O Apóstolo entre as gentes

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Apóstolo entre as gentes
por Junqueira Freire
Poema publicado em Inspirações do Claustro.

— Foste ao principio
Sacerdote e profeta:
Eram nos céus teus cantos uma prece,
Na terra um vaticínio.
Gonçalves Dias


I

 
 
Como o brado do anátema gravado
Sobre a fronte do réprobo, — nas terras
Pejado de baldões, envilecido
Pelos filhos dos homens, que o repelem,
Que não concebem a grandeza dalma,
Que não escutam o pulsar dos peitos,
Que não atingem ao sublime e ao Santo,
— O ministro de Deus, — entregue ao mundo,
A senda do viver percorre breve,
Como o rocio, que no albor do dia
Salpica as flores, e ao calor se estanca.
E dorme o eterno sono em campa escura,
Plácido, — como o espírito do justo:
E ainda no olvido dessa mesma campa

Penetra o riso mofador dos homens,
E o molejo do cálido filósofo,
Presumido de si, — como a ignorância,
Que lhe preside aos erros e aos sofismas.
— Nem se queixa: — que é findo o seu martírio,
Única herança, que ao nascer lhe coube!
 
 

II


 
O varão do Senhor, — Moisés, o justo,
Pulsou primeiro os nervos do saltério.
E o estro virgem ressumbrou-lhe aos lábios,
Como a torrente, — impetuoso e santo.
Subiu aos céus, nas azas dos arcanjos,
Um hino a Deus, que lhe acendera a mente.
E o tipo então de sua onipotência
Ao ser finito transmitiu-se.— O povo
Ouviu na terra a incógnita linguagem,
— A linguagem do Eterno. Ouviu-a extático
O mundo inteiro, no estupor do espanto,
Como a explosão vulcânica primeira.
Estreme que era o fogo do profeta,
E a voz e os olhos e o acento e o cenho!
Justiça do Senhor! — Após os tergos
Sepultado o cavalo e o cavaleiro
Nas águas do mar-rubro: — e dante os olhos
Esses vergéis da intacta Palestina,

Prometendo delicias suavíssimas,
Como os olhos da noiva espreguiçados
Nas expansivas, rutilas pupilas
Do paraninfo, que lhe assiste às bodas
Ao mando do Senhor, e à noite e ao toro
Lhe profetiza trêfegos amores.
Esses sublimes alcantis e cerros,
Donde desciam por quebradas trêmulas,
Lambendo os troncos de copudos cedros,
Beijando as hástias de mimosas flores,
Entre os convulsos sílices de gemas,
De mel e leite os trépidos arroios.
 
Oh Palestina, oh virgem dos mistérios!
Quem assentado em teus alpestres píncaros,
Sentindo o vendaval soprar-lhe a grenha,
E o cedro secular rompendo as nuvens,
Como um gigante, — e ao sopé dos montes
O rio a murmurar, como a donzela
Junto do amante a desfazer-se em queixas,
E ao longe a voz dos vagalhões bramindo
Horrenda mais que a confusão do inferno,
— Quem poderá deixar de ser poeta
Ao menos uma vez, — oh pátria de anjos,
Oh Palestina, oh virgem dos mistérios!
 
 
{{c|

III}}

 
Ali foi educado, entre as palmeiras
E o cedro e o murmurar do regato e as penhas
E o rugido dos mares e as procelas,
— O gênio entusiástico do apostolo.
Ele entre as tribos assomou severo
Ás portas de Sion, co'a voz constante,
Como o rugido do leão das selvas.
Vinha vestido de sinistro saco,
E predizia a vinda do Homem-santo,
Do máximo dos vates: — mas as tribos,
As ímpias tribos, e os rabis fanáticos
Escarneceram do pregão do apostolo,
Escarneceram do poder do Eterno.
 
 

IV


 
Ele descreu dos homens e da terra,
E para alçar mais livre aos céus os olhos,
Subiu também aos coruchéus altivos
Das colunas do Egito, que campeiam
Aqui, ali, a recontar às eras
Em seus gastos lavores hieroglíficos
A vaidade dos reis e a falsa crença.

Em derredor o viajor parava,
Fixava nele os curiosos olhos,
E tremia de ouvir-lhe a voz profética.
E em torno à fronte lhe brilhava um disco
De fogo mais que santo, — como alquando
Moisés descendo do Sinai co'as taboas.
Mas os homens alfim o escarneceram,
Escarneceram do pregão do apostolo,
Escarneceram do poder do Eterno.
 
 

V


 
Ele escondeu-se na soidão das lapas,
Nas desertas montanhas de Cassino,
Fugindo Roma, — a dona dos triunfos,
Roma, — a senhora das nações da terra,
E os bailes dela e as cívicas delicias
E os áulicos salões, onde reinavam
A mentira, a traição, o vicio, e o crime,
Disfarçados nos risos dos hipócritas,
Nos ademães dos cortesãos imundos.
Ele escondeu-se.— E os homens o seguiram,
E o viram co'a cabeça reclinada
Em pedra rígida, — e deitado em tálamo
De urtigas.— Mas alfim o escarneceram,
Escarneceram do pregão do apostolo,
Escarneceram do poder do Eterno.
 
 

VI


Hoje, porém, ele não mais assoma
Severo e forte às portas da cidade,
Como o bramido do leão das selvas.
Não mais remonta aos coruchéus altivos
Das colunas do Egito hieroglífico,
Co'o disco em torno do semblante aceso.
Não mais asila-se ao deserto e às lapas,
Não foge Roma, — a dona dos triunfos,
Roma, — a senhora das nações da terra.
Mas os filhos dos homens o escarnecem,
Inda escarnecem do pregão do apostolo,
Inda escarnecem do poder do Eterno.
 
 

VII

 
Oh destinos do céu! — porque não somos
Ainda agora os índios das florestas?
Porque degenerado em nossas veias
Gira tão raro o sangue do tamoio?
Porque esse fogo irrequieto e vivido,
Como o corisco a recortar o éter,
— Porque esse fogo, que acendia os olhos,

E o peito imenso do tupi guerreiro,
Nos olhos e no peito de seus filhos
Estanque e frio e gélido volveu-se?
Bárbaros eram.— Mas em ranchos longos,
Nos tejupás pendido das imbiras
Desamparando o vibrador tacape,
E meneando os colos enlaçados
Das correntes das perolas do rio,
E assoberbando as pequeninas testas
Co'o variegado canitar nutante,
E cingindo ao redor do esbelto corpo
As multicores lindas arasoias,
Das araras à púrpura roubadas,
— Demandavam as ocas tenebrosas
Dos severos e ascéticos piagas.
E os consultavam nas empresas árduas,
E decoravam seus oráculos santos,
E decantavam seus poemas místicos,
Como o primeiro beijo da donzela
Dado furtivo entre o amor e o pejo
Nos lábios caldos do donzel, que a vida
Expandir-se-lhe sente em moles pulsos.
— Oh! que não somos os briosos tapes,
Filhos da virgem da guerreira América!
 
Era o supremo Deus onipotente
Tupá — o sábio autor da linda lua,
Do sol vermelho e das montanhas de ouro
E dos búzios marinhos, e dos cardos

Que o viajor nos areais saciam,
E do azulado beija-flor das veigas
Que trebelha brincão entre os arbustos,
Como os desejos sôfregos do amante.
 
Que tinha? — Deus é Deus! — vozes não mudam
O ser do Eterno — idêntico, — imutável,
Nos planetas do céu — se mundos forem —
Ou só na terra, se ela é só no imenso.
Jeová, que expedia o arcanjo etéreo
Em vante dos exércitos hebraicos
Co'o facho aceso em fogo inextinguível:
Brahma, que transmitiu a luz celeste,
E o puro espírito e a energia e a forma,
De que é principio, — aos fabulosos índios:
Teos, que deu aos gregos mitológicos
Um vasto olimpo arcado de miríadas
De lindos deuses, — símbolos dos gostos:
Tupá, que engendra no infinito espaço
O trovão co'os bulcões vertiginosos
E os chuveiros de pedra e o raio e a morte:
— Tudo é Deus, tudo é Deus! — o mais sem nomes.
 
 

VIII


 
Nos áditos do místico pagode
O ministro de Brahma aspira incensos.
O áugure de Teos,

assentado
Na trípode tremente, auspícios canta.
O piaga de Tupá, severo e casto,
Nas ocas tece os versos dos oráculos.
E o sacerdote do Senhor, — sozinho, —
Coberto de baldões a par do réprobo,
Ante o mundo ao martírio o colo curva,
E aos céus cantando um hino sacrossanto,
Como as notas finais do órgão do templo,
Confessa a Deus; e — confessando — morre.