O Rabicho da Geralda

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O Rabicho da Geralda
coletado por José de Alencar
Publicado em 1874 no jornal Globo do Rio de Janeiro, e posteriormente, na presente versão, por Silvio Romero em Contos Populares do Brasil, em 1954. (Ceará)
I

Eu fui o liso Rabicho,
Boi de fama conhecido;
Nunca houve neste mundo
Outro boi tão destemido.
Minba fama era tão grande,
Que enchia todo o sertão
Vinham de longe vaqueiros
Pra me botarem no chão.
Ainda eu era bezerro
Quando fugi do curral
E ganhei o mundo grande
Correndo no bamburral.
Onze anos eu andei
Pelas catingas fugido,
Minha senhora Geralda
Já me tinha por perdido.
Morava em cima da serra
Onde ninguém me avistava,
Só sabiam que era vivo
Pelo rasto que eu deixava.
Saí um dia a pastar
Peja malhada do Chisto,
Onde por minha desgraça
Dum caboclinho fui visto.
Partiu ele de carreira
E foi por ali aos topes
Dar novas de me ter visto
Ao vaqueiro José Lopes.
José Lopes que isso ouviu,
Foi gritando ao filho João:
—-Vai-me ver o Barbadinho,
E o cavalo Tropelão.
Dá um pulo no compadre,
Que venha com o seu ferrão,
Para irmos ao Rabicho,
Qu'há de ser um carreirão."

Foi montando o José Lopes
E deu linha ao Rarbadinho,
Tirando inculcas de mim
Pela gente do caminho.
Encontrou Tomé da Silva
Que era velho topador:
—-Dá-me novas do Rabicho
Da Geralda, meu senhor?
— Homem, eu não o vi;
Se o visse, do mesmo jeito
Ia andando o meu caminho
Que era lida sem proveito.
"Pois então saiba o senhor,
A cousa foi conversada,
A minha ama já me disse
Que desse boi não quer nada
Uma banda e mais o couro
Ficará para o mortório.
A outra será pra missas
Às almas do purgatório.

Despediu-se o José Lopes
E meteu-se num carrasco;
Dando num rasto de boi,
Conheceu logo o meu casco.
Todos três muito contentes
Trataram de me seguir,
Consumiram todo o dia,
E à noite foram dormir.
No fim de uma semana
Voltaram mortos de fome,
Dizendo: "O bicho, senhores,
Não é boi; é lobishome."

II

Outro dia que eu malhei
Perto duma ribanceira,
Ao longe vi o Cherém
Com seu amigo Moreira.
Arranquei logo daí
Em procura de um fechado;
Juntou atrás o Moreira
Correndo como um danado.
Mas logo adiante esbarrei
Escutando um zoadão;
Moreira se despenhou
No fundo de um barrocão:

"Corre, corre, boi malvado,
Não quero saber de ti,
Já me basta a minha faca
E a espora que perdi.
Alevantou-se o Moreira
Juntando todo o seu trem,
E gritou que lhe acudisse
Ao seu amigo Oherém.
Oorre a ele o Cherém
Com muita resolução:
—— "Não se engane,sô Moreira,
Que o Rabicho é tormentão.
"Ora deixe-me, Cherém;
Vou mais quente que uma brasa.
Seguiram pela vereda
E lá foram ter à casa.

III

Resolveram-se a chamar
De Pajeú um vaqueiro;
Dentre todos que lá tinha
Era o maior catingueiro:
Ohamava-se Inácio Gomes,
Era um cabra coriboca,
De nariz achamurrado,
Tinha cara de pipoca.
Antes que de lá saísse
Amolou o seu ferrão:
"Onde encontrar o Rabicho
Dum tope o boto no chão.

Quando esse cabra chegou
Na fazenda da Gruixaba,'
Foi todo o mundo dizendo:
Agora o Rabicho acaba.
"Senhores, eu aqui estou,
Mas não conheço dos pastos:
Só quero me dêem um guia
Que venha mostrar-me os rastos.
Que eu não preciso de o ver
Para pegar o seu boi;
Basta-me só ver-lhe o rasto
De três dias que se foi."

IV

De manhã logo mui cedo
Fui à malhada do Chisto,
Em antes que visse o cabra
Já ele me tinha visto.
Encontrei-me cara a cara
Com o cabra topetudo;
Não sei como nesse dia
Ali não se acabou tudo.
Foi uma carreira feia
Para a Serra da Chapada,
Quando eu cuidei, era tarde,
Tinha o cabra na rabada.
"Corra, corra, camarada,
Puxe bem pela memória;
Quando eu vim da minha terra
Não foi pra contar história."

Tinha adiante um pau caído
Na descida de um riacho;
O cabra saltou por cima,
O ruço passou por baixo.
"Puxe bem pela memória,
Corra, corra, camarada;
Quando eu vim de minha terra
Não vim cá dar barrigada."
O guia da contra-banda
Ia gritando também:
"Veja que eu não sou Moreira,
Nem seu amigo Cherém."

Apertei mais a carreira,
Fui passar no boqueirão.
O ruço rolou no fundo,
O cabra pulou no chão.
Nesta passagem dei linha,
Descansei meu coração, .
Que não era desta feita
Que o Rabicho ia ao moirão.

O cabra desfigurado
Lá foi ter ao carrapicho:
—— Seja bem aparecido,
Dá-me novas do Rabicho?
"Senhores, o boi eu vi,
O mesmo foi que não ver,
Pois como este excomungado
Nunca vi um boi correr."
Tornou-lhe o Goes neste tom:
—— Desengane-se co'o bicho;
Pelos olhos se conhece
Quem dá volta no Rabicho.
Esse boi, é escusado,
Não há quem lhe tire o fel;
Ou ele morre de velho,
Ou de cobra cascavel.

V

Veio aquela grande seca
De todos tão conhecida;
E logo vi que era o caso
De despedir-me da vida.
Secaram-se os olhos d'água
Onde eu sempre ia beber,
Botei-me no mundo grande,
Logo disposto a morrer.
Segui por uma vereda
Até dar num cacimbão,
Matei a sede que tinha,
Refresquei o coração.
Quando quis tomar assunto
Tinham fechado a porteira;
Achei-me numa gangorra
Onde não vale carreira.
Corrigi os quatro cantos,
Tornei a voltar atrás,
Mas toda a minha derrota
Foi o diabo do rapaz.

Correu logo para casa
E gritou aforçurado:
"Gentes, venham depressa
Que o Rabicho está pegado"
Trouxeram três bacamartes,
Cada qual mais desalmado;
Os três tiros que me deram
De todos fui trespassado.
Só assim saltaram dentro,
Eram vinte pra me matar,
Sete nos pés, dez nos chifres,
E mais três pra me sangrar.
Disse então o José Lopes
Ao compadre da Mafalda:
"Só assim nós comeríamos
Do rabicho da Geralda".

VI

Acabou-se o boi de fama,
O corredor famanaz,
Outro boi como o Rabicho
Não, haverá nunca mais.