O Piolho Viajante/XIX

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XIX


Pedro se chamava o Preto. Tinha os seus cinquenta anos mas não o mostrava muito. Tinha casado com uma branca porque havia então muita falta de pretas, a qual se ocupava em fazer fatias de parida. Ele caiava. Mas era um Preto tão cordato que andava fazendo diligências para entrar para o cais do carvão e ser carvoeiro. Mas eram-lhe todos opostos apesar da grande razão que dava, que lhe parecia mais próprio que os brancos caiassem e que os pretos acarretassem carvão. Mas apesar de tão bem arrazoado nunca obteve nada, nem creio que o conseguisse porque os outros também davam a sua cartada, dizendo que era ocupação que sempre tinha andado por gente branca.

Continuava com o mesmo ofício mas com bastante desgosto e mesmo não tinha o melhor jeito.

Por mais insignificante que seja o ofício, é preciso haver natureza. Umas casas caiadas por ele! Era o mesmo que forradas de papel pardo. Mas tinha mais ofícios, como já disse: barbeava e penteava um cabelo curto menos mal; botava o seu tacão; vendia fuzis e pederneiras. Jogava a espada da sua cor, no que tinha seus discípulos e tão bons que já davam bote no mestre.

Tinha um filho chamado Tomé que já sabia ler e escrever e muitas coisas mais e tinha apenas vinte e cinco anos. Seus pais tinham tido muito cuidado na sua educação. Também já começava a caiar e tinha muito mais propensão. Trinta réis de cal na sua mão dava três demãos numa casa. Era uma das crianças mais espertas que eu tenho visto. Dizia os nomes de todas as pessoas que iam à casa e pessoa que visse uma vez, raras vezes lhe escapava que não a conhecesse. Já daquela idade se penteava, vestia, despia, dormia sem precisão de ninguém. Era galante criança! E seus pais, no seu tanto, traziam-no muito asseadinho. Mas eu vivia muito aflito porque não me entendia com aquela qualidade de cabelo e mais de uma vez me vi no perigo de quebrar as pernas. A única coisa que tinha a meu favor era dormir sempre em lã mas nunca vi pós nem banha. E, além da fome, trazia sempre uma nuvem negra sobre o coração, que não sabia o que me adivinhava. Dera tudo quanto tivesse, se o tivesse, por me ver livre dali, o que consegui numa função da Atalaia, passando para a cabeça de um gaiteiro que ia no mesmo barco e que se foi deitar junto do Preto a dormir, debaixo da coberta. Eu fiquei contente porque o tal gaiteiro usava de carapuça e, tendo a sua bastante velha, eu lhe fiz uma nova, que é a