O Matuto/XV

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Que razão teve Francisco para, apenas chegado da capital, ir em demanda do filho? Seria acaso para evitar que o rapaz se deixasse envolver em algum distúrbio como aconteceu? Seria para fazê-lo sair da desordem, segundo fez, no caso de já o achar colhido nas malhas dela?

A razão foi outra. Não temia Francisco os perigos do samba. Desde pequeno sentia paixão por este divertimento, de que fora ardente cultor na mocidade. Grande parte dos versos com que Lourenço deliciara os festeiros da casa de Victorino, ele os aprendera de Francisco, insigne cantador e repentista. A fama deste ultimo era tal que muitos dos matutos daquelas vizinhanças andavam espreitando a ocasião de ir Francisco ao Recife para fazerem com ele as suas viagens. É fácil a explicação deste procedimento.

Em sua companhia, as longas noites que tinham de curtir na travessa de muitas léguas de solidões quase inteiramente inabitadas, eram suavizados pelos formosos cantares do matuto. Que soberbos serões não tiveram eles, ao luar, as redes armadas debaixo das arvores, os cavalos pastando peiados em frente a pousada, a viola quebrando com seus sons deleitosos a mudez da noite, e Francisco enchendo o deserto com as inspirações de sua musa soberana e as harmonias de sua voz rica de ternura e de saudade!

Razão muito diferente teve o almocreve para procurar Lourenço.

As noticias da guerra, trazidas por ele da capital, eram de suma gravidade. Ele próprio tinha ouvido em Olinda contar-se muito caso triste. Aí soube o que projetavam os mascates e os nobres. Com seus próprios olhos testemunhou os aprestos para a guerra. Viu de perto a chama imensa que começara a incendiar a província. João da Cunha, lidas as cartas, fez-lhe varias indagações, e com ele os amigos presentes, sobre o quetinha visto e sabia. Combinadas as informações pessoais do morador com as noticias enviadas por Amador da Cunha, por André, e por outros, forçado lhe foi reconhecer que, atirado o facho da revolução aos quatro ventos, dentro em pouco prenderia fogo a vila de Goiana, para onde emissários particulares dos portugueses tinham sido adrede mandados, e na qual contavam eles parciais poderosos de meios e valorosos de animo.

Entre estes apontavam-se Antonio Coelho, sujeito de grandes espíritos; Jeronimo Paes dinheiroso marchante, não menos ardente do que o primeiro; Belchior Ferreira, rábula que, posto fosse filho da terra, bem como o meirinho Romão da Silva que dele recebia diariamente lições incendiarias, destinadas a decidir a gentalha do lugar a tomar o partido dos mercadores, fazia grandes entradas nos espíritos por falar em nome da liberdade do povo; Manoel Gaudencio, alfaiate pernóstico, patranheiro e ambicioso, que aspirava a melhorar de oficio com a descida dos nobres e a subida dos negociantes.

O principio, ou antes os interesses contrários aos que estes sujeitos, e outros de idênticos sentimentos e intuitos, sustentavam eram representados pelos cavalheiros que já apontamos, isto é, pelos senhores-de-engenho e pelas primeiras autoridades, assim civis, como militares da localidade.

Só uma vista curta não verá na guerra dos mascates, antes uma luta travada por dois grandes princípios, do que uma revolta filha de preconceitos ridículos e costumes atrasados. Certo concorreram não pouco para essa luta o costume e o capricho antigo, inflexíveis ambos; mas o seu papel nessa grande representação foi mais secundário do que principal. A parte essencial e verdadeiramente dramática da ação, essa pertencia a dois grandes interesses, assim das sociedades modernas, como das antigas — ao comercio e a agricultura, princípios que, quando acordes em seu desenvolvimento, trazem a properidade e riqueza dos povos, e, quando divergentes, o seu atraso senão o seu aniquilamento.

As cartas de que Francisco foi portador, em substancia rezavam:

Que a guerra, declarada pelos forasteiros contra os pernambucanos e o governo legal, e já em principio de execução, prometia ser de vida e morte, atentos os meios de que dispunham aqueles, e o empenho em que se mostravam de aniquilar estes;

Que esses meios, eram imensos e consistiam não só em viveres acumulados durante os seis meses últimos nos armazéns do Recife, mas também em grossas quantias com que eles habilitavam os seus confidentes nas localidades mais importantes a propagar e alentar a premeditada hostilidade;

Que esta hostilidade era tanto mais digna de temer-se quanto a patrocinavam, dando toda a força que podiam aos negociantes do Recife, o governador Caldas, da Baia, onde estava, e até alguns fidalgos portugueses, por exemplo d. Francisco de Souza e seu filho d. João de Souza, que se achavam então no sul da província;

À influencia destes dois fidalgos já deviam os mascates a forte cooperação do coronel dos índios do Cabo, d. Sebastião Pinheiro Camarão, parente do grande Camarão, que tanto brilhara na guerra holandesa. D. Sebastião Pinheiro deixara seduzir-se por eles, bem como outros importantes moradores da freguesia do Cabo;

Que tinha Amador da Cunha (irmão de João da Cunha) recebido ordem do capitão-mór de Jaboatão para ir com sua gente por certo ao Recife, segundo o acordo havido com os capitãesmóres de Maranguape, Iguarassú, Várzea, Santo-Antão, São-Lourenço, Nossa-Senhora-da-Luz, Ipojuca, Tracunhaem, Serinhaem e outras freguesias, afim de ver se conseguia que se rendessem os revoltosos;

Que a ele, Amador, se lhe afigurava, pelos obstáculos conhecidos ou calculados, terem os pernambucanos guerra para muitos anos, se Deus não conjurasse o medonho cataclismo que ameaçava devorar honras, fortunas e vidas.

Enfim, tanto as cartas de Amador, como as de André e outros, acordes em quase todos os pontos e noticias, respiravam sobressaltos, inquietações e até desanimo. Havia porém no meio das trevas, que traziam, um ponto luminoso, que em todos os corações projetou um raio de esperança. Era a noticia de que o bispo se tinha libertado, por uma pia fraude, do poder dos mercadores.

O ódio, a ira, o receio, a impaciência e outros diferentes sentimentos tiveram por minutos perplexo e mudo o senhor-de-engenho.

Quando estava para tomar parte nas reflexões que os outros, durante o seu silencio, iam fazendo sobre o objeto da correspondência lida, umas das senhoras que se achavam na sala imediata, apareceu à porta do aposento. Era a mulher de Matias Vidal.

— É então certo que os mascates se mostram fortes e insolentes? Perguntou ela ao sargento-mór.

— Quem vos disse tal, senhora d. Izabel? Retorquiu ele.

— As cartas que acabastes de ler, respondeu d. Damiana, aparecendo também. Daqui ouvimos toda a leitura.

— Infelizmente parece que vamos ter guerra para muito tempo.

— Que vos dizia eu ainda ontem, Matias? Disse d. Izabel, dirigindo-se ao marido.

— As guerras, observou Manoel de Lacerda, se trazem males, também trazem bens. Demos tempo ao tempo.

E levantando-se, encaminhou-se para a sala, aonde d. Damiana e d. Izabel retrocederam logo. Já aí estavam Cosme Bezerra e Filipe Cavalcanti, que a ele tinham precedido e conversavam com outras senhoras presentes.

— Estes mascotes não estão em si, dizia d. Maria Bezerra a seu marido. Não querem ver que não podem levar a melhor a nobreza da terra. Até os de Goiana, que não são muitos, hão de apresentar-se contra os nobres, disse o alcaide-mor.

— Também os de Goiana? Inquiriu com incredulidade a mulher de João da Cunha. A senhora d. Damiana duvida que o façam? É porque ignora que os do Recife mandaram grossas quantias para cá comprar a gentalha que nos odeia. Antonio Coelho, do balcão de sua loja, que considera um trono, só tem para os nobres injurias e desprezos. Belchior Ferreira, de certo tempo a esta parte, monta guarda a horas certas todos os dias, em companhia de Romão, na botica do Rogoberto, e leva horas a dizer maldades e aleives contra os senhores de engenho.

Não admira, Tras sempre a imaginação excitada pelo vinho que lhe dá a beber Antonio Coelho, os olhos encandeados pelo ouro que lhe mostra, mas não lhe dá, Jeronimo Paes, disse Cosme Bezerra.

Tenha a senhora d. Izabel certeza de que dentro em pouco há de soar em Goiana o grito da rebelião. Quem sabe se a este momento não estão tramando nos esconderijos dos seus armazéns, Antonio Coelho com seus sequazes, a destruição de todos nós?

— Façam o que fizerem — observou a mulher do sargento-mór, Goiana não há de render-se a eles. Porque não há de render-se?

— Não sabemos todos que Goiana é invencível porque todas suas igrejas têm as frentes voltadas para dentro dela?

— É verdade — disse uma senhora, que até esse ponto assistira à conversação sem tomar parte nela.

— E d. Maria Bezerra acudiu em apoio da velha, confirmando o que dela ouvira. Abusões do povo, contestou Cosme.

— Os antigos já o diziam, replicou d. Maria e os antigos não diziam senão a verdade. Minha avó contava-me muitos casos de guerras, em que os que vinham a tomar Goiana ficavam destruídos ou presos nela, e nunca a puderam dominar. Os santos das igrejas olham pelos moradores. Vão lá contar destas historias a Antonio Coelho e a Jeronimo Paes, que hão de vê-los responder à crença do povo com risos mofadores. É porque eles são dois refinados hereges, disse a velhota. E como hereges hão de acabar. Quem for vivo há de ver. Talvez que nesta guerra mesma que eles preparam, venha o seu fim encoberto.

O crepitar das labaredas com que as fogueiras iluminavam todo o largo pátio do engenho; as detonações das armas de fogo que de todos os lados estavam indicando quanto o S. João é estimado pelo povo, fizeram enfim inclinar para a festa as atenções até então absorvidas nas tristes apreensões que o grave acontecimento suscitava.

Como se compreendessem a conveniência de auxiliar esta nova disposição dos espíritos, as escravas copeiras entraram nesse momento na sala, conduzindo bandejas com bolos e doces, de que começaram a servir-se os hospedes.

Dentro em pouco a conversação, ainda presa por uma ponta à guerra, espalhava-se pela outra em vários assuntos mais próximos e positivos. Praticou-se da abundância das chuvas, e do mal que tinham feito às canas e à roça; da escassez da farinha; da carestia da fazenda.

A razão porque a farinha não aparece no mercado, observou Manoel de Lacerda, é porque os mascates se atravessam e compram por atacado a que encontram. A razão do alto preço da fazenda é porque são eles os que a vendem.

Vai por estes dias à praça o engenho de Martins por execução que lhe move o Porto, disse Felipe Cavalcanti. Por um ano que Porto levou a suprir o engenho de Martins, fez-se credor deste em avultada quantia. Absorveu-lhe três ou quatro safras, e por fim, não contente com este resultado ainda, propôs-lhe ação em juízo e o obriga agora a dar o engenho a pagamento. Entretanto, observou Cosme Bezerra, Porto está rico. O açúcar, que recebia do Martins, em pagamento, a 400 réis a arroba, remetia a seus correspondentes na Europa à razão de 1$400.

— Só por este modo poderia ele abrir os dois importantes armazéns que estabeleceu no Beco-do-pavão, observou Jorge Cavalcanti.

— E que é feito de Martins? Perguntou um.

— Está pobre, e é hoje meu lavrador, respondeu Matias Vidal.

— E não havemos de pegar em armas contra os mascates! Exclamou Cosme Bezerra.

Foi neste ponto interrompida a conversação pela entrada de Francisco e de Lourenço. Vendo-os, o sargento-mór chamou-os ao gabinete onde minutos antes se celebrara em família a grave conferencia a que assistimos.

— Aqui está o rapaz, seu sargento-mór, disse Francisco, entrando no gabinete.

Estava impaciente pela tua volta. Dize-me cá. O rapaz poderá partir para a capital, ao nascer da lua?

— Quem? Eu? perguntou Lourenço.

— Tu mesmo, Lourenço.

— Posso partir já, assim o ordene vosmecê.

— Estás pronto de tudo?

— De tudo estou, porque nada tenho que aprontar.

— Se Francisco não tivesse chegado há pouco, ele é que havia de ir. A incumbência é de gravidade.

— E que tem que eu tivesse chegado há pouco? Perguntou o matuto.

— Estás cansado. Já não és menino para resistires a duas jornadas forçadas uma atrás da outra.

— Perdoe-me vosmecê, seu sargento-mór. Muito me agrada fazer pessoa em meu filho. Mas se é somente por me supor cansado da viagem que o escolheu, dê preferência a mim, para ir à cidade, eu devo dizer a vosmecê que estou mais pronto do que ele para fazer a viagem. Faço de conta que tomei o rancho em Goiana, e que a minha parada é na Paraíba. Lourenço é digno de toda a confiança dos homens de bem. mas é ainda muito moço, tem viajado pouco por esses caminhos, e sem ele o querer, pode sair o seu serviço mal feito. Vosmecê entregue-me o que tinha para ele, que em menos de uma hora já estou no caminho de Olinda. Só peço licença para ir ao Cajueiro dar um adeus à minha velha.

— Pois vai. Quando voltares, receberás as minhas ordens.

— Senhor, sim.

Dentro de poucos minutos, pai e filho estavam no Cajueiro; e quando a luz apontava por cima da mata, já aquele se achava uma légua distante da vila, em direitura para a capital.