O Cancioneiro portuguez da Vaticana/Introdução

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O Cancioneiro portuguez da Vaticana por Teófilo Braga
Introdução

O Cancioneiro portuguez da Vaticana

e suas relações com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV.


O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa individual sobre a estabilidade inerte das instituições collectivas que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no pó do archivo de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios os esforços para obter uma copia d’elle, que de ha muito devera ter sido reproduzida no corpo dos Scriptores, que forma uma das partes dos Portugaliae Monumenta historica. No emtanto, no estrangeiro o interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci: "voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto oggetto di studj novelli. È solo nella fonte delle tradizioni patrie che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p. XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se não comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer traducções de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nação, cabia primeiro do que a todos á Academia real das Sciencias de Lisboa responder pela seguinte forma:

1°. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lição diplomatica em grande parte illegivel fóra de Portugal.

2°. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se possa alcançar noticia, para sobre elles basear a historia externa da formação do Cancioneiro.

3°. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dicção provençalesca da poesia palaciana.

4°. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana.

É para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os governos as subsidiam, e que os seus membros têm o fôro de sabios. Em quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa não cumpre este seu dever, cumpre-nos dar uma noticia d’este Cancioneiro, longos seculos perdido pelas bibliothecas estrangeiras.

N’este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as relações intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham representadas as duas correntes da inspiração popular e palaciana ou erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos é desconhecida, mas d’onde proviemos; os successos historicos aí têm a sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e nos feitos de armas no periodo da constituição da nossa nacionalidade aí se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados ás damas da côrte, que serviam. Finalmente, ali está o documento mais vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforço para de inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, é a joia de uma bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido da nossa tradição nacional? Estudando-o.

A primeira questão que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere é determinar as suas relações com os antigos cancioneiros provençaes portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o numero d’essos cancioneiros para se fazer o processo de filiação. Tal é o intuito d’este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes litterarias n’elle representadas, pela allusão aos grandes successos, pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes trovadores e pelo estado da lingua portugueza, é uma exploração de tal forma vasta, que qualquer d’estas questões excede as proporções de uma noticia. Começamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que contribuiram para a sua formação, procurando ao mesmo tempo o nexo que existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as collecções que se perderam sem chegarem a ser conhecidas.