O Coruja/II/II

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O Coruja por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo II


Levavam os dois amigos uma existência bem curiosa na sua casinha de Mata-cavalos.

Completavam-se perfeitamente. Teobaldo era quem determinava tudo aquilo que dependesse do gosto, era sempre quem escolhia, o outro limitava-se a conservar e desenvolver.

Ao André faltava a fantasia, a originalidade; não tinha inspirações, nem sabia comunicar às pessoas e às coisas que o cercavam o mais ligeiro reflexo individual; mas o que lhe faltava por esse lado sobrava-lhe em método, em paciência e bom senso. Era ali o espírito da ordem, o pacífico regulador do asseio e da decência; queria as coisas no seu lugar, não podia compreender o que lia ou escrevia, sem ver em torno de si a mais harmoniosa disposição nos móveis, nos livros e em todos os objetos de que se compunha a casa.

Teobaldo entrava e saía de casa, sem horas certas, mudava de roupa, atirando a camisa enxovalhada para cima do primeiro traste que encontrava, e daí a pouco perdendo a cabeça à procura do chapéu, ou da bengala, que ele próprio arrojara a um canto do quarto, por detrás de algum móvel. O Coruja, ao contrário, não punha os pés fora de casa, sem passar uma vista dolhos por tudo, sem arrumar aquilo que estivesse desarrumado; e, às vezes, depois de estar na rua, ainda voltava para certificar-se de que havia fechado a janela da sua alcova ou a gaveta da sua secretária.

Por este modo vivia a casa sempre no mesmo pé de limpeza e ordem.

Um dia Teobaldo, entrando da rua, exclamou para o companheiro, que estudava à secretária, como era do seu costume:

— Sabes, Coruja? Decidi-me pela medicina!

— Mas tu ainda ontem disseste que ias entrar para a Escola Central!

— Mudei de intenção. A vida militar é incompatível comigo! Uma vida sem futuro e sem liberdade! Não quero!

E, gritando pelo Sabino, estendeu as pernas, para que o moleque lhe sacasse as botas.

— É verdade! acrescentou; convidei hoje para jantar um rapaz que me foi apresentado ontem no teatro, o Aguiar, belo moço, que chegou há dias de Londres.

— Ah!

— E os teus negócios, caminham?

— Qual! Não obtive a cadeira que desejava no colégio do tal Madeiros, mas em compensação um amigo do Sampaio arranjou-me um lugar de conferente no Jornal.

— Quanto vais ganhar?

— Trinta mil réis por mês.

— Oh!

— Antes isso do que nada...

— Quantas horas de serviço?

— Das sete às onze da noite.

— É horrível.

— Prometeram-me arranjar também alguns explicandos de latim, francês e português.

Teobaldo já não o ouvia, porque estava entretido a falar com a dona da casa, que ele acabava de descobrir no andar de baixo.

— Temos então hoje um convidado? perguntou ela, depois do que lhe disse o rapaz.

— É exato, um amigo. Pode acrescentar um talher à mesa; dos vinhos encarrego-me eu.

D. Ernestina, assim se chamava a senhoria, era uma rapariga de vinte e poucos anos, cheia de corpo, muito bem disposta, mas um tanto misteriosa na sua vida íntima. Pelo jeito possuía alguma coisinha de seu e era mulher honesta.

Viúva, casada ou solteira?

Viúva, podia ser; casada é que não, porque em tal caso não seria ela a senhora da casa e sim do marido. Solteira... mas há tantos gêneros de mulher solteira...

Contudo ninguém podia dizer mal de sua conduta. Passava todo o santo dia ocupada com os arranjos da casa e só se mostrava à janela ou saía a passear no jardim nas tardes de muito calor, quando o corpo reclama ar livre.

Teobaldo notara que, todas as noites, entre as sete e as dez, aparecia na sala de jantar de D. Ernestina um sujeito de meia idade, gordo, semicalvo, discretamente risonho e pelo jeito homem de negócios.

A persistência deste tipo ao lado da rapariga e as maneiras carinhosas com que ele a tratava levaram o estudante a decidir para si que o homem, "Seu Almeida", como lhe chamava ela, era sem dúvida o verdadeiro dono da casa; mas nem de leve se preocupou com isso.

Às vezes D. Ernestina reunia em torno de si duas ou três senhoras de amizade e palestravam antes do chá.

Nessas ocasiões, Teobaldo descia quase sempre ao andar debaixo e, com a sua presença, animava a sala, cantando, tocando piano, fazendo prestidigitações e recitando poesias.

Uma vez, em que ele deixou-se ficar à mesa depois do almoço, Ernestina guardou também a cadeira e os dois principiaram a conversar:

— Ainda não tinha vindo à corte? perguntou ela.

— Vim, mas de passagem, quando saí de Minas para à Europa.

— Ah! viajou pela Europa?

— Estive em um colégio de Londres.

— E depois voltou para junto de sua família?...

— Até o dia em que vim para aqui.

— Seu pai é fazendeiro?

— Sim, senhora.

— E pelos modos, rico...

— Remediado.

— Como se chama?

— Barão do Palmar.

— Ah!

— Ou então Emílio Henrique de Albuquerque.

— Ainda vive a senhora sua mãe?

— Ainda. Quer ver o retrato dela? Trago-o nesta medalha.

D. Ernestina levantou-se e ficou por alguns segundos debruçada sobre Teobaldo a ver a delicada miniatura em marfim que ele trazia na corrente do relógio.

— Ainda está moça... muito bem conservada....

— Hoje tem os cabelos quase todos brancos. Meu pai, que é muito mais velho, não está tão acabado.

— Que perfume é esse que o senhor usa?

— É dos que ainda trouxe de casa. O velho recebe-os diretamente da Inglaterra.

— É muito agradável.

— Pois, se quiser, posso ceder-lhe um frasquinho; tenho ainda muitos lá em cima.

D. Ernestina aceitou; ele correu a buscar a perfumaria e, depois de conversarem a respeito do Coruja, que fora trazido à baila e o qual declarou ela com franqueza que achava detestável, Teobaldo entendeu chegada a sua vez de interrogar, e perguntou-lhe sem mais preâmbulos:

— A senhora é casada?

Ela respondeu que "sim", mas vacilando.

— Com o Almeida...

Outro sim dúbio.

— Há muito tempo?

— Há algum já...

— Era viúva antes disso?

— Sim, senhor.

— E não tem filhos?

— Não, felizmente.

— Felizmente, por que?

— Ora! os filhos fazem a gente velha...

E assim palavrearam durante uma boa hora, sem que o rapaz conseguisse precisar o seu juízo sobre aquela mulher, da qual nem mesmo a idade podia determinar.

Um homem mais velho que Teobaldo notaria entretanto que Ernestina era bem servida de formas, que tinha bons dentes, cabelos magníficos e um par de olhos bem guarnecidos e banhados de uma certa umidade voluptuosa.

Mas o filho do barão estava na idade em que os homens ainda não sabem apreciar as mulheres e aceitam-nas indeterminadamente, como simples recreio dos seus sentidos. Orçava ele então pelos dezoito anos e, mais formoso do que nunca, desenvolviam-se-lhe as feições, sem detrimento da primitiva frescura. Tinha ainda alguma coisa da graciosa candura da criança e já, nos traços enérgicos de sua fisionomia e nos movimentos donairosos de seu corpo, pressentiam-se as manifestações de uma forte e precoce virilidade. Tez aveludada e pura, sorriso crespo e frio, olhar indiferente e terno a um tempo, dir-se-ia que ele, naquele todo de jovem príncipe aborrecido, realizava com a sua graciosa e pálida figura o tipo ideal do romantismo da época.

Entrando em casa uma ocasião às duas horas da tarde, disse-lhe o Coruja que D. Ernestina o mandara procurar havia pouco e que lhe pedia o obséquio de ir ter com ela, logo que chegasse.

— Para que, sabes? perguntou.

— Creio, respondeu André, que ela recebeu hoje a notícia da morte de algum parente... Uma tia, se me não engano.

— Sim? E que diabo tenho eu com isso?

Mas, por curiosidade, Teobaldo sempre desceu ao primeiro andar. E, ao barulho de seus passos, ouviu gritar logo de um quarto.

— É o senhor, Sr. Teobaldo?

— Sou eu, sim, minha senhora.

— Venha até cá; entre. Tenha paciência!

Ele, que não conhecia ainda os quartos do primeiro andar, seguiu a direção da voz e achou-se pouco depois em uma alcova, meio atravancada de trastes, onde teve de andar às apalpadelas, tão completa lhe parecia a princípio a escuridão.

Entrou a tropeçar nos móveis e, de braços estendidos, tateou casualmente alguma coisa que pela macieza, seriam talvez as faces de D. Ernestina.

— Fique! pode ficar! disse ela a um movimento de retração que fez o estudante; o senhor não é de cerimônia, fique!

Teobaldo, que acabava de esbarrar com as pernas em uma cadeira, assentou-se e, habituando-se pouco a pouco à escuridão, foi gradualmente distinguindo o que o cercava. Só então reparou que D. Ernestina conservava uma das mãos dele entre as suas, e que ela estava estendida em uma cama larga, de casados, onde apenas a cabeça e os braços se lhe viam por entre coberta e lençóis.

— Está doente? perguntou ele.

— Muito, Sr. Teobaldo, muito!

— Que foi isso?

— Ora! Imagine que recebi hoje pela manhã a notícia da morte da única parenta que me restava no mundo.

— Sua tia, disse-me o Coruja.

— Minha tia, não; não era só minha tia, era o meu tudo!

E a um rebote de soluços:

— Oh como aquela nunca mais encontrarei outra! Nunca encontrarei!

Dizendo isto, D. Ernestina ergueu os braços para o teto e, deixando-os cair em volta do pescoço do rapaz, encostou a cabeça no peito deste e assim ficou a chorar por longo tempo.

— Bem... resmungou ele um tanto constrangido. Mas a senhora não lucra nada em se afligir desse modo! Faça por conformar-se com o que sucedeu... Não há de ser à força de lágrimas que sua tia voltará à vida! Console-se!

— Oh! mas é que eu não posso! mas é que eu não posso!

E, a cada exclamação, mais se estreitava contra o moço, a ponto de lhe fazer sentir nas faces, nas orelhas e afinal nos lábios o resfolegar ardente dos seus soluços.

— Não posso! não posso conformar-me com semelhante desgraça!

— Mas faça por isso... retrucou ele, quase que a soprar-lhe as palavras pela boca. Faça por ter um pouco de resignação ...

— Obrigada, muito obrigada!... suspirou a chorosa procurando conter o pranto.

E, como em agradecimento àquelas boas palavras de condolência, levou aos lábios as duas mãos do rapaz e cobriu-as de beijos que a outro qualquer surpreenderiam, não a ele, desde o berço amimado a cada instante.

Em Teobaldo era já um hábito muito antigo receber carinhos daquela espécie. Quase nunca os retribuía; aceitava-os friamente, sem comoção, como um proveito e glorioso artista recebe os elogios de um homem que lhe fala pela primeira vez.