O Homem/XVII

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O Homem por Aluísio Azevedo
Capítulo XVII


Depois destes delírios, tão complexos, que em parte foram sofridos durante o sono e parte durante as letargias, agora mais repetidas e prolongadas, Magdá piorou consideravelmente. Ouviam-se-lhe já no meio da conversa palavras de um sentido estranho, que ninguém compreendia; por exemplo: querendo certa vez dar idéia de um grande estampido, disse: " Fez tamanho estrondo, que nem um rio quando se transforma em mar". Os que a escutavam olharam-se entre si disfarçadamente. Outra ocasião, falando de um susto que apanhara, usou desta frase: "Assustei-me ainda mais do que no dia em que o Fernando me foi visitar à ilha". E, como estas, fugiam-lhe muitas referências à sua vida fantástica; coisas que ela dizia com a maior naturalidade, enchendo não obstante de lágrimas os olhos do Conselheiro e provocando no Dr. Lobão um desesperançado sacudir d'ombros. Este último se mostrava mais que nunca empenhado no tratamento da enferma, a ponto de descuidar-se da própria casa de saúde — a menina dos seus olhos. "Porém não era, dizia ele, a filha do amigo o que tanto o prendia e interessava, mas simplesmente o caso patológico. Puro interesse de médico".

Justina admirava-se de ver a sua ama tão desvelada pela família do Luiz: não se passava um só dia sem que Magdá lhe fizesse várias perguntas a respeito dela, principalmente sobre a noiva do cavoqueiro, a rubicunda Rosinha. Quando a criada lhe deu parte de que o casamento estava definitivamente marcado para o seguinte mês, a senhora estremeceu e encarou-a por tal modo, que a rapariga julgou vê-la cair ali mesmo com um ataque de convulsões.

— E, então no mês que vem?... interrogou depois. do abalo.

— Se Deus quiser, minh'ama. E as roupas da cama estão quase prontas, que era só o que faltava. Ah! eu penso com o Luiz que a gente não deve casar sem ter arranjado umas tantas coisas, como não É muito feio casar-se uma pessoa sem enxoval, inda que seja um enxoval pobre, mas contanto que cheire a novo!

Daí em diante a filha do Conselheiro indagava quotidianamente da criada "se o casamento era sempre no mesmo dia", como se contasse com qualquer inesperado incidente que o transferisse ou desmanchasse de um momento para outro. Todavia, a sua existência quimérica dos sonhos prosseguia com a mesma regularidade: Uma vez casada com o belo e encantador príncipe, declarou ao pai que não se achava disposta a abandonar a ilha, e pediu-lhe que a fosse visitar de quando em quando, visto que ele agora tencionava ficar para sempre erradio sobre as águas do mar. O Conselheiro retirou-se triste com os seus companheiros de viagem, deixando aos desposados tudo o que de supérfluo havia a bordo e a Justina para os servir. A vida ideal dos dois amantes tornou-se então muito humana, muito deliciosa e fácil. Comiam em baixelas de prata e em porcelanas da Índia; bebiam em taças de cristal da Boêmia; vestiam-se confortavelmente de linho, veludo e seda; tinham leito macio e, à noite, fechados no doce aconchego do lar, Magdá cantava às vezes ao piano e de outras lia em voz alta, para entreter o marido, ou jogavam as cartas antes do chá. Luiz em breve já não era o mesmo selvagem, graças à mulher, que lhe dava lições de leitura, de escrita, de desenho e de música, o que ele aprendia tudo com um talento verdadeiramente sobrenatural.

E assim viveram felizes até ao dia em que a filha do Conselheiro percebeu que ia ser mãe. Preparou-se o ninho e ela deu à luz sem a menor dificuldade, nem o mais ligeiro vislumbre de dor: um parir silencioso e tranqüilo como o dos vegetais.

Era menino. Forte, moreno, de cabelos e olhos pretos; o mais extraordinário, porém, é que a criança não se parecia com o pai, nem com a mãe; parecia-se com o Fernando. Não o Fernando escaveirado e espetral que lhe apareceu na ilha, mas o dos bons tempos de Botafogo; aquele belo moço a quem ela tanto amara e tanto desejara possuir. O pequeno tinha a mesma doçura no olhar, o mesmo enternecimento no sorriso; eram as mesmas feições e a mesma palidez aveludada e fresca. Magdá amamentava-o pensando no irmão.

— Como havemos de chamá-lo? perguntou Luiz.

— Fernando! Está claro, respondeu ela.

E a partir daí, Magdá vivia nos seus sonhos exclusivamente para o filho. Era feliz, muito feliz com essa nova dedicação o que absorvia todas as outras; mas acordada, uma dolorosa tristeza pungia-lhe a alma à vista dos seus mesquinhos seios, fanados e emurchecidos antes de tempo, como fruta perdida que não chegou a sazonar. Vinham-lhe lágrimas aos olhos quando comparava o seu magro corpo da vida real com a opulenta carnação que na outra vida possuía; chorava contemplando a pobreza das suas espáduas de tísica, considerando os seus quadris sem curvas, a exiguidade dos seus braços, a miséria das suas pernas de esqueleto; chorava mirando no espelho o seu rosto de múmia, os seus lábios secos e estalados; chorava observando de perto as suas mãos transparentes e trêmulas.

E começou então a preferir o sonho à realidade; tomava-se de amares por ele à proporção que se aborrecia desta Aquela dura repugnância cheia de ódio, que sentia acordada contra o fiel companheiro dos seus delírios e contra si própria, não a experimentava absolutamente contra o filho; ao contrário: sempre que se lembrava deste entezinho fantástico, possuía-se de ternura, como se ele com efeito lhe houvera saído das entranhas. Agora até era a primeira a provocar o sono ou a letargia. Muitas vezes, de repente, tais saudades lhe acudiam do pequenino, que a infeliz chegava a tomar laudamo para dormir mais depressa e por mais tempo; e adormecia sorrindo de contentamento e pedindo a Deus que lhe fizesse os sonhos bem longos, intermináveis; e acordava amaldiçoando a vida real, contrariada e triste sem achar consolações para a ausência do seu filhinho amado.

E este amor de mãe foi crescendo tanto e enfolhando tão depressa, que o Luiz afinal se resguardava perfeitamente à sombra dele. Magdá, quando acordada, já não o maldizia; já não sentia aquela negra aversão, aquele nojo, que lhe inspirava dantes o moço da pedreira. Oh! dava-se agora justamente o oposto: quando, da janela do seu quarto, ela via o pobre diabo passar lá em baixo para o trabalho, ficava compungida e acompanhava-o com um enternecido olhar de bondade; tinha até desejos de o chamar e dizer-lhe: "Olha, Luiz, deixa aquele estúpido serviço da pedreira; sobre ser muito bruto, é muito ingrato! Ali um homem está sempre com a vida em perigo; a rocha é traidora! não confies na submissão com que ela consente que lhe retalhem todos os dias o ventre; lá uma bela vez, quando menos o esperares, zanga-se, e ai de ti, meu amigo, serás devorado! O cavoqueiro é como o domador de feras: acaba sempre nas garras da que ele explora... Olha, queres saber? vem cá para casa; o que ai não falta são cômodos desocupados, e sobra sempre à mesa bastante comida!" E, de bom grado, Magdá pediria ao Conselheiro para tomar ao seu serviço o pobre rapaz; não porque ela o quisesse perto de si — nada disso! — mas simplesmente para lhe fazer bem, para o tornar um pouco menos desgraçado. "E, como lhe querer mal?... como não o estimar, coitado, se ele no fim de contas era o cúmplice do seu crime e ao mesmo tempo o da sua felicidade? Se não fosse Luiz, ela não possuiria um filho, e o filho era para Magdá a melhor coisa do mundo!

Sim, no seu espírito alucinado já não protestavam conveniências sociais, nem tradições de costumes, nem hábitos de donzela; o seu pudor despira-se; agora só o que lhe dominava o espírito, o que lhe enchia o coração, era a idéia do filho; era a mística loucura desse amor visionário por aquela criança de olhos meigos, que estava sempre a chamá-la de longe, lá das misteriosas margens da ilha encantada dos seus sonhos; era a saudade dessa criaturinha ideal, que ela já no podia deixar de ver, não só todas as noites durante o sono, mas a todo o instante, na deliciosa insânia dos seus êxtases.

O filho era a sombra de Fernando; ela vivia para esta sombra.