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O Federalista (Tomo I)/Capítulo 4

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CAPITULO IV.

Continuação do mesmo assumpto.
(por mr. jay.)

Tratei de mostrar no ultimo capitulo que a união daria lugar a menor numero de causas justas de guerra, e facilitaria infinitamente mais a composição das differenças com as nações estrangeiras do que o governo particular dos estados, ou das ligas de estados que se propoem: porém não basta para a segurança da America prevenir as causas justas de guerra; he preciso ainda que se colloque e mantenha em posição que não anime as hostilidades ou os insultos. Com effeito, ha tantas guerras fundadas sobre pretextos como sobre causas reaes. Por vergonha da natureza humana, he mais que verdade que as nações estão sempre dispostas a fazer-se mutuamente a guerra quando ella lhes póde ser vantajosa; e os monarchas absolutos a fazem ainda mais facilmente sem proveito para os seus povos, e por motivos puramente pessoaes. A sêde de gloria militar — o desejo de vingar affrontas individuaes — planos de ambição, ou de engrandecimento da propria familia, ou dos seus partidistas — todos estes motivos, que não podem obrar senão sobre principes, os empenhão muitas vezes em guerras que não são legitimadas pela justiça, e menos ainda pelo voto ou pelo interesse dos povos [1].

Porém, independentemente destas considerações que decidem tantas vezes da sorte dos imperios nas monarchias absolutas, e que merecem nossa attenção, ha muitas outras que interessão tanto os povos como os reis, e que nos dizem particularmente respeito. Examinando-as, acharemos que todas dependem da nossa situação relativa.

França e Inglaterra são nossas rivaes em consequencia da pesca: todos os seus esforços para empecer-nos — todos os premios estabelecidos para animar a extracção do seu peixe — todos os direitos que fazem pesar sobre o sobre o peixe estrangeiro, ainda não poderão fazer que os seus negociantes provejão os seus proprios mercados por menor preço que nós.

Quanto ao commercio de transporte, estamos em rivalidade, não sómente com França e Inglaterra, mas ainda com muitas outras nações da Europa; e seria loucura imaginar que ellas podessem ver com prazer a prosperidade do nosso. Como elle não póde augmentar-se senão á custa do seu, longe de favorecê-lo, o seu interesse he restringi-lo.

Relativamente ao commercio das Indias e da China, estamos ainda em concurrencia com mais de huma nação. Hoje temos parte nas vantagens que ellas se havião exclusivamente appropriado, e vamos buscar nós mesmos os generos que n՚outro tempo eramos obrigados a receber dellas.

A extensão do nosso commercio em vasos proprios não póde agradar ás nações que possuem estabelecimentos no continente da America ou nas suas immediações; porque o menor preço e a superioridade dos nossos generos, reunidos á circumstancia da visinhança — a coragem e habilidade dos nossos negociantes e marinheiros, nos dão sobre esses paizes vantagens que não podem achar-se em harmonia com os desejos e com a politica dos respectivos soberanos.

A Hespanha exclue-nos da navegação do Mississipi; a do rio de S. Lourenço foi-nos prohibida pela Inglaterra; e estas duas potencias oppoem-se a toda a navegação e commercio que podia haver entre nós e elles por meio dos rios que nos separão.

Segundo estas considerações, a que a prudencia não permitte dar maior desenvolvimento e extensão, facil he de ver que podem nascer no espirito das outras nações, e dos gabinetes que as governão, ciumes e descontentamentos; porque não he de esperar que ellas vejão a olhos tranquillos e indifferentes os progressos do nosso governo interior, a preponderancia da nossa influencia politica, e o augmento do nosso poder, tanto por terra como por mar.

Os habitantes da America bem vêm que estas circunstancias, e muitas outras, de que não fazemos agora menção, podem transformar-se em outros tantos motivos de guerra; que estas predisposições de hostilidade não esperão senão pelo momento de rebentar; e que de pretextos para dar-lhes côr de justiça, de certo não ha de nunca haver mingoa. Não he pois sem muito justificado motivo que elles procurão a união e o governo nacional, e que tratão de collocar-se por este meio em situação que, longe de attrahir-lhes a guerra, inspire consideração e respeito aos que podem fazer-lha: porém esta situação só póde nascer de hum systema de defensa perfeito, e não póde ter outra base que a capacidade do governo, a importancia das forças militares, e a grandeza dos recursos do paiz.

A segurança da sociedade interessa todos os membros; e não he possivel obtê-la sem hum governo, ou unico ou dividido. Vejamos por qual das duas maneiras póde o problema ser resolvido mais cabalmente.

Hum governo geral póde chamar em seu auxilio os talentos e a experiencia de todos os homens de capacidade, escolhidos em todas as partes da confederação; póde estabelecer principios uniformes de politica — unir, assimilar, proteger todos os membros do corpo social, e estender sobre elles os felizes effeitos da sua previdencia. Na conclusão dos tratados ha de cuidar ao mesmo tempo do interesse geral e dos individuaes, que não podem existir separados; ha de empregar a fortuna e a força publica na defensa de cada huma das partes confederadas com huma facilidade e promptidão impossivel aos governos dos estados ou das confederações parciaes, que, por isso mesmo que o são, não podem obrar de concerto e com unidade de systema. Só o governo geral póde dar ás guardas nacionaes hum plano uniforme de disciplina, e manter os officiaes que as commandarem na devida subordinação ás ordens do magistrado supremo; e por este meio tornará mais poderosa esta força do que se estivesse distribuida em quatro ou treze corpos distinctos e independentes.

Que força teria o exercito da Grã-Bretanha se as tropas inglezas obedecessem ao governo especial de Inglaterra, as Escossezas ao de Escossia, e as de Galles ao governo do principado do mesmo nome? Supponhamos huma invasão. Ainda no caso de os tres governos unirem as suas forças, obrarião elles contra o inimigo com a mesma força e energía que o governo unico da Grã-Bretanha ?

Muitas vezes temos ouvido fallar das frotas d՚Inglaterra; e se os Americanos souberem tirar partido das circumstancias, algum dia se fallará tambem das da America: mas se hum governo nacional, por meio de sabios regulamentos sobre a navegação, não tivesse feito d՚Inglaterra hum seminario de marinheiros — se hum governo nacional não tivesse feito nascer a industria e os materiaes necessarios para a construcção dos navios, por certo que nunca os seus combates navaes e a sua superioridade no mar terião feito os inglezes illustres. Tenhão a Inglaterra, a Irlanda, a Escossia e o principado de Galles cada hum sua esquadra independentemente; sejão estas quatro partes constitutivas da monarchia britannica dirigidas por quatro governos independentes, e no mesmo momento veremos anniquillar-se e cahir o seu poder actual.

Façamos agora applicação destes exemplos a nós. Supponhamos a America dividida em treze, ou, se se quer, em tres ou quatro governos distinctos: que exercitos poderá ella levantar e pagar? Que esquadra poderá construir e manter ?

Se hum destes Estados independentes fosse atacado, correrião os seus visinhos a defendê-lo ? sacrificarião para esse fim a sua fortuna e o seu sangue? Obrigados a conservar-se neutraes por especiosas promessas — seduzidos pelo amor demasiado da paz, não seria de temer que todos os outros Estados se recusassem a arriscar a sua tranquillidade presente em favor de visinhos, por quem sentissem talvez algum ciume secreto, e cuja influencia politica gostassem de ver abatida ? Se tal comportamento fosse imprudente, não seria por isso menos natural: a historia da Grecia o prova, e muitos outros paizes, offerecem disto exemplos.

He de suppor que as mesmas causas produzão sempre os mesmos effeitos. Supponhamos que o Estado ou Confederação atacada acha nos seus visinhos vontade de soccorrê-la: como em que espaço de tempo em que proporção poderão elles reunir soccorros de gente e de dinheiro? Que general commandará o exercito alliado, e de quem receberá elle as ordens? Quem estipulará os artigos da paz ? Se contestações se suscitão, que autoridade as decidirá e fará respeitar suas decisões? Vê-se que as difficuldades e os obstaculos se succedem sem fim em semelhante situação. Pelo contrario, hum só governo, que vigie sobre os interesses communs — que reuna em si os meios e os poderes de toda a Confederação, póde, livre de todos estes obstaculos, occupar-se com muito mais esperança de resultado, da segurança do povo.

Seja, porém, qual fôr a posição em que nos colloquemos, estreitamente unidos debaixo de hum governo nacional, ou divididos n՚hum certo numero de confederações, os estrangeiros saberão conhecer o nosso estado, e julgar delle com exacção; e o comportamento que tiverem para comnosco hade ser a consequencia deste juizo.

Se elles virem que o nosso governo nacional he poderoso e dirigido com intelligencia — que o nosso commercio he favorecido por sabios regulamentos — que o nosso exercito he bem organisado e bem disciplinado—que as nossas finanças são administradas com economia que o nosso credito está restabelecido — que o povo he livre, unido e feliz, por certo que terão mais vontade de procurar nossa alliança, que de provocar o nosso resentimento. Pelo contrario, se nos virem com hum governo sem força—cada Estado á discrição de chefes de hum momento—todo o paiz dividido em tres ou quatro republicas independentes e em discordia, huma disposta em favor da Inglaterra, outra da Hespanha, outra da França, e todas juntas joguete destas potencias, que não cessarão de animar as suas rivalidades reciprocas, que miseravel espectaculo lhes offerecerá a America? Objecto do seu desprezo, e mesmo dos seus ultrajes, huma triste experiencia nos fará ver que, quando hum povo ou huma familia se fraccionão, obrão directamente contra o interesse da sua felicidade.

  1. Esta doutrina he falsa, pelo menos em grande parte; como porém o autor se refuta a si mesmo no Cap. VI, deixar-lhe-hei o cuidado de destruir as suas proprias razões.

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