Nunca cuidei do burel

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1Nunca cuidei do burel,
nem menos do seu cordão,
que fosse tão cascarrão,
tão duro, nem tão cruel:
mas vós como sois novel,
e ignorais o bom, e o mau,
e o que tirastes do escote
foi ver, que era o seu picote
tão duro como um bom pau
  
2Vós fostes bem esfregada
do burel esfregador,
mas depois o pão do amor
vos deixou mais bem pisada:
no bananal enramada
vos atastes ao cordão,
que vos fez a esfregação;
depois quem vos vigiou,
nas costas vos assentou
as costuras cum bordão.
  
3Fingistes-vos mui doente,
e atastes no pé um trapo,
sendo a doença o marzapo
do Franciscano insolente:
enganastes toda a gente
fingidamente traidora,
mas eu soube na mesma hora,
que nos tínheis enganado,
e por haver-vos deitado,
fingis deitar-vos agora.
  
4Eu sinto em todo o rigor
os vossos sucessos maus,
pois levastes com dois paus
um do Frade, outro do amor:
qual destes paus foi pior
vós nos haveis de dizer,
que eu não deixo de saber,
que sendo negras, ou brancas
é sempre um só pau de trancas
pouco para uma mulher.
  
5Não vades ao bananal,
que e cousa escorregadia,
e eis de levar cada dia
lá no có, cá no costal:
sed libera nos a mal
dizei no vosso rosário,
e se o Frade é frandulário,
vá folgar a seu convento,
que vós no vosso aposento
tendes certo o centenário.
  
6Muito mal considerastes,
no que o sucesso parou,
que o Frade vos não pagou,
e vós em casa o pagastes:
tal miserere levastes,
que vos digo na verdade,
fora melhor dá-lo ao Frade
porque é maior indecência
dá-lo a vossa negligência,
que à sua Paternidade.