario do castello. As estacarias enterradas e muito unidas F F, formavam um cerrado solido defendido pelo fosso exterior G. Pode comparar-se este torreão, e na eminencia que lhe servia de base, á imitação mais ou menos alterada do pretorio dos romanos.

Os castellos, cuja construcção interior era de pedra, offerecem mais interesse que os antecedentes, quando conservam ainda alguns lanços de muralha no meio dos recintos. Os torreões de cantaria tinham quasi todos typos uniformes. O mais commum apresentava torre quadrada separada das outras edificações da praça, na qual ninguem entraria senão pela porta alta da muralha, correspondendo ao nivel do primeiro andar, e para esse fim era mister servir-se da ponte-levadiça, ou escada movel.

Figura 156: Plano do castello de Grimbosq

Algumas vezes o torreão ligava-se ás fortificações que cercavam o recinto fazendo de certo modo corpo com elle: então servia de torre de observação, e era mais alta que as outras construcções; não ficava por isso sem communicação, como podiamos demonstrar na construcção dos torreões de Leiria, Beja e Thomar.

Todavia, no seculo XII, pelas modificações que se operaram tanto na architectura militar, como na religiosa, adoptaram para o torreão a fórma cylindrica ou polygonal, de preferencia á fórma quadrada; d'esta maneira é o torreão de Gisors. Em Portugal não existe nenhum com esta configuração.

Figura 157: Torreões do seculo XII: Beaugency

Esta parte antiga do castello de Gisors, ainda ao presente muito bem conservada, avulta no cimo de uma eminencia artificial, a sua muralha com contrafortes cinge a plata-forma disposta n'essa elevação. Ha uma torre polygonal mui alta que está em contacto com a muralha do recinto, fazendo frente para a parte da entrada do pequeno pateo, que talvez podesse ficar rodeado de aposentos, e no qual se notam ainda as ruinas de uma capella.

Figura 158: Torreões do seculo XII: Muralha e torreão de Gisors, vistos de dois lados
Figura 159: Torreões do seculo XII: Torreão de Houdan

O torreão de Houdan apresenta quatro torres cylindricas ligadas ao corpo principal.

Figura 160: Plano do torreão d'Étampes

O torreão d'Étampes mostra-nos um typo quadrilobular na maxima perfeição, isto é, quatro lobulos eguaes com divisões symetricas.

Estas diversas experiencias vieram a dar afinal na construcção da torre cylindrica que no fim dos seculos XII e XIII preferiram nos paizes do norte. Continuando comtudo a servirem-se, nos do sul, da fórma quadrada durante o seculo XIII, e no seguinte, como foi construido o castello de Leiria em Portugal.

Figura 161: Ruinas do torreão cylindrico de Néaufle (França)

Damos em primeiro logar o desenho do torreão cylindrico do estylo roman, pertencente ao castello de Laval, porque conserva ainda o remate do parapeito de madeira, como era então uso, ficando saliente na muralha, o que dava logar á guarnição poder percorrel-a sem perigo, e lançar os projectis sobre os sitiadores pelos intervallos do vigamento. Mui raramente poderá encontrar-se hoje uma torre d'este feitio, e talvez seja o unico exemplo que exista de época tão remota.

Figura 162: Torreão de Laval, rematado por uma cupula do madeira fazendo saliencia sobre a torre
(As duas janellas são de construcção do seculo XVI)

Notas[editar]

  1. Como havia na Sé de Lisboa, e na igreja de S. Christovam de Coimbra. [N. A.]
  2. Veja-se a nossa obra, escripta em francez no anno 1868, com o titulo—Mémoire d'Archéologie sur la véritable signification des signes qu'on voit gravés sur les anciens monuments du Portugal, in-4.º e avec 344 fac-similes. [N. A.]
  3. Mais proprio seria representar o vitello. [N. A.]
  4. Veja-se a nossa obra já citada na nota da pag. 126 e 127 [Nota 36]. [N. A.; a nota 36 é a penúltima nota anterior à esta]
  5. Nota-se um dos mais singulares exemplos que se possa imaginar, em um capitel das columnas que sustentam a abobada da sala antiga dos cavalleiros de Luiz XI, na antiga prisão da Conciergerie em Paris; é composto de duas figuras, uma de Heloiza e outra do Abeillard, o qual lhe mostra a mutilação que se lhe praticára!! [N. A.]
  6. Descripção das imagens e paineis antigos. [N. A.]
  7. O mais antigo exemplo em Portugal d'este uso apparece na igreja do famoso mosteiro de Alcobaça; todo o pavimento da igreja era formado de tijolos quadrados de pequenissima dimensão, e só vidrados na face superior, de côr esverdeada; estão presentemente soterrados a 0m,30 por baixo das lageas que cobrem o piso das naves. [N. A.]
  8. Os mais notaveis que possue Portugal são os sarcophagos d'El-Rei D. Affonso Henriques, e D. Sancho I, em Santa Cruz de Coimbra; o d'El-Rei D. Pedro e de D. Ignez de Castro, em Alcobaça; o do Marquez de Vianna em S. Francisco, em Santarem; o d'El-Rei D. Fernando I, no Museu do Carmo. [N. A.]
  9. Como está representado no sarcophago d'El-Rei D. João I, e de sua mulher D. Filippa, no jazigo do convento da Batalha. [N. A.]
  10. Encontra-se no livro da Chronica do Mosteiro a explicação d'esta singularidade, declarando-se ahi que os frades a tinham mandado pôr com o intuito de passarem por cima da figura representada de um abbade, visto que elle fôra em demasia severo para com elles! É textual esta referencia. [N. A.]
  11. Pudemos descobrir ter pertencido ao tumulo de um neto d'El-Rei de França, que fôra casado com uma filha d'El-Rei D. Diniz. [N. A.]
  12. Além de suas grandes dimensões e apropriada disposição, tinha a vantagem de atravessal-a um rio, o que facilitava conservar sempre o peixe vivo dentro da cosinha. [N. A.]